09 de julho de 2026
Articulistas

Isso aqui, ioiô...

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Que país é este onde prostituta tem orgasmo, gigolô sente ciúme e traficante é viciado? Se vivo fosse, Nelson Rodrigues continuaria se espantando com os paradoxos brasileiros. O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, acaba de criar um partido que ele mesmo declara não ser de direita, nem de esquerda e nem de centro. O Partido Social Democrático é o novo abrigo de políticos que deixaram o PSDB e o DEM "por razões ideológicas". Criou-se uma nova ideologia, a da conveniência. Os 44 milhões de eleitores que investiram na oposição veem agora vários de seus membros se transformarem em oportunistas da base fisiológica do governo petista.

E não para por aí... Dos 15 membros da Comissão de Ética do Senado, oito respondem a processos nos tribunais. Entre eles, consagrados trapezistas políticos como Renan Calheiros, aquele que pagava a pensão da amante com a propina de uma empreiteira; Romero Jucá, que saiu da Previdência quando pego com a mão na massa; Gin Argello, subscritor de emendas de R$ 3 milhões à entidades fantasmas; Valdir Raupp, com processos na Justiça. O presidente do Conselho de Ética, escolhido por Sarney, é João Alberto de Souza, do PMDB do Maranhão, o mesmo que assinava a nomeação de parentes e aumentos de salários por atos secretos, quando membro da Mesa Diretora do Senado.

O resvaladio terreno da galhofa é o mesmo em outros setores públicos. A diretora-geral da Polícia Rodoviária Federal foi denunciada por dirigir com 27 pontos na carteira de habilitação. A Polícia Federal comprou um avião-espião teleguiado por R$ 50 milhões que não pode voar por falta de verba para o querosene. Esse descompasso administrativo é igual ao que ocorre em Bauru, onde o governo estadual gastou R$ 45 milhões para construir a avenida Nações Unidas-Norte. Depois de pronta, não pode ser inaugurada porque a prefeitura não tem dinheiro para a contrapartida: a iluminação. Melhor abrir ao tráfego assim mesmo. Pelo menos poderemos nos vangloriar do "maior motel a céu aberto do Brasil".

O bullying virou moda, incentivada pela intensa cobertura da imprensa. O estrangeirismo dá um ar sofisticado ao ato que antigamente chamávamos de encheção de saco. Até o senador Roberto Requião, conhecido malcriado profissional, alega ser vítima de bullying somente porque um jornalista fez a ele uma pergunta irrespondível: sobre sua aposentadoria como ex- governador do Paraná. Aqui pertinho, em Agudos, estudantes secundários acharam por bem resolver na bala as desavenças surgidas numa pelada de futebol. Até os que deveriam educar estão aderindo ao bullying. No Rio, uma professora ameaçou os alunos: "Se vocês não ficarem quietinhos eu tiro a minha AR-15 da bolsa". Na zona rural de São Paulo, um motorista da van escolar se irritou com a algazarra de dois meninos de 8 anos e os largou na estrada. As crianças tiveram que andar três quilômetros a pé para chegar em casa.

Nem sei em que categoria enquadrar este País: seria no ramo "em processo civilizatório"? Os norte-americanos dizem que o Inferno tem organização italiana, culinária inglesa e mecânica francesa. Deve ter também impostos brasileiros. A nossa realidade supera em muito a ficção dos maiores gênios da literatura. Nikolai Gógol escreveu um livro satírico sobre a Rússia chamado Almas Mortas. Até 1861, ano em que foi abolida a servidão da gleba, os pomiéschiki (proprietários de terras) podiam vender, comprar ou hipotecar os camponeses que eram chamados de "almas". Um espertalhão chamado Tchítchkov adquire a baixo custo um número considerável de "almas mortas" e as hipoteca como almas vivas e úteis, de acordo com os documentos oficiais. O personagem de Gógol nem chega aos pés dos estelionatários que fraudaram a Previdência no Brasil durante 28 anos, recebendo aposentadorias de centenas de almas mortas.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC