08 de julho de 2026
Bairros

60 quadras e muita história e referências

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 10 min

Enfim, Nações!


Trinta e um anos. Este foi o tempo que Catarina Maria Araújo de Almeida, 59 anos, teve de esperar para poder olhar para a rua da janela de sua casa e ver belas pistas de asfalto.

Ela se mudou para as primeiras quadras da avenida Nações, no trecho que fica após o início da avenida Moussa Tobias, quando o local ainda era repleto de mato e terra.

Para construir sua casa, teve de improvisar e carregou em uma carriola, por várias quadras, pedra, tijolo, cimento, barras de ferro, e muitos outros tipos de materiais, já que o caminhão do depósito não conseguia passar pelas erosões existentes nas proximidades e só chegava até a rua Francisco Medina Rubio, há alguns metros de seu terreno.

"A sorte é que por aqui tinha bastante terra, então não precisamos fazer o duplo esforço de comprá-la e carregá-la", brinca.

Mas construir a casa era somente a primeira adversidade que Catarina teria de enfrentar. Com o imóvel em pé, ela teve ainda de batalhar por água, energia elétrica e até para a localização no mapa da cidade da rua onde mora, que atualmente se chama José Baro.

"Eu ia todo santo dia na prefeitura pedir para darem um nome para a rua, colocarem água e energia. Cheguei a ouvir de muita gente que ninguém tinha mandado eu escolher um buraco para morar. Hoje o buraco é a Nações Norte, o maior empreendimento da cidade", comemora, com sorriso no rosto.

O início das obras, no ano passado, foi, para Catarina, a prova de que a espera não foi em vão. Junto de um maquinário pesado, muitos funcionários e toneladas de concreto, ela recebeu a notícia de que novos vizinhos estão por chegar, entre eles uma nova faculdade, lojas de grande porte e um belo parque.

"Fiquei sabendo que o parque daqui vai ser muito mais bonito que o Vitória Régia, e o melhor: pertinho de casa. Estou ansiosa para ver a obra pronta. Comi poeira por muito tempo. Acho que mereço, né?!", avalia, empolgada.

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Um norte para a Nações


Quem quiser enviar uma carta ou encomenda para o estabelecimento comercial de José Riguetti, 59 anos, basta endereçá-la ao número 1-131 da avenida Nações Unidas Norte.

Parece simples? Mas até pouco tempo não era. Isso porque, pouca gente já reparou, mas a Nações tem duas quadras 1, uma antes e outra depois da avenida Nuno de Assis, fato que causava grande confusão entre comerciantes, clientes, carteiros e qualquer outra pessoa que precisasse escolher entre as duas quadras ?1? para chegar ao seu destino.

Isso aconteceu porque quando a via ganhou numeração, o trecho após a Nuno ainda não existia. Porém, com o crescimento da cidade, aos poucos, comerciantes foram prolongando por conta própria o trajeto.

Riguetti foi um dos primeiros. Quando instalou sua loja de peças automotivas no local, há 17 anos, quase não tinha vizinhos, a quadra ainda era de terra e seu comércio não tinha numeração.

"Fui na prefeitura para pedir um número para a loja e a moça me disse que nem existia esse trecho. Tive de provar para ela que existia, sim. Com isso, ela não sabia que número dar, pois já existia uma quadra 1 e não dava para endereçar como Nações Unidas quadra menos 1. Foi quando sugeri colocar o Norte na frente da nomenclatura", conta, orgulhoso, assumindo a autoria da atual nomenclatura. De lá para cá, os problemas acabaram e o trecho passou definitivamente a ser conhecido como Nações Norte, nome que se estendeu para o prolongamento da via que está sendo ligada à rodovia Bauru-Marília. Contudo, as placas ainda não dizem isso.

"Mudou só de boca. Precisava consertar essas placas, colocar um norte aí", reivindica.

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Um norte para a Nações


Quem mora em Bauru já sabe: em dias de chuva, corte volta da avenida Nações Unidas, especialmente no trecho compreendido entre o Parque Vitória Régia e o Teatro Municipal. A avenida, famosa por sua beleza, é traiçoeira. Quem já esteve no local em dias de chuva intensa pode relatar momentos de horror. É que devido ao seu posicionamento geográfico, toda vez que chove, o volume de água aumenta rapidamente. Porém, em alguns trechos, o sistema que recebe esta água suporta apenas um terço da vazão estimada, sendo assim, a enxurrada passa por cima da avenida, adquire velocidade e sai arrastando tudo o que encontra pela frente.

Em dezembro do ano passado, por exemplo, um rapaz de 24 anos morreu arrastado pela força da correnteza. Um cinegrafista amador, que estava em uma casa próxima do local, registrou tudo. Depois do episódio, a população e o poder público passou a discutir alternativas para acabar com o problema que acompanha a avenida desde seu nascimento, há 50 anos.

De acordo com informações da prefeitura divulgadas na época, resolver o problema custaria ao menos R$ 25 milhões. Com esse dinheiro seria possível transformar o Parque Vitória Régia em uma bacia de contenção, aumentar a capacidade de vazão do sistema que recebe a água da cidade que segue para o Córrego das Flores, rio canalizado sob a avenida, e interceptar as águas de alguns bairros para dirigir diretamente ao Rio Bauru. Problema que, até o momento, ainda está sem solução.

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Centro cultural


Proporcionar aos bauruenses várias atrações culturais em um só lugar. Este é o principal objetivo do Centro Cultural "Carlos Fernandes de Paiva", localizado na quadra 8 da avenida Nações Unidas e que abriga em seu prédio as instalações da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), o Teatro Municipal "Celina Lourdes Alves Neves", a Biblioteca Municipal "Rodrigues de Abreu", e a Galeria "Angelina Waldemarin Messemberg".

O complexo foi construído em 2000 e de lá para cá já foi palco para exposições, cursos, peças teatrais, shows, estudos, momentos de descanso na companhia de bons livros e até mesmo para polêmicas, grande parte delas envolvendo o teatro.

Problemas com o ar condicionado, com as instalações e com equipamentos deficientes fizeram com que, no fim do mês de janeiro, o espetáculo fosse interrompido no meio e o teatro fechasse as cortinas temporariamente para passar por uma reforma.

O prazo para a reabertura ainda não está determinado e, infelizmente, a única certeza dos bauruenses é a de que o show não pode parar.

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Vocação automobilística


Passar o dia com a sinfonia do ronco dos carros, motos e caminhões que transitam de forma ininterrupta pela avenida Nações Unidas pode ser, para muitos, um suplício. Porém, um determinado perfil de pessoas aprecia esta característica e ainda se beneficia delas: os proprietários de lojas do segmento automobilístico.

Ao longo da avenida existem pelo menos 50 estabelecimentos que alugam ou vendem carros e motos, novos ou usados.

Antônio Carlos Biason Sanches é um dos comerciantes que fixou ponto na avenida em busca de clientes. Ele herdou do pai a vocação para trabalhar com venda de veículos e já está há 27 anos no ramo.

Sua primeira loja foi aberta na rua Gustavo Maciel mas, com o tempo, Antônio Carlos percebeu que poderia a popularidade da Nações seria um facilitador para o seu comércio. "Vim para cá há quatro anos e penso que fiz bom negócio. A concorrência é maior, claro, mas os clientes preferem assim. Quando alguém quer comprar um carro vem direto aqui na Nações e percorre loja por loja. Muitos não pesquisam nem em outro ponto da cidade", conta.

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Flores e Frutas


Flores e frutas de qualidade e a preços baixos. Estas são as principais características da unidade de Bauru da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), localizada na quadra 50 da avenida Nações Unidas, que atrai clientes de Bauru e, principalmente, da região.

O espaço abriga 197 permissionários, que chegam no local por volta das 3h da madrugada para repor e organizar o estoque e só saem do local no fim da tarde, quando o último cliente vai embora.

Entre os produtos mais procurados no entreposto, além das flores, estão a laranja e o limão, que demoram poucas horas para chegar do produtor ao Ceagesp. Isto porque a região de Bauru, incluindo a própria cidade, já dá conta de produzir boa parte dos hortifrutigranjeiros. Motivo de comemoração por parte do consumidor, que consegue levar para casa produtos mais frescos e com um preço menor.

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Um lugar ao sol


Há oito anos, Marilena Saraiva, 50 anos, passou da condição de desempregada para a de comerciante com ponto na avenida Nações Unidas.

O salto aconteceu na mesma época em que o Hospital Estadual foi construído no município e o local passou a receber muitos pacientes de diversas cidades da região. Com o aumento na movimentação, Marilena enxergou no comércio informal de alimentos uma forma de dar uma guinada em sua vida.

"Não pensei duas vezes e comprei um trailler para vender lanche aqui perto. Primeiro me instalei na Luiz Edmundo Carrijo Coube. Depois, por conta da reforma na pista, fomos transferidos para a lateral do Hospital, na Nações", conta.

Ali, além dela, outras sete barraquinhas disputam o espaço na calçada e acostamento e a atenção de pacientes e visitantes que frequentam o local. Com a concorrência, os produtos são os mais variados possíveis, e vão de lanches e refrigerantes a caldo de cana, revistas e crédito para celulares.

"Na época, se eu tivesse de montar uma lanchonete em plena Nações Unidas para sobreviver, morreria de fome. O aluguel na região central é muito caro e a burocracia é enorme", explica ela, que comemora o fato de ter conseguido pagar a faculdade da filha com o dinheiro do trabalho.

E se engana quem pensa que Marilena almeja abandonar o local tão logo que tiver suas condições financeiras estabelecidas. "De jeito nenhum. Se eu tiver de montar uma lanchonete vai ser nesse terreno aqui em frente. Minha clientela já acostumou comigo. Não posso abandoná-los", justifica.

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Vitória Régia, a flor da Nações


Quem, a caminho do trabalho, logo pela manhã ou no meio da tarde, já passou pelos arredores do Parque Vitória Régia e se deparou com famílias, casais e até mesmo uma única pessoa deitada sob a sombra das grandes e belas árvores do local, apreciando a paisagem e esperando o tempo passar? Dá inveja ou não dá?

Dorival Soares, 42 anos, é um destes privilegiados. Só que, ao contrário da maioria dos frequentadores do local, ele consegue, além de desfrutar da paisagem, ganhar dinheiro. É que há três meses ele estabeleceu sua barraquinha de caldo de cana, sob a sombra de uma árvore na lateral do parque.

"O melhor ar-condicionado do mundo é o vento", afirma.

Com base na frase, não fica difícil perceber que, para ele, não foi sacrifício nenhum se acostumar com a bela paisagem. Entre um cliente e outro, Dorival aproveita para bater um papo, observar a movimentação e, é claro, refletir sobre sua posição de privilegiado.

"Quem tem um escritório assim? Aqui eu posso conversar a hora que quero, com quem eu quero... Sem contar os dias de chuva, que posso ficar em casa", analisa, em tom de brincadeira.

Com meio semestre de trabalho o comerciante já aprendeu muita coisa sobre o cotidiano do lugar e fez muitas amizades. Uma delas é a que mantém com o aposentado Carlos da Fonte, que volta e meia aparece por lá.

"Venho direto aqui. De manhã ando de bicicleta, de tarde tomo um caldo de cana e fico proseando, e de noite faço caminhada. Está bem. Vamos ser realistas. Para falar a verdade passo quase todo o meu dia aqui", confessa Carlos.

Como bons conhecedores de causa, tanto Carlos quanto Dorival reconhecem que o Parque precisa de mais segurança e algumas melhorias.

"Os banheiros não ficam abertos porque os vândalos destroem. Isso é muito ruim", aponta Dorival.

"Além disso, acho que muita gente deixa de vir aqui porque falta segurança e também porque às vezes a grama fica muito alta. Se a prefeitura desse um pouco mais de atenção, o Vitória Régia seria perfeito", frisa Carlos.

Ok, reivindicações feitas.