08 de julho de 2026
Articulistas

Esquecemos do fundamental

Wellington Balbo
| Tempo de leitura: 2 min

Para Manoel Francisco dos Santos, aquele domingo era como os outros, por isso saiu para caçar. Quando retornou a Pau Grande, observou a cidade em prantos, todos chorando. Intrigado, resolveu perguntar o motivo, e quando soube que era a derrota da seleção brasileira de futebol na copa de 1950 para o Uruguai, espantou-se: - Ué, chorar por causa de futebol? Mas é apenas um esporte... A passagem está no livro de Ruy Castro, Estrela Solitária. O Mané, que de Mané não tinha nada, tornou-se anos mais tarde uma das maiores expressões do futebol mundial. Figura folclórica e querida eternizou-se pelos dribles. Hoje, entretanto, mais do que exaltar os dribles de Mané devemos considerar com atenção o seu espanto em relação ao choro por uma partida de futebol. Chorar por futebol, diria Mané, que bobagem! Ah, Mané, vivemos outros tempos. Hoje se mata por futebol, por uma simples discussão, por banalidades, como foi o caso do estudante na vizinha cidade de Agudos-SP. Atirou no colega por causa de um esporte...

O bem mais sagrado de todos ? a vida humana ? é absurdamente desvalorizado. Vale pouco, quase nada. Muito disso é em razão das distorções criadas sobre o que realmente importa e faz a diferença. Hoje valorizamos os acessórios em detrimento da essência. Coisas que deveriam ser consideradas secundárias são divulgadas como as mais importantes do mundo. Choramos por futebol e pouco nos importamos com a política. Sabemos quem foi o campeão brasileiro, mas muitas vezes desconhecemos os senadores de nosso estado. Ignoramos nossas virtudes e limitações, porém sabemos de cor e salteado quem é a namorada do galã da novela das 8. As atrocidades que grassam na sociedade são os reflexos do que valorizamos. Infelizmente estamos distantes de valorizar como deveríamos as coisas importantes da existência, como família, amigos, honestidade, lealdade, respeito ao próximo. Não que estejamos estagnados, longe disso. Avançamos bastante em diversas áreas. No entanto, por mais que tenhamos evoluído em termos científicos, intelectuais e até morais, ainda estamos subdesenvolvidos no campo da valorização da existência e do que realmente importa para sermos pessoas melhores.

Constatamos isso em simples observação: o próprio mercado de trabalho encontra-se em diversas áreas deserto de profissionais qualificados. Por quê? Porque não obstante as facilidades dos tempos atuais há mais gente preocupada com o secundário do que com a própria qualificação, com sua melhoria, enfim, com a essência. Passamos horas a fio assistindo programas vazios, porém somos incapazes de ler um bom para a qualificação profissional, por exemplo. Valorizamos, infelizmente, o que pouco importa. Assim a vida perde o sentido; pessoas se desrespeitam, brigam por esporte, interessam-se por fofocas, choram por futebol e amam o secundário esquecendo-se do necessário, do fundamental...


O autor, Wellington Balbo, é colaborador de Opinião