10 de julho de 2026
Geral

Homem registra ?furto? de carro esquecido

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Um lapso de memória fez com que um bauruense de 48 anos vivesse uma situação inusitada na manhã de anteontem. Depois de ir de carro para comprar pão em uma padaria do bairro Higienópolis, ele esqueceu o veículo estacionado próximo ao estabelecimento e voltou para casa a pé. Ao chegar na residência, a poucas quadras de distância, notou que o automóvel não estava dentro da garagem e acreditou que havia sido furtado.

Sem pensar duas vezes, acionou a polícia e prestou queixa do crime. Horas depois, um sobrinho o avisou de que o veículo, uma caminhonete Ford Ranger, estava parado ao lado da padaria. Só então o homem se recordou de que tinha ido comprar pão dirigindo o carro.

Procurado, o homem não quis comentar o ocorrido com a reportagem. Ainda que a vergonha por cometer um equívoco tão inocente seja inevitável, lapsos de memória como este são mais comuns do que se imagina. Também sob a condição de não se identificarem, vários moradores de Bauru relataram ao Jornal da Cidade já ter vivido situações semelhantes a esta.

Nenhuma delas, por sorte, teve como desfecho maiores consequências, como tragédias em que bebês que acabam morrendo depois de serem esquecidos por seus pais no banco traseiro do carro em dias muito quentes. Na maioria dos episódios, passado o susto, o que restam são boas histórias e algumas gargalhadas.

Em uma situação bastante parecida com a de anteontem, mas ocorrida há mais de 20 anos, um morador da cidade conta que havia estacionado seu Chevette próximo ao Parque Vitória Régia, onde ocorreria um sorteio seguido de um show com a dupla sertaneja Leandro e Leonardo. "Parei em frente a uma casa verde, desci, mas decidi parar umas quadras adiante. Quando eu voltei para ir embora, tinha certeza de que tinha parado em frente à casa verde, mas meu carro não estava lá", relembra.


Susto


Desesperado, o motorista chamou a Polícia Militar (PM) e chegou a entrar na viatura para procurar o possível suspeito do furto. Durante as buscas nas imediações, viu seu carro estacionado, só quando se deu conta do esquecimento. Ao mesmo tempo envergonhado e com medo de ser repreendido pelos policiais, não contou o equívoco e pediu para que eles o deixassem em uma base da PM próxima para registrar boletim de ocorrência.

"Eles já tinham comunicado todas as viaturas da área sobre o furto. Depois que me deixaram em frente ao posto, eu voltei para pegar o carro, mas fiquei com medo de ser confundido com o suposto ladrão. Então voltei para o Vitória Régia, esperei acabar tudo o que tinha lá e só então fui embora", comenta, aos risos.

Outro episódio de esquecimento foi vivido pelo pai de um bebê de 1 ano e 8 meses que esqueceu de buscar a criança na creche no horário de almoço. Apesar do susto momentâneo, o menino, muito pequeno, não notou o atraso de mais de uma hora do pai.

"Quando cheguei, ele estava brincando com outras crianças e vendo televisão. Por sorte, não esqueci de buscá-lo no horário de fechamento da creche, em que ele poderia ficar somente com as funcionárias e se sentir sozinho ou abandonado", comenta o pai.

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Esquecimento não é problema se for apenas esporádico, afirma psiquiatra


Esquecer de buscar o filho na escola ou na creche, não se lembrar onde estacionou o veículo ou esquecer que havia ido a algum lugar com o carro e voltar de carona ou a pé são as situações mais corriqueiras de quem já sofreu algum lapso de memória. Em um levantamento rápido, a reportagem encontrou ao menos cinco casos desta natureza.

Segundo o médico psiquiatra Evandro Luís Pampani Borgo, situações como esta são bastante comuns e não representam um problema se ocorrerem de forma esporádica. "Mas, se forem corriqueiras e começarem a atrapalhar sistematicamente a vida da pessoa, se houver outras queixas associadas ou se a pessoa já tiver certa idade, o recomendado é procurar a ajuda de um especialista", orienta.

Borgo explica que são três as principais causas que provocam os chamados lapsos de memória, quando o raciocínio humano comete uma falha involuntária e faz com que o indivíduo se esqueça de uma informação básica. A primeira delas é ansiedade gerada pelo ritmo de vida atual e as múltiplas funções que uma mesma pessoa precisa desempenhar em um mesmo dia.

"A pessoa precisa fazer uma coisa já pensando na próxima e isso acaba desviando nossa atenção. Então, uma informação, por mais básica que seja, pode não ficar gravada na nossa memória. Se isso ocorre, não tem como lembrarmos dela", aponta.

Outro motivo, bem mais grave, é a pessoa sofrer da chamada memória seletiva, provocada por uma estafa mental intensa. Com a psique sobrecarregada, o próprio organismo se encarregaria de "desligar o disjuntor" - ou seja, reduzir o nível de atenção - para que o corpo não venha a sofrer um "curto-circuito". "Se a pessoa está passando por problemas financeiros ou um conflito emocional muito sério, por exemplo, o cérebro providencia esse esquecimento para garantir a integridade psíquica. Além de lapsos de memória, ela pode sofrer com desmaios ou até perda de visão momentânea", aponta o médico.

A terceira causa é o que os especialistas chamam de superfoco, situação em que o indivíduo volta toda sua concentração para um único pensamento ou atividade. "É o que ocorre, por exemplo, com alguém que está absorto vendo televisão e esquece da panela no fogão", comenta.