09 de julho de 2026
Economia & Negócios

Trabalhar para viver ou viver para trabalhar

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 3 min

Para o psicólogo do trabalho Luiz Carlos Caneo, o fato do trabalho ser sinônimo de dignidade, no entanto, não deve ser confundido com transformar a profissão numa espécie de código de barras da personalidade. "As pessoas tendem a acreditar que ter uma carreira de sucesso, algo que as eleva à condição de vencedoras, é o mais importante. No entanto, é uma luta sem fim", considera.

O conflito entre exercer e "ser" a profissão, de acordo com o especialista, professor da faculdade de Psicologia da Unesp/Bauru, é gerado principalmente pelo mecanismo, segundo ele, triturador ? principalmente para quem é obrigado a fazer o que não gosta - imposto ao mercado pelo capitalismo.

"Essa obsessão teve início nos anos 1980, quando as organizações se estruturaram em busca de maior competitividade, com novos termos como ?planejamento estratégico? ou ?qualidade total?, conceitua.

O fato do capital "comprar" o tempo do trabalhador acentuou a transformação de algo que se faz para viver em vida em prol da produtividade. Daí, explica o especialista, as pessoas se transformam em suas profissões, carregando-as para casa ou qualquer outro lugar fora do ambiente corporativo, isso quando conseguem sair dele. "O trabalhador, nesse caso o workaholic (termo em Inglês que define o profissional ?viciado? no emprego, se afasta da família e de si próprio", observa.

Isolamento social

Além do isolamento social, gente que virou "máquina", salienta o psicólogo, também sente outros reflexos da falta do que fazer além de trabalhar. "Valores básicos são comprometidos. A pessoa não sabe diferenciar atitudes saudáveis de nocivas", comenta.

Entre os fatores negativos, o malfadado estresse, demonstrado em três estágios. "A fase inicial é de alerta, com a sobrecarga. O segundo sintoma é a luta, quando a fadiga é reconhecida, mas ainda há busca de alternativas, sem cessar a carga de trabalho.

A última fase é a exaustão ou esgotamento, quando a situação fica crítica, perigosa", alerta. "Doenças podem surgir aí. Taquicardia, hipertensão ou apatia podem ser desencadeadas", elenca. "O organismo dá dicas", completa.


Qualidade de vida

Sem incentivar a ingenuidade de incentivar o pensamento de que a sociedade deixará de priorizar o capital, é possível, conforme o especialista, conjugar qualidade de vida com a obrigatoriedade de sobreviver e ? por que não? ? ter sucesso. "Não podemos ser românticos com o pensamento de que o capitalismo será abandonado", admite.

"A solução está em encontrar o equilíbrio, com o reconhecimento do ser humano por parte das organizações. Isso é possível com a implantação de gestões diferentes. O ser humano ainda é o grande patrimônio".


Bem espiritual

Desempenhar uma profissão, independentemente do que se faça, também é um benefício espiritual. Para o padre Luiz Antônio Lopes Ricci, vigário geral da Diocese de Bauru, o fato de produzir, por si apenas, é sinônimo de dignidade e paz interior. Independentemente à religião do trabalhador, o clérigo afirma que desempenhar uma função é dádiva. "Trabalhar colabora com a obra do Criador. Desenvolver o potencial que se tem é benéfico não apenas no aspecto pessoal, mas coletivo. Significa colaborar com Deus na criação", prega. Para ele, exercer um ofício independente à condição financeira, daí a explicação, segundo ele, para o contingente de voluntários em inúmeras causas filantrópicas. "Muita gente, ao invés de simplesmente doar o que tem, oferece sua força de trabalho justamente pela necessidade que se tem em desempenhar uma atividade. É uma necessidade extremamente humana", classifica. Para o padre, colocar a mão na massa, é primordial para qualquer pessoa. "Faz falta o trabalho. Mesmo que a pessoa não precise. É questão de realização, qualquer que seja o trabalho", incentiva o religioso.