09 de julho de 2026
Geral

Cidades do Interior são alvo de traficantes de seres humanos

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 4 min

Uma proposta para ser modelo em outro país ou jogar num time de futebol. Os convites, a princípio, são bastante sedutores, mas são apenas alguns exemplos que alimentam o tráfico de pessoas, crime que já se transformou em um negócio lucrativo que por pouco não supera o tráfico de armas ou de drogas.

O Interior do Estado de São Paulo está na mira deste tipo de exploração de seres humanos, feito por grandes redes criminosas. Os principais alvos são transexuais, mulheres, crianças, adolescentes e jovens, que facilmente são aliciadas por criminosos. Essas vítimas têm suas vidas comercializadas em troca de abuso, fraude, ameaça, uso da força, que podem levar até a morte.

"Em Bauru, nós temos os profissionais do sexo, que são frequentemente aliciados, também crianças que são levadas ao mundo dos delitos e exploradas sexualmente; garotas que são convidadas para serem modelos ou a participar de festas para prática de sexo, sendo abusadas e estupradas", expõe Darlene Tendolo, titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes).

Na manhã de ontem, um comitê regional de enfrentamento ao tráfico de pessoas foi formalizado em Bauru. O órgão representa a união das instituições públicas nas esferas federal, estadual e municipais e a sociedade civil organizada para combater o problema.

Baseado no Plano Nacional contra o tráfico de seres humanos, os comitês regionais vão discutir medidas de prevenção, repressão e responsabilização dos criminosos e vítimas de tráfico de pessoas nas regiões administrativas do Estado de São Paulo.


Comitê


Anália Belisa Ribeiro, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do governo do Estado de São Paulo, esteve ontem em Bauru para oficializar o comitê na cidade.

"O governo de São Paulo, através da Secretaria de Justiça, vem implantando comitês regionais para promover a capilaridade de uma política pública de enfrentamento ao tráfico de pessoas em todo o Estado. Nós montamos 14 comitês regionais e Bauru é uma das regiões, um município polo que vai agregar todas cidades de seu entorno", explicou Anália.

"Neste comitê, nós vamos ter a presença da sociedade civil e do poder público, a exemplo do Ministério Público (federal e estadual), polícia, Poder Judiciário, entre outros órgãos. O objetivo é formatar uma rede para desenvolver ações nas áreas de prevenção, repressão e responsabilização e atendimento às vítimas do tráfico de pessoas", enfatizou.

Darlene, titular da Sebes, esteve na reunião e representou o prefeito Rodrigo Agostinho. "O prefeito abraçou a causa e vamos desenvolver um bom trabalho de atuação do comitê, com o objetivo de fortalecer o combate ao tráfico de pessoas", frisou.

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Rede criminosa


Anália Belisa Ribeiro, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do governo do Estado de São Paulo, salienta que o comitê formado ontem em Bauru ajudará a diagnosticar mais precisamente a realidade do Estado frente à ação da criminalidade organizada no tocante ao tráfico de pessoas, mas alerta que o Interior do Estado tem sido alvo de redes criminosas.

"O que temos observado dos casos que temos atendido no Núcleo em São Paulo é que existe uma malha criminosa extremamente ativa no Interior do Estado de São Paulo que alicia pessoas para o campo da exploração sexual, do trabalho escravo e tráfico de órgãos", alerta.

No Estado, os crimes mais comuns se associam ao trabalho análogo à condição de escravidão e à exploração sexual. "Este último tem como principais alvo as mulheres, sobretudo negras e jovens, além das crianças e adolescentes", indica Anália.

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Tudo começa com ?convite sedutor?


Os aliciadores que se beneficiam do tráfico de seres humanos apresentam características diferenciadas de outros criminosos.

"A princípio, eles não se comportam como pessoas violentas ou estranhas, que promovem sequestros. Geralmente, são pessoas que estão próximas ao convívio da vítima, que frequentam a comunidade e os mesmos locais de lazer da vítima. São pessoas que se aproximam afetivamente para gerar um nível de confiança", esclarece Anália Belisa Ribeiro, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do governo do Estado de São Paulo.

A vítima acaba levando esses aliciadores para seu convívio e agregando mais confiança ainda ao criminoso. "A família e os amigos acabam apoiando a ação desse criminoso sem conhecer a prática existente", aponta Anália.

E assim, certas propostas levam adultos, jovens e crianças a outros países, que acabam sendo usados, geralmente, para prática de sexo.