08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O belo e o repugnante


| Tempo de leitura: 2 min


Cena 1 - Uma borboleta estava estática na janela do décimo-sexto andar. Começou a bater as asas. Decidi que era hora de decidir por ela. Estava machucada? Estava apenas receosa? Era alto demais? Desaprendeu a voar? Cutuquei. Poderia pôr fim a vida dela, ou não. De qualquer forma, a redenção da borboleta estaria próxima. Foi quando ela percebeu que o clímax chegara. Hora de decidir por si mesma, com a minha ajuda. Com todas as forças, bateu asas e voou. Longe.

Cena 2 - Estava no banheiro, precisamente perto na privada. Dei a descarga. Olhei a descarga. Estava em pé, de frente para a privada. De repente, observei que um objeto estranho emergia daquela suja água. Era um ser vivente que se contorcia. Não media forças. Pensava que não poderia ser um alface, alfaces não tem coloração acinzentada nem patinhas e rostinho de pavor. "Era eu ou ele", pensei. Poderia entupir a privada, ou não. A descarga era, naquele momento, a minha arma. Não medi as consequências.

Presos, os dois. A cidade e os seus caprichos, canos e janelas que oferecem impermanente segurança. A nossa predileção inexplicável pelo belo, a repugnância que oferecemos ao duvidoso. A batalha interminável por espaço e pelo pesadelo que é existir, que é se esconder.

Entre o destino de ser ou ficar, as cenas terminam de forma equivalente: o belo travou um duelo com forças extrínsecas, e precisou de apenas um "empurrão" para se ver livre da prisão, do seu segundo casulo. Liberto, o belo alçou vôo, errante mas feliz e confiante. O destino está traçado por cores e alegria. Dá gosto de ver, atravessar uma experiência tão rica, tão áurea!

Quanto ao repugnante... o que dizer dele? Varremos para baixo do pano, damos descarga... usamos reticências para tratar do assunto... não temos interesse algum em cruzar com eles! Evitamo-lo. É assim que funciona. Não damos vazão à sua existência, é o onírico invadindo nosso espelho. Tratamos o verme como algo que nem reconhecemos vida. E sim, está ao nosso lado. Ao nosso alcance. Existe, tanto quanto o belo. E quão importante é o asco, a repugnância!

Mas eu não quero saber, nem lembrar. Se o belo e o repugnante ocupam ainda posições opostas na nossa existência, é porque ainda nutrimos simpatia a essas fórmulas - enquanto seres movidos por história, cultura e instintos. A estética faz as escolhas. Portanto, a borboleta voa. E o rato, vai para o ralo.

Estariam eles cumprindo uma determinação natural? Ou são efeitos da minha subjetividade? De qualquer forma, cada qual cuida do seu vôo e do seu esconderijo. Essa é a questão.


Bruno Emmanuel Sanches