09 de julho de 2026
Articulistas

Quo vadis, domine?

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A criança pergunta à mãe se Deus é um coelho. O questionamento tem sua lógica diante da mistura que se faz hoje do divino com a necessidade de vender e realizar lucros. Sou do tempo em que mercado era a quitanda da esquina. Hoje é um intrincado jogo interpretativo das influências marcadas por fatos globais. A guerra no Líbano tem a ver com a queda do dólar que faz cair o preço do bacalhau. O ovo de Páscoa, feito de chocolate já obedece a outros parâmetros, inflacionado pelo preço do cacau no mercado internacional, o custo da embalagem e os altos impostos. Antigamente inflação era chamada de "carestia". O mundo mudou e até hoje ninguém explicou às crianças que coelho não bota ovo. O animal é exemplo da fertilidade e o ovo simboliza o início de uma nova vida, talvez marcada pela Ressurreição de Cristo. Mas, é preciso que alguém explique.

Quando eu criança, a Quaresma era marcada pelas novenas da minha mãe e a abstenção da carne. As imagens das igrejas eram cobertas por panos roxos. A procissão do Nosso Senhor morto vinha marcada por respeitosa reverência, como se tivesse morrido um parente. Dias antes a gente recortava a cartolina que iria servir de anteparo para proteger a chama da vela contra o vento do outono. O cortejo noturno era iluminado pelos milhares de lumes e tinha cheiro de incenso. A bandinha cerrava a fila com marchas fúnebres até que a procissão de uma igreja se encontrasse com a de outra igreja, engrossando a caudal de fiéis. Na Sexta-Feira Santa os homens não faziam nem a barba e as emissoras de rádio tocavam músicas clássicas e temas orquestrados. Minha sobrinha casou-se anteontem em cerimônia espírita, com todas as bênçãos e circunstâncias. E que Deus permita que o casal seja feliz. Quem organizou o jantar cuidou de oferecer massas e frutos do mar para seguir as regras da abstenção à carne de animais de "sangue quente".

O livro de não-ficção mais importante do século 20 - A ética protestante e o espírito do capitalismo -, de Max Weber (1864-1920), mostra bem, desde 1904 quando foi publicado, o progressivo abandono do misticismo, ou seja, a experiência em que a divindade se mistura ao corpo do indivíduo. Desde o século passado iniciou-se uma prática ascética que leva à separação definitiva entre o homem e Deus. Antes do início dos tempos Deus decidiu os que estão fadados à salvação e os que estão condenados à danação, não restando ao homem nenhuma alternativa de reversão "mágica" de sua sentença. Os puritanos calvinistas, diz Max Weber, decidiram que "Deus não se comunica com os homens". A grande questão religiosa para os puritanos passa a ser, então, a de saber quais os sinais perceptíveis pelos quais se pode intuir se uma alma está predestinada à salvação ou à perdição.

Os protestantes solucionaram duplamente essa inquietação, ao longo do tempo: em primeiro lugar considerou que a perda da autoconfiança é sinal de falta de fé (característica dos condenados). Em segundo lugar, para alcançar a autoconfiança o calvinismo recomendava uma dedicação intensa e metódica a uma atividade profissional. Em tal sistema de crenças, o lucro foi entendido como frutificação do trabalho, sinal de predestinação à salvação, desde que não utilizado com usura, para satisfação de prazeres da carne, o que, na prática, resultou num estímulo para reaplicação do excedente de produção. Tudo o que o trabalho - considerado fim em si mesmo, "vocacional" - gera é sinal de aprovação divina, que deve ser aplicado ao ciclo de produção para gerar mais trabalho, mais lucro, mais sinais de graça. Segundo o sociólogo, o mundo que os protestantes ajudaram a criar tornou-se dominante. Os Estados Unidos são potência em cima de uma prática calcada na moral calvinista.

Quando Nero começou o martírio dos cristãos em Roma, Pedro resolve abandonar a cidade. Na Via Apia encontra-se com Jesus e pergunta: "Onde vais, Senhor?"(Quo vadis, Domine?). E Ele respondeu: "Vou a Roma para ser crucificado novamente". Pedro deu meia- volta e cumpriu o seu destino de edificar a Igreja e morrer crucificado, de cabeça para baixo para não ter a honra de um sacrifício igual ao do Mestre. A fé e a preocupação com o outro não fazem parte do "espírito do capitalismo".


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC