JC - Qual é a importância de se impor limites na educação dos filhos?
Maria José Barbosa - Um ponto importante que Jung coloca e que eu acho bom citar é: "Ninguém pode educar para a personalidade se não tiver personalidade". E não é a criança, mas o adulto, que pode atingir a personalidade como fruto amadurecido pelo esforço da vida orientada para esse fim, "a educação". Atingir a personalidade de uma criança não é uma tarefa insignificante, mas o melhor desenvolvimento possível da totalidade de um indivíduo. Penso que hoje é a criança desse adulto (os pais) que não está preparada para dizer "não", justamente porque vai frustrar a sua criança interior. Por essa razão, criam-se motivos tais como traumas e doenças para a criança justamente na impossibilidade de dizer o "não".
JC ? Quais são os lados positivos do "não"?
Maria José Barbosa - O "não" só ajuda o indivíduo a crescer, amadurecer, elaborar frustrações que o próprio mundo cobra. Por exemplo, esperar um simples sinal de trânsito para ele passar, parece coisa pequena mas, se lá na infância os pais não souberam, ou melhor, não tiveram coragem de dizer o "não", ele vai passar no sinal vermelho, vai matar e justificar sua falhas como algo normal. Será que isso é traumatizante para ele ou para a sociedade?
JC - Muitos profissionais defendem a liberdade total para as crianças com o intuito de não traumatizá-las. Como você vê esse tipo de indicação?
Maria José Barbosa - Alguns profissionais exageram, confundido liberdade com libertinagem.
JC ? Qual é a definição correta para cada um dos termos?
Maria José Barbosa ? A liberdade é algo que se nasce e vai se desenvolvendo dentro do seio familiar com o apoio dos pais, baseado na ética e no respeito mútuo entre os familiares. Se isso não existe dentro do seio familiar, é impossível falar sobre liberdade para a criança, pois já existe ali um exercício de liberdade onde os papéis são trocados. Os filhos determinam e mandam na vida dos pais e os pais, com medo de traumatizá-los, obedecem a estes comportamentos. Claro que a criança tem que conhecer a liberdade, mas uma liberdade sadia, onde haja respeito dos dois lados, pais e filhos usando da ética e do respeito mútuo no relacionamento familiar. Este aprendizado é que faz com que a criança leve para a escola e sociedade um modelo de convivência saudável sem criar problemas de relacionamento, criando um bem estar comum.
JC - Existe realmente o perigo de um trauma emocional causado pela rigidez educacional?
Maria José Barbosa - As personalidades se desenvolvem no decorrer da vida. Afirmar que existe perigo de um trauma emocional causado pela rigidez educacional nos dias de hoje é difícil, já que quase todos os pais têm medo de educar. Colocar limites é se colocar no lugar de pais. Hoje, os papéis estão trocados e filhos determinam o que os pais devem fazer, e isso desde pequenos. Você observa isso no shopping, no supermercado e, principalmente, em lojas de brinquedos, nos sábados à tarde. Citando Jung: A personalidade se desenvolve no decorrer da vida, a partir de genes, cuja interpretação é difícil ou até impossível, e só nossa ação dirá quem somos de verdade. Somos o sal que alimenta a Terra e produz tudo que há de belo, de estranho e de mau... Somos como mães que carregam no seio a felicidade e o sofrimento... A personalidade no sentido de realização total de nosso ser é um ideal inatingível. Por isso, a educação rígida ou não pode determinar muitos danos. Quais serão eles não sabemos, pois somos seres do bem e do mal. A qualquer momento um desses lados poderá vir à tona.
JC ? Como você analisa a questão do bater ou não bater?
Maria José Barbosa - Desde os primórdios, a educação era feita na escola com as famosas palmatórias e em casa com as varinhas, rabos de tatus, cintas etc. Como a criança recebe estes maus- tratos e como isso vai influir no seu desenvolvimento não é nem preciso falar. Algumas mães até usam o jargão que diz que "pé de galinha não mata pinto", mas as marcas ficam na psique para sempre e estas crianças que apanham aprendem a bater nos colegas de escola, nos irmãos... E quando forem pais, baterão nos filhos e esposas, pois existe a repetição e a maldição familiar se repete como se fosse um xérox do comportamento aprendido.
JC ? A criança que apanha pode ficar com quais sequelas?
Maria José Barbosa - Bater leva a criança a ter medo de enfrentar a autoridade e recuar. Bater afeta a autoestima da criança e pode transformá-la em um tirano ou em uma pessoa apática, que aceita tudo com medo de ser agredida. Se for um tirano, bate pelo prazer de bater. Se for uma criança apática, apanha pelo medo de reagir. Os pais, por não conseguirem controlar a sua própria raiva e trabalhar os seus próprios traumas e frustrações, projetam na criança, através da agressividade, todo o ódio reprimido e estas agressões chegam a tal ponto de tirar a vida da criança, como em muitos casos que acompanhamos na imprensa, por exemplo. Educar a alma infantil depende de como se foi educada a alma adulta. Bater não é a solução.
JC- Como identificar uma educação superprotetora?
Maria José Barbosa - A educação superprotetora é aquela em que a criança nasce, cresce e a mãe a mantém prisioneira. Às vezes, até a morte da mãe este adulto continua criança. Chamamos essa fenômeno na psicologia analítica de "puer aletermesque", que significa eterna criança. Você identifica uma pessoa que foi muito protegida pelos pais através de suas atitude. Ela permanece tempo demais na adolescência e todas as características de um jovem de 17 e 18 anos são mantidas até mais tarde na vida.
JC ? Quais são as consequências da superproteção para a vida adulta?
Maria José Barbosa - Via de regra, há muita dificuldade de adaptação social e, em alguns casos, há o individualismo onde surgem atitudes arrogantes em relação à outras pessoas, devido tanto ao complexo de inferioridade, quanto ao falso sentimento de superioridade. Essas pessoas têm dificuldades de se adaptar ao trabalho, pois seja o que for que encontrem, nunca estão satisfeitas. É possível haver até mesmo somatização de doenças como a depressão, distúrbio alimentar autoestima baixa, entre outras. Aqui, gostaria de deixar uma mensagem para as mães: Libertem seus filhos, eles precisam voar para se encontrar.