09 de julho de 2026
Regional

Para alunos, tiro foi para se defender

Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 8 min

Agudos ? Os dois adolescentes de 17 anos acusados de atirar no estudante Paulo Henrique Parra, 18 anos, na última segunda-feira, durante briga ocorrida próximo à escola estadual onde os três estudam, no Jardim Europa, em Agudos (13 quilômetros de Bauru), se apresentaram ontem de manhã na delegacia da cidade. Na presença da advogada Isabel Viotto, eles alegaram que Paulo era violento e que dispararam contra ele para se defender das agressões que sofriam. O juízo da Comarca determinou a internação provisória dos dois na Fundação Casa por 45 dias.

Segundo o delegado Jader Biazon, que ouviu os jovens por cerca de uma hora, os depoimentos reforçam tudo o que as investigações já haviam apontado. "Está em consonância com o que a gente havia apurado até então, que a vítima seria uma pessoa violenta, agressiva e ficava intimidando os demais colegas de escola", diz. "Inclusive, hoje (ontem), nós chegamos a colher depoimentos de que esse rapaz, durante os intervalos para a merenda, ficava atirando comida com a colher nos demais colegas".

O delegado reafirma que o motivo que levou os dois adolescentes a praticar o crime foi uma briga iniciada durante partida de futebol. "Na sexta-feira (dia 22), teve um jogo de futebol e um dos autores chutou a bola em direção ao gol e pegou na cabeça do Paulo", diz. O fato teria irritado o estudante, que partiu para cima de um dos acusados. O segundo envolvido, que viria a ser o autor do disparo, ajudou a separar a briga.

No dia seguinte, de acordo com Biazon, os dois amigos iriam a um baile próximo ao bairro onde moram, no Jardim Europa, mas foram alertados por um conhecido de que o Paulo estaria na festa com um grupo de amigos e que teria a intenção de bater neles. Para evitar nova briga, os dois resolveram ir embora. "Com medo do Paulo, eles acabaram arrumando uma arma, de calibre 32, com apenas uma munição", revela. À polícia, eles disseram que compraram o revólver de um conhecido por R$ 150,00.

Na segunda-feira, dia do crime, os três voltaram a se encontrar, por volta das 19h10, na avenida Ovídio de Conti, ao lado da Escola Estadual Professora Nilza Maria Santarém Paschoal, onde dois deles estão matriculados no primeiro ano e um no segundo ano do Ensino Médio. O delegado relata que um dos acusados foi perguntar ao Paulo porque ele queria bater nele e, ao virar as costas, acabou sendo atingido com um soco no rosto.

Nesse momento, o outro adolescente sacou o revólver e apontou para a vítima. Enquanto o primeiro envolvido o imobilizava com uma "gravata", o segundo atirou em direção à sua cabeça. "Somente no terceiro acionamento do gatilho, a bala que estava no tambor chegou no local certo do disparo e veio a deflagrar, atingindo a cabeça dele", explica. "Os dois saíram correndo e alegaram que a arma caiu na esquina perto da escola, onde tinha muita gente, e que não sabem se alguém pegou a arma".

Biazon declara não acreditar na versão de que a arma "sumiu" e conta que a polícia vai realizar diligências para tentar localizá-la. De acordo com ele, todas as testemunhas ouvidas até o momento reforçam as atitudes agressivas de Paulo, sua liderança negativa na escola onde os três envolvidos estudavam e a personalidade tranquila dos dois acusados. O delegado pontua que nenhum deles tinha passagens pela polícia ou histórico de envolvimento com drogas.

Após prestarem depoimento na delegacia, os dois adolescentes foram encaminhados à Vara da Infância e Juventude de Agudos. No final da tarde, atendendo a um pedido feito pelo promotor de Justiça Neander Sanches, o juiz Adilson Aparecido Rodrigues Cruz decretou a internação provisória deles na Fundação Casa (antiga Febem) pelo período de 45 dias. Ao final do processo, eles podem ser condenados a pena que pode chegar a até três anos de internação.

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Advogada vai tentar revogar internação


Isabel Viotto, advogada dos dois adolescentes acusados de atirar no estudante Paulo Henrique Parra, disse ontem que vai recorrer da decisão do juiz, que determinou a internação provisória deles na Fundação Casa. "Amanhã (hoje), na primeira hora, eu vou estar produzindo toda a prova de que eles têm família constituída, ocupação lícita, endereço fixo e que não há a menor necessidade de internação porque eles nunca arrumaram confusão e não existe nenhum indício de que eles vão passar a arrumar confusão a partir de hoje, revela.

Ela afirma que a ocorrência "foi um fato isolado na vida deles" e que ambos têm famílias estruturadas, ocupação fixa, e não possuem histórico de violência. "Os dois não têm nenhum perfil de violência", ressalta. "Um dos meninos era jardineiro e estava fazendo um curso de especialização de jardinagem pelo Senar e estudava à noite. O outro menino está trabalhando de servente de pedreiro durante todo o dia, junto com o pai, e também estuda à noite".

Na opinião da advogada, a briga ocorrida durante a partida de futebol não foi o fator determinante para o crime. "Eu cheguei a conclusão de que não porque a vítima possuía, dentro da escola, um histórico muito antigo de agressões que se sucediam. A vítima dava esbarrão em todos os estudantes, principalmente aqueles mais frágeis", declara. "Era uma situação que já vinha se agravando a um determinado tempo. O jogo de futebol foi apenas mais um evento".

Viotto explica que seus clientes adquiriram a arma para se protegerem e que agiram em legítima defesa porque não aguentavam mais as agressões que vinham sofrendo. "No depoimento, eles constaram que tinham essa arma há algum tempo. Eu acredito que seja fruto das ameaças do Paulo", diz. "Dentro do ambiente em que eles estavam, foi a única forma de defesa possível porque eu acredito que a situação tomou um rumo insustentável. Uma bola que acertou um menino durante partida de futebol e algumas agressões e ameaças que já vinham ocorrendo tomaram essa proporção".

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"Foi Deus quem me salvou"


Deitado na cama de um dos quartos do Hospital de Base (HB) e um pouco sonolento em razão dos medicamentos que vem tomando para aliviar a dor, ontem à tarde, o estudante Paulo Henrique Parra ainda se recuperava da tentativa de homicídio da qual foi vítima e que fez com que ele permanecesse internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital por quase dois dias.

Apesar do raciocínio um pouco demorado, em entrevista à reportagem do Jornal da Cidade, ele negou ser uma pessoa violenta e disse que os acusados agiram de forma maldosa, sem que ele tivesse chance de se defender. "Eles já foram na porta da escola na maldade, foram para me ?derrubar?", declarou.

Ele confirma que tudo começou durante uma partida de futebol, mas disse que só agrediu um dos adolescentes porque foi agredido primeiro. "Ele me deu um murro na cara e eu revidei. Ele ficou bravo porque viu que não ia aguentar e falou: segunda-feira a gente resolve", conta. "Quando chegou segunda-feira, ele foi na porta da escola com os amigos dele. Ele foi bater em mim de novo, viu que ia apanhar e o amigo dele chegou e deu um tiro na minha cabeça".

O jovem conta que teve medo de morrer. "Foi Deus quem me salvou", diz. Segundo ele, os dois chegaram a apontar a arma na direção do seu olho e a apertar o gatilho duas vezes. Por sorte, a bala só saiu na terceira tentativa, atingindo a parte posterior da sua cabeça.

De acordo com Paulo, os médicos que o atenderam disseram que, após fazer uma "curva" dentro de sua cabeça, a bala de revólver calibre 32 se "desfez" e parte dela saiu pela parte superior. Uma outra parte ficou alojada, mas não será necessário fazer cirurgia para retirá-la.

Apesar do susto e da área sensível atingida, o estudante não corre mais risco de morte e revela que não sente raiva dos seus agressores. "Eu não tenho raiva. Apenas acho isso uma injustiça, fazer o que fizeram por causa de uma partida de futebol. Podia ser resolvido na conversa e não desse jeito", declara. "Eu espero que eles paguem pelo que fizeram e que seja feita Justiça".

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Medo de briga


O autor do disparo contra o estudante Paulo Henrique Parra foi descrito por testemunhas ouvidas pela Polícia Civil, pelo delegado Jader Biazon e pela advogada Isabel Viotto, que defende os acusados, como uma pessoa extremamente calma e responsável. "Ele não gostava de se envolver em briga porque ele teve dois irmãos assassinados", salienta o delegado, destacando que, nos dois casos, os homicídios foram motivados por discussões.

A mãe do segundo adolescente - que teria apanhado do estudante na partida de futebol -, contou ontem à tarde ao JC na delegacia de Agudos que seu filho era um menino excelente, nunca havia dado problemas em casa e trabalhava com o pai como ajudante de pedreiro. Além dele, ela tem outros três filhos.

"A gente fica com o coração doído", desabafou, enquanto aguardava na porta da delegacia para se despedir do filho, antes dele ser conduzido a uma unidade da Fundação Casa. Apesar da dor por ter que se separar temporariamente do adolescente, ela mostrou-se solidária à mãe da vítima. "A gente fica triste pelos dois lados, por mim e por ela, porque ela também é mãe", afirma. "O que a gente não quer para nosso filho, a gente não quer para o filho dos outros".