08 de julho de 2026
Articulistas

Cabo de guerra

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

Eles não desistem, mas apesar de todo o "poder de fogo" que exibem ao ocupar espaços importantes na mídia, minha impressão é que não estão ganhando a opinião neste debate da política econômica que se transformou num verdadeiro cabo-de-guerra: de um lado "eles", os "falcões" do mercado financeiro, exigem uma política de choque (juros mais elevados e crescimento econômico mais baixo) e de outro o governo, conduzindo a política econômica com muito cuidado e moderação, convencido que o combate à inflação deve continuar sem que conduza, necessariamente, a uma redução brusca no crescimento, produzindo retração no consumo e cortes nos investimentos e na oferta de empregos.   

O Governo acredita que se estendermos o prazo para que a taxa de inflação retorne à "meta" de 4,5% até o fim de 2012, poderemos ter sucesso com o programa em curso, mantendo os cortes fiscais, melhorando a eficiência dos serviços públicos, com aumentos moderados da taxa de juros Selic e o uso complementar de medidas macroprudenciais.  Estas, além de tornarem mais hígido o sistema financeiro, têm condições de controlar seletivamente a expansão do crédito. A esperança é que a violação do "teto" da "meta" de 6,5% será breve e permitirá um crescimento em torno de 4% do PIB em 2011. A maturação dos efeitos das medidas fiscais e monetárias trará a taxa de inflação para qualquer coisa parecida com 4,5% no final de 2012.

Já a proposta dos "falcões" é um choque radical nas despesas públicas para cortar a demanda do Governo e um aumento vigoroso da taxa de juros real para cortar a demanda privada, o que reduziria o crescimento e aumentaria a taxa de desemprego. Acreditam que isso faria cair imediatamente a "expectativa" da taxa de inflação com um custo muito pequeno. Segundo suas estimativas o PIB cresceria em 2012 em torno de 3%, com a inflação anual  rodando em torno de 4,5% no final do ano.

O problema grave é que os riscos de tal programa são imensos. O crescimento do PIB depende das expectativas de emprego dos trabalhadores (que determinam o consumo) e das expectativas dos empresários (que determinam o nível de investimento para atender àquele consumo). Quando uns e outros internalizarem a queda do PIB, não há como determinar se ela vai parar em 3% ou caminhará para menos 1%, criando uma nova recessão. Não há por traz desta proposta (que é sugerida pela curiosa teoria das expectativas racionais) nenhum suporte empírico.

É por isso que para minimizar os riscos de descarrilharmos, a proposta cuidadosa do Governo parece mais conveniente para o País do que a dos defensores das teses do mercado financeiro. O leitor deve continuar atento a este debate e, na medida de suas possibilidades (e dispondo de tempo) manifestar-se pela mídia, pois a opinião das pessoas tem um peso maior do que se imagina nas decisões do governo.


O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP ? ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento