08 de julho de 2026
Cultura

Fundo musical

Pedro Antunes
| Tempo de leitura: 4 min

Ele é o responsável pelo impensável: deixar o "Tema da Vitória" fora da trilha sonora do documentário "Senna - O Brasileiro, o Herói, o Campeão", produção dirigida pelo inglês Asif Kapadia e dedicada a um dos maiores ídolos do esporte no País. Não foram poucas as manhãs de domingo felizes, coroadas com o piloto de capacete verde a amarelo recebendo a bandeira quadriculada em primeiro lugar. Da televisão, vinha o famoso "tam-tam-tam / tam-tam-tam", composto por Eduardo Souto Neto. Quando recebeu a tarefa de musicar o longa sobre o tricampeão de Fórmula 1 Ayrton Senna, o compositor brasileiro Antonio Pinto, de 43 anos, relutou em aceitar a obviedade. A imagem de Senna cruzando a linha de chegada com a sua tradicional música está presa no imaginário de qualquer um que curte automobilismo.

Era necessário fazer uma desconstrução. Arrancar a roupagem de mito de Senna, despi-lo de qualquer outra associação. Não que o filme consiga afastar o piloto de sua fama, ou descaracterizá-lo de toda forma, mas a sonorização foge do lugar comum e, de forma surpreendente, cresce com a evolução do piloto, do início à morte, na curva Tamburello, em Ímola, Itália, em 21 de março de 1994. No documentário, que chegou recentemente às lojas em DVD e Blu-Ray, o "Tema da Vitória" se faz presente apenas em imagens de arquivo, mas não é explorado.

Experiente, Antonio Pinto já concorreu ao Globo de Ouro de melhor música original com "Despedida", cantada pela colombiana Shakira, para "O Amor nos Tempos do Cólera" (2007) - canção, aliás, belamente interpretada pela artista em sua recente passagem pelo Brasil. Foi só o reconhecimento de um trabalho iniciado em 1994, com "Menino Maluquinho - O Filme". Como ele mesmo costuma brincar, um nepotismo leve. Seu pai é Ziraldo, o cartunista e criador do personagem que anda por aí, aprontando, com a panela na cabeça. "Eu era muito novo (27 anos), então, tudo era pura diversão. Não lembro de ter achado difícil", explica.

Quando foi indicado ao Globo de Ouro, Antonio se viu diante da chance de ampliar ainda mais seus contatos com produtores de Hollywood - cujo trabalho já havia sido mostrado para a grande indústria em outras ocasiões, como em "Colateral" (2004), com Tom Cruise, e "O Senhor das Armas" (2005), estrelado por Nicolas Cage.

A boa notícia foi precedida por um azar daqueles. Pela primeira vez, em 65 anos Globo de Ouro, não houve cerimônia de premiação, motivada pela greve dos roteiristas americanos, que perdurou de novembro de 2007 a fevereiro do ano seguinte - os vencedores foram anunciados numa conferência de imprensa, em janeiro de 2008.

"Era a minha chance de aumentar a minha carteira de contatos", lamenta a falta de sorte. Na ocasião, o prêmio de melhor canção original ficou com Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, pela composição de "Guaranteed", criada para o filme "Na Natureza Selvagem".

"Amor nos Tempos do Cólera" e "Senna" dividem um envolvimento parecido de Antonio Pinto. Em ambos os casos, a imersão em seus respectivos mundos veio desde a infância do músico. "Conheço o universo de Gabriel García Márquez (autor colombiano do livro homônimo que deu origem ao filme) desde a adolescência. Já estava familiarizado e procurei músicos e instrumentos colombianos", explica Antonio.

Para o filme, o compositor procurou criar nuances coloridos que, casados com a voz de Shakira, deram uma latinidade que o resto do filme de Mike Newell não conseguiu. "Uma pena que o filme tenha sido rodado em inglês", lamenta o músico.

Quando se pôs a compor a trilha para a vida de Ayrton Senna, Antonio Pinto experimentou uma espécie de volta no tempo ainda mais real. Sete anos mais novo que o piloto, o músico viveu, na adolescência, o ápice da carreira do tricampeão mundial. "Eu era um garoto que queria ser como Senna. Hoje, o Brasil é um país emergente, uma potência. Na época, o País estava quebrado, era indisciplinado. O Ayrton representava o contrário de tudo isso. Era um cara disciplinado, determinado, conquistava tudo", diz.

"E eu pensava: ?pô, esse é o cara, levantando a nossa bandeira?. Pensei em criar uma música que representasse bem isso".

O que se ouve no longa é algo épico, calcado em instrumentos de cordas e piano. Ao longo do documentário, a música passa por mudanças de andamento. Indica momentos de tensão, em cenas com as que mostram as desavenças com o rival, o piloto francês Alain Prost.

Passagens mais descontraídas ganham um clima de jazz, com a inclusão de uma bateria. A glória com o tricampeonato é embalada por uma temática eufórica. E o trágico fim é acompanhado de tons épicos. Sem o "Tema da Vitória".

"Pessoalmente, não gosto muito da música. Como músico, percebo que não é maravilhosa. Obviamente, tem uma força. Como o ?Tema da Vitória? já aparecia nas cenas de arquivo, seria redundante fazer uma nova versão", diz Antonio. "O Senna é um personagem épico, quase shakespeariano, e merecia uma trilha assim".