O mundo mudou, e com os anos chegou também a modernidade. Esta, por sua vez, trouxe carros mais potentes, ônibus, caminhões, aviões, enfim, muito barulho. Ontem, uma iniciativa promovida por várias entidades mundiais criou o Dia Internacional da Conscientização sobre o Ruído. Durante um minuto, das 14h25 às 14h26, o silêncio foi valorizado como algo valioso e raro no mundo todo.
Mas neste instante, o movimento de carros na avenida Nações Unidas, em Bauru, emitiu ruídos que atingiram o pico de 92,6 decibéis (DB), ultrapassando o limite audível de 80 DB.
Neste mesmo momento, a pedido do Jornal da Cidade, o engenheiro de segurança da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) Nélson Augusto Neto aferiu com um decibelímetro o índice de poluição sonora no cruzamento das avenidas Nações Unidas e Rodrigues Alves.
Com o semáforo fechado, ou seja, antes dos veículos avançarem pela Nações Unidas, o aparelho mediu 62,2 DB. Ao começarem a transitar pela via, o aparelho começou a captar mais ruídos produzidos pela aceleração dos veículos, e o índice saltou para 73,5 DB.
Posteriormente ainda houve oscilação entre 89,5 e 92,6 decibéis, quando ônibus, caminhões e escapamentos não regulados emitiam ruídos mais altos.
Para Nélson, os números mostram que a situação é crítica para quem fica exposto a essas intensidades diariamente.
"As normas dizem que 80 decibéis é o limite para não causar surdez. Mas nós sabemos que já existem estudos que mostram que pessoas expostas cerca de oito horas a ruídos entre 68 e 75 decibéis já apresentam sinais de surdez irreversíveis", destacou.
O engenheiro de segurança revela que em horários de pico, como às 18h, momento em que muitas pessoas voltam do trabalho e outras dirigem-se a escolas e faculdades, algumas avenidas de Bauru já chegaram a emitir ruídos entre 100 e 110 decibéis. Esse número pode ser equiparado ao som de uma serra elétrica ou de uma furadeira pneumática.
Dentre as sugestões de possíveis soluções para amenizar o problema ou acabar com ele estão o rodízio de placas, que já acontece na cidade de São Paulo - para reduzir o número de veículos circulando a cada dia -, além de um controle rígido com a manutenção dos automóveis, principalmente nos escapamentos.
Ações educativas na FOB
Estudos indicam que o ruído está entre os principais agentes causadores de estresse, insônia, depressão e até perda auditiva que levam a mudanças físicas e psicológicas negativas nos seres humanos. Por isso, pelo menos um minuto do dia de ontem foi reservado para a conscientização e valorização do silêncio.
O lema da campanha do Dia Internacional da Conscientização sobre o Ruído no Brasil deste ano é: "Não deixe o ruído invadir a nossa cidade". Para que isso aconteça, a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP) programou duas atividades distintas para a data.
O primeiro momento inclui palestras em Unidades Básicas de Saúde, que receberão os palestrantes durante esta semana. Fonoaudiólogos também farão visitas a empresas, ministrarão palestras e distribuirão folderes da campanha aos trabalhadores.
Moradores de prédio em ligação de
avenidas convivem com o barulho
Em meio aos ruídos emitidos constantemente pelos automóveis e motocicletas que passam a todo momento pelo cruzamento das avenidas Nações Unidas e Rodrigues Alves está o Edifício Brasil-Portugal. A obra foi o terceiro prédio a ser construído na história da cidade, em 1964.
Ao contrário do que se pensa, alguns dos moradores dos 48 apartamentos do edifício relataram à equipe de reportagem do Jornal da Cidade que gostam de morar no local e que pouco se importam com o barulho.
Um exemplo é o de Tamar Innocenti Flaminio, que mora em um apartamento localizado no terceiro andar do edifício com sua mãe, Inez Celina.
"Imagine, nós moramos aqui há 20 anos e adoramos o barulho. Eu adoro morar aqui e não me importo, pelo contrário, gosto muito desse movimento", disse Tamar.
Inez completou o depoimento da filha. "Eu também gosto. Dá a impressão de que nunca estamos sozinhas", disse, aos risos.
Um pouco mais acima, no 12º andar, a equipe de reportagem encontrou Graciema Achoa, que mora há 26 anos no edifício junto do marido Salim. Ela também disse que não se importa com o ruído dos veículos e o barulho de sirenes e buzinas.
"Nós já moramos em outro prédio da avenida Rodrigues Alves, então, estamos acostumados. O que mudou é o cenário. Antigamente havia muitas casas por aqui e dava para ver até o início da rodovia Marechal Rondon. Hoje a avenida Nações Unidas virou um corredor comercial", contou.