09 de julho de 2026
Geral

Estudo genético inédito vai ser testado em paciente do Centrinho

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Uma forma inovadora de identificar alterações genéticas por meio do sequenciamento de DNA será testada pela primeira vez no Brasil em uma paciente do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC-USP/ Centrinho). Mais barata, rápida e eficaz do que o mapeamento tradicional do genoma, a nova técnica pretende identificar genes responsáveis por síndromes raras ainda não diagnosticadas ou com diagnósticos imprecisos. A partir dos testes, que devem ser iniciados até julho, a intenção é melhorar a qualidade do tratamento dos pacientes.

O projeto-piloto é liderado pelo pesquisador irlandês Robert Pogue, professor da Universidade Católica de Brasília, que procurou o Centrinho com o objetivo de encontrar o paciente ideal para pôr o estudo em prática. No centro de excelência de Bauru, encontrou uma garota portadora de uma doença ainda não identificada. "Ela é moradora de Brasília e, como todo o procedimento será realizado lá, é a pessoa ideal para que possamos iniciar nossos testes", comemora Pogue, que está na cidade para participar do "I Encontro Internacional de Anomalias Craniofaciais: Fenótipo Clínico, Genes Relacionados e Novas Perspectivas", realizado pelo Centrinho.

O pesquisador explica que, em vez de mapear todo o genoma humano, a nova abordagem irá investigar apenas o exoma, uma pequena parte do genoma (entre 1% e 2%) que contém os códigos genéticos proteicos, chamados exons. O primeiro passo será extrair o DNA da paciente e de seus pais. O material genético será fragmentado e, em seguida, os exons serão separados e processados em laboratório por um equipamento de alto desempenho, ainda pouco utilizado no Brasil.

Quando os três mapeamentos ficarem prontos, serão analisados pela equipe de cientistas envolvida no projeto. Como cada um dos sequenciamentos - da paciente e de seus pais - possui cerca 30 milhões de núcleos genéticos (ACGT) a serem comparados para detectar um único em comum que possa apresentar alteração, os pesquisadores contarão com o suporte de programas de bioinformática.

"O DNA do paciente e dos pais também serão comparados com a sequência do genoma humano (que não apresenta ?defeito?). A partir desta análise, esperamos encontrar a mutação genética responsável pela anomalia", aponta ele.

Resultados


Depois de concluir o projeto-piloto, Pogue pretende publicar os resultados, o que deve acontecer daqui a aproximadamente seis meses. "Então, com a ajuda de um paciente do Centrinho, teremos realizado o primeiro experimento deste tipo no Brasil e o primeiro já publicado no País. No mundo todo, não há relatos na literatura de mais do que 30 experimentos deste tipo, a maioria deles publicada nos Estados Unidos", comenta.

Se todas as metas se concretizarem, o novo modo de mapeamento genético poderá ser estendido a outros pacientes portadores de síndromes raras, cujas má-formações cranianas não tenham sido diagnosticadas ou cujo diagnóstico seja impreciso ou ainda para aqueles que já tenham a doença diagnosticada, mas cujo gene mutante não tenha sido detectado. "Ao descobrir como um gene interfere na formação do fenótipo (características físicas), poderemos ter mais conhecimento para escolher os tratamentos e cirurgias mais adequados. Também é imprescindível para o aconselhamento genético, ou seja, para que os pais e o próprio paciente saiba os riscos envolvidos para eventuais descendentes", considera.

Segundo Pogue, a aplicação dos estudos para uma futura utilização de células-tronco que possa impedir o desenvolvimento das má-formações em recém-nascidos ainda é incerta.

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Vantagens


Segundo o pesquisador Robert Pogue, rapidez e eficiência estão entre as vantagens do processo de sequenciamento a partir da nova técnica. Ele explica que o mapeamento genético tradicional precisa ser realizado com um grande número de parentes do paciente, o que, além de prolongar e encarecer o processo, dificulta a identificação do gene mutante em portadores de anomalias que possuam famílias pequenas. "Os experimentos tradicionais demoram meses, até anos para serem concluídos. Com esta nova tecnologia, o resultado fica pronto em uma ou duas semanas e dá para ser feito apenas com o paciente, embora seja recomendada a comparação com o DNA dos pais", observa.

Mas, como os testes em parceria com o Centrinho fazem parte de um projeto-piloto que depende de alguns ajustes - inclusive burocráticos -, o cientista espera que os resultados fiquem prontos, sejam analisados e publicados, no máximo, em seis meses. Além de pesquisadores da Universidade Católica de Brasília, os testes contam com a participação de equipes de Goiânia (GO) e do Mato Grosso. Todo o projeto é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundo de Apoio à Pesquisa (FAP), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes) e Ministério da Educação (MEC).

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Custos


Os equipamentos utilizados pelo pesquisador Robert Pogue em Brasília são capazes de realizar, em apenas uma semana, oito vezes o mapeamento do genoma humano, necessitando apenas um cientista e um laboratório para que todo o processo se desenvolva. O custo estimado para os oito procedimentos é estimado em R$ 60 mil.

Para ter ideia do que isto significa, Pogue esclarece que o primeiro sequenciamento feito na década de 1990, conhecido como Projeto Genoma Humano, levou 10 anos para ser concluído, demandou o trabalho de milhares de pesquisadores e o despêndio de US$ 3 bilhões. Na época, os equipamentos eram capazes de mapear cerca de 100 mil núcleos ACGT por dia. Já as máquinas da nova geração conseguem processar bilhões de núcleos genéticos em apenas 24 horas.

"Para examinar todos os genes de um paciente pelo sequenciamento do exoma, o custo de hoje fica em torno de R$ 5 mil", analisa. Mesmo ponderando que o projeto genoma estudou todo o DNA humano e que o sequenciamento do exoma considera apenas os códigos genéticos que produzem proteína, ele aponta que os valores atualmente envolvidos são baixos.

Segundo Pogue, a Universidade Católica de Brasília possui dois destes equipamentos de alto desempenho. Em todo País, não há mais do que 10 aparelhos como este, que custam cerca de R$ 500 mil.

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Encontro internacional


O pesquisador Robert Pogue participará do "I Encontro Internacional de Anomalias Craniofaciais: Fenótipo Clínico, Genes Relacionados e Novas Perspectivas", que será realizado de 28 a 30 de abril no Teatro Universitário da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOB-USP). O evento reunirá um seleto grupo formado por sete geneticistas estrangeiros e mais cinco brasileiros com reconhecida atuação nas áreas de sindromologia e genética molecular das anomalias craniofaciais.

Entre os participantes, está um dos mais renomados cientistas da genética mundial, John Marius Opitz, editor-chefe emérito e editor associado da revista American Journal of Medical Genetics. Para o encontro, estão programadas palestras, apresentação de trabalhos e discussão de casos clínicos não diagnosticados. A organização do evento, que contará com tradução simultânea, é da Divisão de Sindromologia do Centrinho.

A programação completa pode ser conferida no site da instituição (http://www.centrinho.usp.br/eventos/info). Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 3235-8437 ou eventos@centrinho.usp.br