08 de julho de 2026
Bairros

Vida em pequenos frascos

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Todos os meses, cerca de 450 bebês desembarcam direto do útero quentinho e confortável de suas mães para a realidade bauruense. Aqui, pais, parentes e amigos se apressam em saudar o pequeno que, antes mesmo de reconhecer tantas faces diferentes, sente fome e chora. E é então que se dá o que muitos dizem ser um dos momentos mais mágicos entre a mãe e o filho: a amamentação.

Mas nem todas as mães têm esse privilégio. Algumas não conseguem produzir leite para amamentar a cria, outras, porque a criança não tem força suficiente para sugar o peito. Há ainda aquelas mães que tiveram de abdicar do aleitamento porque, devido a algum problema de saúde, seus bebês precisaram ficar internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da maternidade.

O que fazer, então, para que os mais novos bauruenses tenham acesso ao alimento mais completo que existe para os primeiros meses de vida? A resposta é simples. Nestes casos, a amamentação é substituída por uma outra fonte de vida, mantida pela solidariedade, e que somente uma mãe é capaz de prover: o leite humano fruto de doação.

Em Bauru, mensalmente, cerca de 70 crianças dependem da doação do leite materno para manter em dia as vitaminas e anticorpos necessários nos primeiros meses de vida. O problema é que, em média, apenas 30 mulheres se cadastram no Banco de Leite Humano (BLH) como doadoras.

Bruna Aparecida Ferraz da Silva, 17 anos, é uma das mães doadoras que, no momento, ajudam a manter a regularidade do estoque do BLH. Lorena Kauana, sua filha, veio ao mundo em 18 de abril e, apesar de ter grande apetite, não dá conta de mamar toda a produção da mãe.

"Percebi que tinha muito leite e, logo nos primeiros dias, fiz meu cadastro de doadora. A cada dois dias sobra, em média, 1,5 litros de leite. O que iria fazer com esse alimento? Jogar na pia? É muito injusto sabendo que tantos bebês estão precisando", avalia Bruna.

Aline Gabriela Leite de Lima, mãe da pequena Beatriz, compartilha da mesma opinião de Bruna. Ela teve a filha na segunda-feira de Carnaval, dia 7 de março, e se assustou quando sentiu dores ao tentar amamentar a pequena. Por sorte, na mesma semana, uma funcionária do BLH entrou em contato pelo telefone que constava no cadastro da maternidade para saber como andava o aleitamento e Aline Gabriela aproveitou para tirar suas dúvidas.

"Foi quando agendei uma consulta e me explicaram que eu estava posicionando a Beatriz de forma errada. Foi um alívio. Desta forma, conheci o trabalho e me tornei doadora. Se minha filha precisasse de leite doado, gostaria que as pessoas tivessem a mesma atitude que eu", conta ela, que até então não sabia da existência do BLH.

O caso de Lázara Alessandra Deliberal Lima, 34 anos, foi semelhante ao de Aline Gabriela, com a diferença que seu filho Conrado Lima Arrego, hoje com 3 meses, não se adaptou ao peito da mãe.

Ela conta que tentou, insistentemente, por 15 dias, que o filho mamasse no peito e, quando viu que não surtia resultado, procurou um pediatra que imediatamente recomendou que ela procurasse o BLH.

"Sempre quis amamentar meu filho, mas, infelizmente, não foi possível. Quando percebi isso, minha maior preocupação foi garantir que ele tivesse todos os benefícios do leite humano e recorri ao Banco, que me faz doações", explica.

Conrado mama, diariamente, 50 ml de leite materno e Lázara tem aval para receber doações para o pequeno somente até o terceiro mês de vida, mas afirma que, se for possível, vai continuar a amamentá-lo com o alimento.

A julgar pela pele corada e pelos olhos espertos, não há dúvidas de que o leite está mesmo fazendo bem ao pequeno.


Sentindo na pele

Há cerca de dois meses, Juliana Gonçalves de Farias vivia um dos dias mais inesquecíveis de sua vida: o nascimento de seu segundo filho, o pequeno Guilherme Henrique de Farias.

Porém, uma notícia ruim e inesperada veio logo após o parto: o pequeno havia nascido com uma infecção no pulmão direito e precisaria ficar na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por alguns dias, até se recuperar. Entre outras coisas, esta informação significava que Juliana não poderia amamentá-lo.

Uma alternativa seria retirar o leite produzido por ela e levar até o Banco de Leite Humano (BLH) para que o alimento pudesse ser pasteurizado e encaminhado ao pequeno. Contudo, se Juliana se abalasse psicologicamente, seu organismo poderia interromper a produção de leite e o bebê passaria a depender de doação de outras mães.

"Quando fiquei sabendo que ele precisaria ficar na UTI fiquei muito triste, mas estipulei o objetivo de levar meu leite a ele todos os dias. Por isso, a cada três horas, ordenhava o peito e separava os frascos. Minha maior felicidade era quando eu chegava ao Banco e me diziam que o leite era suficiente para ele e outras crianças também", lembra.

Guilherme Henrique passou 13 dias na UTI e o leite materno foi fundamental para sua recuperação. Hoje, com dois meses, o pequeno esbanja saúde e Juliana o amamenta em casa, para a felicidade do irmão Leonardo Vinícius, de 6 anos.


Gente grande também bebe!

Pouca gente sabe, mas o leite materno não é recomendado somente para recém-nascidos. Ele também pode ser usado no tratamento de pessoas com baixa imunidade, independente da idade.

Amanda da Costa, 15 anos, é uma das pessoas que dependem da doação de leite materno para tratamento. Ela passou a receber o alimento em novembro de 2010, quando um exame diagnosticou que ela estava com baixa imunidade.

"A Amanda sempre teve muitas infecções e já havia feito tratamento com leite humano quando tinha 3 anos. No fim do ano passado, a médica recomendou novamente. Ficamos surpresos ao saber que o leite pode ser usado como uma espécie de remédio também para adultos", conta Alexandra da Costa, 42 anos, mãe de Amanda.

O tratamento deve durar 6 meses e consiste na ingestão de 50 ml de leite humano por dia. Alexandra conta que a filha, apesar de não gostar do sabor do leite, aceita o tratamento e é bastante disciplinada, tanto que já é possível perceber os resultados.

"As infecções diminuíram muito e faz tempo que ela não sente dores", conta ela, que afirma que se não fosse pelas doações, a filha teria de fazer um tratamento alternativo, à base de vacinas.

"O tratamento alternativo inclui medicamentos muito caros. Não sei o que aconteceria se não fosse as doações de leite humano, elas são fundamentais para minha filha", avalia.