Crescer, casar, ter filhos e cuidar da família. Esse era o papel incontestável da mulher no passado. Incontestável até que, por necessidade ou realização, a mulher saiu de casa e conquistou o mercado de trabalho e as vagas antes destinadas aos homens. Nesse contexto, a maternidade passou a ficar para depois e a criação dos filhos foi dividida com avós, babás e creches. A mulher agora se desdobra para cuidar da carreira profissional, casa e filhos. Bom ou ruim?
Para a funcionária pública Ana Letícia Palombo Momesso, tais mudanças foram positivas, pois as mulheres passaram a produzir e, com isso, veio a independência financeira. Por outro lado, ela acredita que a educação dos filhos pode ter sido prejudicada, ao menos em parte. "Há muitas diferenças entre as gerações. Não sei se isso se deve a evolução do ser humano, mas as mães eram mais presentes porque não trabalhavam fora de casa. Contudo, acho que dá para haver um contraponto entre a relação maternidade e trabalho", acredita.
No caso de Ana Letícia, a solução encontrada para passar mais tempo com suas duas filhas, Beatriz e Gabriela, de 8 e 4 anos, respectivamente, foi diminuir sua carga horária de trabalho. Assim, enquanto ela trabalha no período da manhã, as meninas estudam. E a tarde fica destinada a acompanhar as atividades e educação das pequenas.
"Acredito que se os pais não estiverem atentos, as coisas podem sair do caminho desejado. Posso afirmar que o trabalho e a maternidade têm quase que o mesmo peso na vida feminina, sendo o papel de mãe o primeiro na hora de uma possível escolha", aponta a funcionária pública que ainda salienta como ideal a conciliação entre o papel de mãe e profissional, o que ela chama de "maternidade programada".
Libertação
ou escravização?
Enquanto alguns julgam a ascensão profissional feminina como algo positivo, sem sombras de dúvidas, há que acredite que a dupla jornada (trabalho e casa) e a tripla (trabalho, casa e estudos) escravize a mulher.
Para a socióloga e coordenadora do curso de jornalismo da Universidade Paulista (Unip), Maria Cecília Martha Campos, do ponto de vista geral, a participação efetiva da mulher no mercado de trabalho significa libertação no momento em que possibilita a revelação dos múltiplos talentos femininos, além daqueles que foram exercidos de forma restrita aos ambientes domésticos ou no âmbito da vida privada, por séculos.
"Hoje, a presença feminina tem comprovado sua competência em todos os nichos de atividade profissional. Entretanto, ainda não podemos falar em libertação de forma irrestrita se voltarmos nosso olhar a aspectos específicos da relação mulher e trabalho. Aqui, permanece arraigada em nossa cultura uma concepção de status diferenciado do trabalho da mulher com relação ao trabalho do homem, uma marca deixada pela herança da sociedade patriarcal", analisa a socióloga.
Como base, ela aponta uma pesquisa divulgada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) sobre ocupações profissionais de mulheres nos mercados metropolitanos revela que 17% são trabalhadoras domésticas, 16,8% estão no setor de comércio e reparação, enquanto 16,7%, na educação, saúde e serviços sociais.
"Apesar de, em termos percentuais, representarmos um contingente populacional maior do que o de homens, destinam-se a eles as atividades que adquirem maior valor intelectual e econômico na esfera pública. "Por outro lado, não podemos deixar de reconhecer que esse quadro é muito melhor do que já foi", aponta.
Dupla e tripla jornada
Outro aspecto aqui destacado por Campos é o fato da ascensão feminina nos postos de trabalho ter sido conseguida com grande esforço, muitas vezes com jornadas triplas que envolvem as atividades profissionais, o trabalho de casa e os estudos, e isso tudo sozinha em boa parte das vezes.
"Nesse âmbito, é óbvio que a mulher se sente injustiçada e oprimida, mas a mudança desse padrão não depende apenas de nós. A mudança de padrões culturais é um processo demorado, que passa pela adoção de políticas públicas pelas instituições sociais, por alterações na legislação, pelos esclarecimentos promovidos pelos veículos de comunicação, até que se notem os reflexos em atitudes que se manifestem no âmbito dos relacionamentos pessoais", aponta.