08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Ainda Realengo


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Eu tive um amigo, muito religioso, que sempre me dizia, conforme as circunstâncias ou acontecimentos: "Não há mal absoluto; existe o bem absoluto, que é Deus". Esta afirmativa me veio à mente quando tomei conhecimento da tragédia que se abateu sobre todos nós, pessoas de bem: tomamos ciência da morte violenta de doze crianças e adolescentes, alunos da Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio.

Pensei muito na ironia da vida, pois o patrono da escola, o poeta Tasso da Silveira, foi meu professor de Literatura Comparada, na Faculdade de Filosofia da Universidade do Distrito Federal, hoje Universidade do Rio de Janeiro.

Tasso, além de professor, foi um dos últimos poetas simbolistas, autor de poemas profundos, pela dose de sentido hermético, difícil de ser penetrado. Lembrei-me de um dos melhores:


Puro Canto

Por que cessar o meu canto?

Nada há mais que cantar?

Só é profundo o canto,

Quando nada há que cantar...

Que temas modula o vento,

Vagando por sobre o mar:

Vento é simplesmente vento;

Mar é simplesmente mar.

Católico fervoroso, como sempre foi, um autêntico cristão, o poeta Tasso da Silveira, por certo de onde está deve estar soluçando de pesar e também orando pelos que lá chegaram, junto ao Criador. Certamente, perdoando o as-sassino que interrompeu sua caminhada rumo à eternidade. Deve estar pedindo a Deus que perdoe o algoz que chocou uma legião inteira de pessoas de todos os credos e filosofias.

Caríssimo poeta e professor: por que cessar o seu canto se ainda há tanto que cantar?


Professor José Benedicto Pinto