Se a perspectiva de vida continuar a aumentar e o número de nascimentos continuar a diminuir, em poucos anos, Bauru terá mais idosos que jovens. A inversão na pirâmide de idade já está acontecendo e, atualmente, a cidade tem o dobro que pessoas com mais de 60 anos do que crianças com até 4 anos.
Os dados, fruto do Censo de 2010, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no fim do mês passado, levam, no mínimo, a uma reflexão: será que Bauru está preparada para lidar com este perfil de moradores que, em breve, caracterizarão a cidade? Para a maioria dos entrevistados a resposta é simples: não.
José Xaides de Sampaio Alves, arquiteto e professor da Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação (Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, aponta que a qualidade de vida na futuridade depende de uma série de fatores, entre eles itens de planejamento urbano, suporte na área psicológica e de saúde, além de programas de incentivo e respeito por parte da população.
"No campo de planejamento urbano, faltam banheiros públicos; calçadas regulares, com menos obstáculos; vias mais arborizadas e agradáveis para caminhada; praças e espaços de lazer planejados; facilidade de acesso ao transporte público, entre outras inúmeras coisas", elenca.
Maria Tereza Napoleone Crema Remoli, 51 anos, concorda com o arquiteto. Enquanto participava da aula de ginástica promovida pela Universidade Aberta à Terceira Idade (Uati) na Universidade Sagrado Coração (USC), ela contou que está se preparando para adentrar na velhice e que já observa os obstáculos que terá de superar.
"Para chegar até a USC, desço do ônibus na avenida Nações Unidas e subo caminhando. Nas poucas quadras que ando, percebo que as calçadas são muito irregulares e que os galhos atrapalham o percurso. Muitas vezes, é preciso andar na rua", conta.
Já o aposentado Mário Luiz Negrão Rocha, 54 anos, que também participa do grupo, afirma que sua maior preocupaçãoquando entrar na fase de envelhecimento é com a segurança. Ele que evita frequentar áreas desertas na cidade e até mesmo locais de muito movimento.
"Se os jovens já sofrem com assaltos, imagina quem está na terceira idade.", reclama.
Além destes itens, os idosos reivindicam outros pontos, como aumento no número de programas culturais e esportivos, projetos de inclusão digital, melhorias no atendimento à saúde, e mais respeito por parte da população.
"O trabalho de conscientização é a etapa mais difícil. Nestes dez anos de existência, o Conselho Municipal da Pessoa Idosa (Comupi) tem trabalhado muito com relação a isso. Com base no estatuto, a pessoa idosa deve ter seus direitos garantidos", afirma Ana Maria de Michieli Benjamin, presidente do Comupi.
Ela defende que a consciência por parte dos munícipes com relação aos idosos pode trazer muitos progressos à cidade.
"As pessoas vão ter de se adaptar, afinal, a população idosa aumenta a cada dia e eles vão batalhar por seus direitos. Não custa nada não parar em vagas exclusivas, respeitar assentos e caixas preferenciais, ajudar uma pessoa a atravessar a rua. Isso é cidadania", reivindica.
Idoso consciente
Entender a velhice não é uma tarefa somente para os mais jovens. O exercício da busca pelo conhecimento e pelo respeito deve ser praticado também pelos mais velhos, especialmente por aqueles que estão entrando na terceira idade.
"Aceitar-se como idoso é fundamental para que esta população composta por pessoas com mais de 60 anos conquiste seus direitos e mostre a que veio. O trabalho de conscientização deve começar pelo próprio idoso e somente então se estender ao restante da sociedade", afirma Gislaine Aude Fantini, psicóloga e coordenadora da Universidade Aberta à Terceira Idade (Uati), da Universidade Sagrado Coração (USC).
Durante os 18 anos de existência da Uati, a psicóloga afirma que já pode perceber muitas mudanças que refletem, inclusive, no número de alunos que voltam seus estudos para a questão do idoso.
"Atualmente, a gerontologia é uma área muito forte. Ela consiste em estudar o idoso sob a perspectiva de diversas áreas, o que inclui psicologia, fisioterapia, artes, música, medicina, nutrição, entre outras", enumera.
Outra mudança notada, foi o número de adeptos das atividades da Uati, que hoje contabiliza 250 pessoas com mais de 50 anos, classificados pela USC como terceira idade, que estão matriculadas em diversos cursos, como atualidades, informática, teatro, idiomas e ginástica. "Noto que a sociedade evoluiu bastante, mas ainda há muito a ser feito", pondera.