Roma - Eternizado como um dos pontífices mais notórios da modernidade, João Paulo II, o papa missionário, que viajou por grande parte do mundo, será beatificado amanhã, em Roma, apenas seis anos após sua morte. Para a Igreja, a medida nada mais é do que a confirmação da vida santa de Karol Wojtyla. Especialistas, no entanto, dizem que houve pressa e que o Vaticano poderia ter tido mais rigor no processo.
Respondendo ao clamor dos católicos que entoavam gritos de "santo súbito" durante seu funeral, em abril de 2005, Bento XVI decidiu descartar o período de cinco anos entre a morte de um candidato e o início do caminho rumo à santidade. Críticos dizem que a aceleração do processo também visa beneficiar a imagem da Igreja, sensivelmente abalada pelos recentes escândalos de abusos sexuais em todo o mundo.
Dom Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e prefeito emérito da Congregação para o Clero no Vaticano, diz que a beatificação "vem ao encontro dos desejos e dos anseios da população católica de todo o mundo".
Ele e o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, representarão a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros) na cerimônia no Vaticano. Trata-se de um "um fato notório e especialmente importante. O último papa a ser beatificado foi João 23. É uma resposta àquilo que o povo pedia já na praça São Pedro no dia de seu funeral", afirma Scherer.
Para o arcebispo paulista, o processo de canonização serve apenas para confirmar a "santidade" demonstrada durante a vida de uma pessoa. "Na Igreja, alguém não é santificado depois da morte. Alguém é santo durante a vida e é proclamado santo depois da morte". Já de acordo com o vaticanista Kevin Eckstrom, editor da publicação "Religion News Service" com sede em Washington (EUA), que há 75 anos cobre assuntos ligados à religião e à ética, houve críticas e dúvidas quanto à rapidez e o rigor do processo de beatificação.
"É possível que a Igreja tenha se deixado levar pela pressa? Muito possivelmente. É possível que tenha havido todo o rigor necessário? Claro. Há perguntas muitas perguntas, mas jamais saberemos as respostas. A Igreja cria suas próprias regras e pode abrir exceções", afirma.
Milagre
No caminho à santidade, dois milagres póstumos precisam ser atribuídos ao candidato. Em geral, curas de doenças obtidas por meio de orações ao religioso em questão. O primeiro possibilita a beatificação, e o segundo, a canonização.
No caso de João Paulo II, a freira francesa Marie Simon-Pierre disse ter sido curada de mal de Parkinson após ter rezado pela intercessão do papa. De acordo com a tradição católica, um santo é alguém que tenha vivido uma vida sagrada, que já está no paraíso e que pode interceder junto a Deus a favor dos fieis.
No entanto, os milagres e um alto nível de rigor durante as investigações são do interesse da própria Igreja. A falta de legitimidade durante o processo pode colocar em dúvida o conceito de "santidade" e até mesmo a fé.
Especialistas dizem que a pressa inicial pode ser "remediada", para que se mantenha a legitimidade do processo, na segunda metade do caminho à santidade. Eckstrom diz que o período de seis anos entre a morte do papa e sua beatificação é insignificante frente à dimensão da Igreja como instituição e sua história de muitos séculos. "Não estou surpreso, mas mesmo assim, foi muito rápido", diz. Para ele, o Vaticano tem agora a chance de levar mais tempo para avaliar o segundo milagre, necessário para a canonização, algo que em outros casos chegou a levar mais de 30 anos.