08 de julho de 2026
Articulistas

Etanol

Luiz Alberto Coradi
| Tempo de leitura: 4 min

A substituição do genérico "álcool" pelo específico "etanol" (álcool etílico) é correta e mais apropriada para um produto que, pretende-se, seja futuramente uma "commodity" mundial, embora o termo só deva entrar no vocabulário corriqueiro do consumidor com o passar do tempo. Mas o problema atual do produto não é o seu nome, mas sim o seu preço, que subiu às alturas nas últimas semanas, a ponto de se ouvir de frentistas que só abastece com álcool quem tem carro movido exclusivamente com esse combustível, o que é uma minoria, presumivelmente muito contrariada. Justificativas não faltam para essa disparada dos preços: aumento vertiginoso da frota flex, entressafra, exportação, falta de estoque regulador, especulação, etc.. Na realidade, todos esses fatores contribuíram para a situação atual que tem deixado o consumidor indignado, mas na realidade todos eles são decorrentes de uma só causa: a velha e irrevogável lei da oferta e procura. Com o desenvolvimento dos motores flex, aparentemente o problema da disparidade de preços do álcool seria resolvido, tendendo para um equilíbrio durante o ano, sem grandes variações. Mas aí entra um complicador para bagunçar um pouco esse mercado: o açúcar. Se o consumidor tem o carro flex para forçar os preços para baixo, o usineiro tem a "usina flex" como um trunfo equivalente a seu favor.

Houve um tempo em que existiam muitas destilarias no país, que produziam exclusivamente álcool, e que teve o seu apogeu na década de 80, auge do "Proálcool", programa governamental de incentivo à produção do combustível. Hoje, praticamente todas as unidades produtoras são usinas de açúcar e álcool, ficando a critério do setor alte rar a cada safra o seu "mix" de produção, ou seja, produzir mais álcool ou mais açúcar de acordo com a sua conveniência. O álcool ainda engatinha para ser uma commodity mundial, e talvez nunca chegue a ser, mas o açúcar é. Então, ocorrendo aumento da demanda pelo açúcar por um motivo qualquer (elevação do consumo, quebra de safra em países produtores, etc.), o preço sobe e pode tornar muito mais vantajoso para o usineiro aumentar a produção de açúcar, em detrimento do álcool. Só que para completar esse já complexo jogo, entra em cena a mais importante das "commodities" internacionais: o petróleo, cujo preço flutua ao sabor das ondas e tsunamis da instabilidade política dos principais países exportadores. Mesmo diante desse cenário, em que fatores diversos e imprevisíveis podem ser decisivos, ainda assim o mercado tende a equilibrar-se, pois os principais personagens contam com essas armas poderosas numa disputa em que não deve haver ve ncedor: o consumidor conta com um instrumento ágil sob seu controle, o carro flex, e outro sobre o qual não exerce qualquer influência, o preço da gasolina; da mesma forma o usineiro conta com a flexibilidade do seu mix de produção, não tão ágil mas sob seu controle, e o preço do açúcar, sobre o qual ele não pode interferir.

É de se esperar, portanto, que após breves oscilações, esse equilíbrio de forças volte a estabilizar os preços em patamares adequados, muito próximos do fator de equivalência álcool/gasolina (tecnicamente estabelecido em 0,7), permitindo manter viável a utilização de carros flex e a solidez do parque industrial sucroalcooleiro (ou mais modernamente "sucroenergético"), apesar de ambos estarem sujeitos a solavancos pelo caminho. E nessa luta incessante em que os consumidores querem pagar menos e os produtores querem lucrar mais, é de se esperar que, desta vez, não ocorra o mesmo lamentável desfecho de algumas décadas atrás com os motores a álcool, varridos do mercado por consumidores desiludidos em filas quilométricas nos postos de combustíveis. Esperar que o governo intervenha nesse mercado, como se ouve hoje pelas ruas, não passa de ilusão, não se podendo esperar dele mais do que medidas paliativas como as que vem tomando atualmente: importar álcool (de milho) dos Estados Unidos, uma ironia do destino, além de gasolina, para evitar o agravamento do problema com eventual desabastecimento e o descrédito de um produto que, mesmo não sendo a salvação da lavoura como muitos ingenuamente acreditavam, constitui-se num importante elemento da matriz energética brasileira, provavelmente a mais diversificada e menos vulnerável do mundo, para felicidade geral da nação.

O autor, Luiz Alberto Coradi, é engenheiro agrônomo