08 de julho de 2026
Regional

Proposta de união de cidades gera polêmica

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 7 min

O professor de geografia e vereador de Igaraçu do Tietê, José Donisete Carnuchu, lançou uma ideia que está gerando polêmica entre os moradores de sua cidade e da vizinha, Barra Bonita. Ele quer juntar as duas e fazer com que os dois municípios acelerem o crescimento. "O forte de ambos os municípios é o turismo. Em Igaraçu do Tietê, ele é sazonal. No verão, a prainha lota e recebe mais de mil turistas. Barra tem outros atrativos. Eu acredito que, se a economia crescesse 5%, daria para os atuais hotéis atenderem a demanda e movimentarem o comércio dos dois lados do rio Tietê."

Ele lembra que, há seis anos, Igaraçu fez um réveillon maravilhoso. Atraiu 15 mil turistas. Só que o projeto não teve continuidade porque trocou o prefeito. "Eu imagino que algumas coisas que Barra e Igaraçu faziam, se tivessem sido melhoradas, estaríamos muito melhor na questão do turismo. A praia de Igaraçu está sendo reformulada. Praticamente 90% da verba do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias (Dade) ligado à Secretaria Estadual de Turismo que os dois prefeitos anteriores conseguiram estão sendo canalizadas para a melhoria da praia. Temos tradições que não são resgatadas. Poderíamos ter um museu sobre a imigração italiana. Na Barra está enterrado o Belmonte, um cantor sertanejo conhecido no mundo. Temos a Santa Isabel que, no Dia de Finados, recebe muitas visitas. Esses atrativos poderiam ser mais explorados."

Embora não exista rivalidade entre os dois prefeitos, em ambas há grupos rivais que atrapalham o crescimentos dos municípios. "Percebo que em ambas as cidades as brigas políticas atrapalham o crescimento. Nas cidades da região, problemas pequenos são minimizados. Por isso, elas crescem em outra velocidade."

Donisete acredita que alguns pontos estão sendo trabalhados no caminho da união. "Já tivemos Jogos Regionais em conjunto. Este ano teremos novamente. Os jogos receberão o nome de Jogos Regionais de Barra Bonita, mas 30% das competições serão em Igaraçu do Tietê. Já teve outros momentos de integração em várias áreas. Portanto, não seria tão utópico como parece."

Na opinião do professor, as questões de saúde e educação poderiam ser estudadas a médio e longo prazos. "Eu propus um plebiscito. Alguns economistas que eu consultei disseram que teríamos mais ganhos do que perdas. No Fundo de Participação dos Municípios (FPM), por exemplo, haveria perdas porque eles enquadram em termos de faixa populacional. Se contar o dinheiro que a Barra arrecada no FPM e Igaraçu haveria perdas."

As perdas poderiam ser amortizadas com a economia de pessoal e a não execução de obras. "A prefeitura de Igaraçu não teria mais a preocupação de construir o prédio do Fórum, que é um sonho. Não teria necessidade de ter dois prefeitos, uma Câmara deixaria de existir. Temos cerca de 1.500 funcionários públicos. Esse número poderia ser reduzido para 1.200 ou 1.100. Esse é um cálculo mais ou menos feito. Do lado lógico, seria viável. Mas eu gostaria de dizer que a indicação que eu fiz contém umas três páginas e somente da metade para o final eu sugeri a junção das duas cidades."

Ele confirma o preconceito da população de Barra Bonita para com os moradores de Igaraçu. "Tem preconceito. Eu costumo dizer que é como Brasil e Argentina. Nasceu na economia, passou pelo esporte no tempo que tínhamos em Barra a Associação Atlética Barra Bonita, Botafogo. Em Igaraçu tinha o Igaraçuense, o Grêmio da Vila Juventus. Se a gente voltar no tempo, vamos observar que Igaraçu pertencia a São Manuel depois passou para a Comarca da Barra. As duas pertenciam a Jaú. Barra Bonita tem uma usina e uma empresa de médio porte que gera empregos. Igaraçu é o primo pobre da história."


Prefeitos não aprovam

Para o prefeito de Barra Bonita, José Carlos de Mello Teixeira, o "Nenê" (PPS), cada um dos municípios tem sua história e sua cultura. "Não podemos simplesmente apagar a memória dessas cidades e do seu povo para reduzir despesas ou centralizar poderes constituídos."

Na opinião dele, não é necessária a união dos municípios para que haja uma cooperação no desenvolvimento de projetos e eventos que favoreçam as duas cidades. "Nós, prefeitos, já participamos de diversas iniciativas, fazemos parte de conselhos, comissões e órgãos como a Associação dos Municípios do Centro Paulista (Amcesp), que discutem interesses comuns, não só de nossa cidade como também de toda a região centro-oeste paulista. Estamos abertos a novos projetos, a parcerias e sempre estaremos unidos em prol do desenvolvimento de Barra Bonita e de Igaraçu do Tietê."

"Unir Barra Bonita e Igaraçu do Tietê seria apagar a memória de ambos municípios e daqueles que tanto lutaram pelo desenvolvimento e progresso político-administrativo. Não é viável apagar todo o passado para reduzir despesas e centralizar poderes, opina o prefeito de Igaraçu do Tietê, Carlos Augusto Gama (PSDB).

Para ele, mesmo diante das limitações territoriais há uma cooperação no desenvolvimento de projetos que favoreçam as duas cidades. "Tenho contato com o prefeito ?Nenê? quase que diariamente. Um município ajuda o outro em todos os setores. Já viajamos várias vezes juntos em busca de convênios e liberações de verbas estaduais para projetos que favoreçam as duas cidades. Como chefe do Poder Executivo respeito a opinião de cada membro da Casa de Leis, por isso não estou aqui para questionar os motivos que levaram o vereador José Donisete a realizar uma propositura como esta. Contudo, acredito que a junção das duas cidades é algo impossível de acontecer".

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Como nasceu a intenção de fusão


Há 15 anos, um técnico em urbanismo e engenharia fez um trabalho de mestrado e propôs a união dos municípios. À época, ninguém levou a sério. A ideia ressurgiu recentemente pelas mãos do vereador de Igaraçu do Tietê José Donisete Carnuchu.

"Ele veio fazer um trabalho de mestrado e percebeu que Igaraçu só tem hospital particular. Não tem pronto-socorro e Fórum. Por ser duas cidades separadas só pelo rio ele achou que seria viável (a fusão)."


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Junção não traria benefícios para nenhuma das duas cidades


O vereador João Paulo Capelazzo, de Igaraçu do Tietê, é totalmente contrário à ideia de juntar os dois municípios. A opinião dele é embasada na tese de que não haverá vantagem para nenhuma cidade. "Ambas são estâncias turísticas e recebem verba do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias (Dade). Se unir, vão receber uma verba só. Com certeza, as verbas não será somadas."

Outro problema, na opinião do vereador, são os orçamentos. "Hoje, temos dois orçamentos. O da Barra é três vezes maior do que o de Igaraçu. Juntas, elas passariam a ter cerca de 65 mil habitantes e a renda do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) não aumentaria muito, por isso sou contra essa junção."

Para Capelazzo, não é possível diminuir o número de servidores públicos sem comprometer os serviços oferecidos para o município. "Haveria uma só Câmara e um só prefeito, mas diminuir funcionários, só se fechar unidades de saúde e escolas."

Na opinião dele, a união é uma utopia. "Essa proposta é inviável. Nós plantamos a cana-de-açúcar, que é o produto bruto. Ela é industrializada em Barra Bonita e não recebemos nada em troca. Estamos brigando por isso. Temos um projeto na Assembleia Legislativa para que possamos ter uma participação no produto industrializado. Não temos hospital, mas já utilizamos o de Barra Bonita e os da região. Essa junção não traria indústrias e nem emprego, o mais necessário para a população."

Para ele, a ideia é tão esdrúxula que o autor deveria pedir desculpas para as pessoas que têm raízes em Igaraçu do Tietê. "Pedir desculpas para todos aqueles que lutaram pela emancipação de Igaraçu do Tietê."


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Trabalhar juntos seria melhor

O vereador de Igaraçu do Tietê Fernando Luiz de Almeida espera que a proposta do vereador José Donisete Carnuchu seja vista por outro ângulo. "Eu não gostaria que as duas cidades se juntassem, mas acredito que a ideia poderia ser aproveitada por ambos os prefeitos. Eles poderiam trabalhar juntos para o bem comum." Exemplificando, ele diz: "Com relação ao turismo, ambas as estâncias poderiam ganhar se houvesse um investimentos conjunto na busca por verbas estaduais e federais, na reforma da ponte Campos Salles e tantas outras coisas."