"De acordo com as informações preliminares, todos os sintomas geram fortes indícios de que a causa da morte tenha sido dengue hemorrágica". Essas foram as palavras do secretário municipal de Saúde Fernando Monti em relação à morte de uma comerciante de 47 anos na manhã de ontem e que pode cravar uma infeliz marca histórica em Bauru, uma vez que seria o primeiro caso de óbito por dengue na cidade. O mais assustador é que a epidemia da doença pode ter gerado a morte de outra pessoa (leia mais abaixo).
Desde o surgimento dos primeiros sintomas até a morte de Fátima Aparecida Pereira da Silva, moradora do bairro Pousada da Esperança 1, decorreu-se exatamente uma semana. Sete dias de sofrimento, segundo a família. Ontem, ela teve que ser velada com costuras nas vias aéreas para conter o sangramento, o que converge com a hipótese de dengue hemorrágica.
O caso começou na terça-feira passada, quando a mulher começou a sentir altas febres - cerca de 39 graus - e muita dor no corpo. Sua filha, Franciane Irinea da Silva, 30 anos, conta que, nesse dia, levou a mãe no Pronto-Socorro Bela Vista e já foi emitido laudo de suspeita de dengue.
Então, foram receitados remédios e repouso. No dia seguinte, a dor no corpo persistiu e apareceram vários inchaços nas articulações. Segundo a filha, a mulher reclamava muito de cólicas - um dos sinais que diferem a dengue hemorrágica da normal são as fortes dores abdominais.
Na sexta-feira, o quadro somente piorou. Fátima teve vários desmaios - outro sintoma recorrente da dengue hemorrágica - e muitas manchas pelo corpo, que se intensificaram em frequência e quantidade no sábado.
Com a piora do quadro, pela noite, a família acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). "Ao chegar, eles ficaram assustados. Até acharam que ela tinha tido um ataque cardíaco, de tão roxa que estava", relembra a filha.
Emergência
A paciente foi encaminhada para o setor de emergência do Hospital Estadual (HE), onde passou a noite e o domingo inteiro. "Eles diziam que não sabiam informar o que minha mãe tinha. Somente por volta das 19h30 do domingo ela foi transferida para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do hospital", conta.
Na segunda-feira, quando Franciane foi visitar a mãe, uma equipe da Vigilância Sanitária estava no local. "Quando fui ao hospital, uma equipe estava me esperando e disse que tinha recolhido o sangue dela para testar sobre a suspeita de dengue. Nesse momento, ela estava melhor e consciente".
Entretanto, a melhora foi somente naquele dia. Anteontem, o marido de Fátima foi visitá-la e já a encontrou entubada. "À noite, o médico disse que ainda não sabiam o que ela tinha. Quando foi hoje (ontem) de manhã, por volta das 10h, recebemos a notícia do óbito", finaliza Franciane da Silva, bastante emocionada.
Outra morte suspeita
A morte de Fátima da Silva acabou culminando com outra possibilidade assustadora. Se o caso realmente for confirmado, talvez ela seja a segunda vítima da dengue em Bauru. A morte de um homem também será investigada.
De acordo com o que foi apurado pela reportagem, no último dia 21, um homem adulto - cujo nome não foi revelado - morreu no Hospital Estadual (HE) e o exame comprovou que ele estava com dengue.
O secretário municipal de Saúde Fernando Monti confirmou a existência dessa situação e disse que será tomado o mesmo procedimento investigatório do óbito de ontem para confirmar se a dengue pode ter causado também essa morte.
Exame deu resultado positivo para dengue
Na segunda-feira, foi feita uma coleta de sangue para testar Fátima da Silva para dengue, leishmaniose, leptospirose e até mesmo a gripe A H1N1. Procurado pela reportagem na noite de ontem, o secretário de Saúde Fernando Monti revelou que, horas antes, o exame havia ficado pronto e o resultado foi positivo para a presença de dengue. Entretanto, além de não informar se era hemorrágica, esse resultado não pode afirmar com certeza que essa seja a causa da morte.
"O exame de laboratório confirmou que ela estava com dengue. Agora, a secretaria vai fazer uma investigação para entender as circunstâncias em que ela morreu. Somente assim poderemos dizer que ela morreu realmente de dengue hemorrágica", explica Monti.
Essa análise será feita por técnicos da secretaria de Saúde em conjunto com o próprio Estado e visa verificar prontuários, se ela tinha outros problemas e todas as variáveis clínicas do caso.
"De acordo com as informações preliminares, todos os sintomas geram fortes indícios de que a causa da morte tenha sido dengue hemorrágica. Depois dessa investigação técnica é que poderemos confirmar ou não essa suspeita", informa Fernando Monti, afirmando também que, caso confirmado, será a primeira morte por dengue em Bauru.
Segundo Aparecido Donizeti Agostinho, diretor técnico do Hospital de Base (HB), a instituição ainda não tem diagnóstico definitivo. Ele explica que, de acordo com o que consta, Fátima morreu de choque séptico, que é um quadro infeccioso muito grave. Entretanto, não é possível saber em decorrência do que surgiu essa infecção. Exatamente o que a investigação da Secretaria de Saúde pretende explicar.
Epidemia cresce e números
podem ser ainda maiores
No dia em que a dengue pode ter feito a primeira vítima fatal da história de Bauru, a Secretaria Municipal de Saúde confirmou ontem o registro de mais 75 casos autóctones da doença na cidade. Assim, a epidemia totaliza agora 2.458 ocorrências, sendo 2.452 autóctones e seis importados. E esse números podem ser ainda maiores.
Segundo o secretário Fernando Monti, a doença se apresenta de inúmeras formas, sendo que há casos em que não há a notificação. "Têm vezes que nem a pessoa sabe que tem dengue. Muitas podem ter e, por serem sintomas mais leves, nem sabem".
Ele explica que há também os casos do sistema de saúde privado. "Nem tudo que ocorre fora do sistema público é notificado. Estimamos que realmente haja muito mais casos do que os números oficiais", alerta. Para ter essa noção, a secretaria pede que aqueles que recorrerem ao atendimento médico privado e confirmarem a doença façam a notificação pelo telefone 3235-1458.
Além disso, a população pode colaborar diretamente para reduzir a doença por meio da manutenção da limpeza de seus imóveis com o descarte ou acondicionamento correto de material que possa servir de criadouro do mosquito transmissor da dengue.
Outro alerta é para que todas as pessoas que voltarem de viagens ou mesmo as que permanecerem na cidade, ao apresentarem sintomas da doença, procurem pela Unidade Básica de Saúde mais próxima de suas residências para realização dos exames e tratamento. As equipes da Vigilância permanecem com a operação Fura-prato em todas as regiões da cidade.
Segundo familiares,
Fátima era saudável
"Muito ativa" e "sem qualquer problema de saúde durante toda a vida". Essas duas descrições feitas pela filha de Fátima da Silva sobre a mãe já podem dar indícios do que a investigação feita pela Secretaria de Saúde deve encontrar.
"Ela era muito saudável. Tinha uma mercearia aqui no nosso bairro. Era muito conhecida e cheia de vida. Em sete dias, eu perdi minha mãe. Ela saiu de casa com uma febre e voltou em um caixão", desabafa Franciane da Silva.
A família mora na quadra 5 da rua Santo Garcia, no bairro Pousada da Esperança 1, onde possuem um comércio. Fátima da Silva deixa o marido e quatro filhos. O corpo dela foi velado no Terra Branca e será sepultado hoje, às 9h da manhã, no Cemitério Jardim do Ypê.