08 de julho de 2026
Ciências

Os dentes e as tartarugas

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Os atrevidos dizem que as tartarugas são tranquilas e vivem muito e sem neuroses, pois não tiveram como aprender os "truques" da vida com os pais. As tartarugas deixam ovos nas areias e voltam para as águas; quando os filhos eclodem nos ovos, estão longe. As tartarugas não conhecem seus pais, que seriam responsáveis pelas neuroses e medos. Esta "felicidade" das tartarugas, para outros estaria na impossibilidade de se ter uma sogra.

Brincadeiras à parte, algumas manias, neuroses e trejeitos parecem inexplicáveis, mas aprendemos com nossos progenitores. O poeta cantado por Elis Regina dizia "...somos como nossos pais...". Uma dessas manias está em não dizer explicitamente: ...isto eu não sei, vou me inteirar sobre o assunto! A maioria prefere enrolar, desconversar ou afirmar que o assunto é polêmico. Outros preferem calar, pois alguém ensinou que os sábios ficam em silêncio ou no meio termo. "Ficar em cima do muro" pode ser interessante, mas logo um dos lados consegue derrubá-lo e os opostos se respeitam: quem estava no muro será execrado por todos.

Não devemos ter vergonha de dizer não sei. Ignorar não é pecado; ignorância é inerente ao homem, ninguém nasce sabendo, mas nasce aprendendo: respirar, chorar e ver! Não reconhecer que não se sabe algo como um procedimento, livro, inovação e notícia atravanca o desenvolvimento.

Reconhecer que não sabe é metade do caminho para o aprender. O novo sempre vem e nos cabe escolher se passará por ou sobre nós. Qualquer informação, após 5 anos terá apenas valor histórico. Viajar não significa mais adquirir cultura como antigamente, significa apenas milhagem. Devemos ler, acessar e saber a cada momento: a cultura está no dia a dia antenado nos avanços políticos, sociais e científicos.

Tudo muda rápido e a ciência tem culpa. Há 20 anos, apenas os ricos instalavam aparelhos nos dentes dos seus filhos em poucos especialistas. A ciência e a tecnologia evoluíram tanto os instrumentos, aparelhos e técnicas que formar um ortodontista ficou mais fácil e rápido. Instalar um aparelho ficou mais barato, rápido e eficiente. O conhecimento científico por parte dos profissionais foi otimizado com disponibilidade da informação: cada um pode beber em fontes originais do saber.

Há 20 anos, quando alguém perdia um dente, para repor desgastava-se os vizinhos para construir uma ponte, ou melhor, uma prótese fixa. Na falta de dinheiro ou oportunidade, a opção era colocar prótese removível com dentes artificiais ligados a fios, garras e barras de metal apoiados em dentes naturais, e com o tempo acabava prejudicando-os. A ciência criou os implantes dentários e como raízes metálicas artificiais fixadas no osso sobressaem na mucosa bucal permitindo que se construa novos dentes artificiais tão parecidos com os nossos que não se revelam como tais.


Higiene bucal

Houve uma valorização da higiene e saúde bucal e cada vez mais as pessoas têm todos os dentes na boca, embora ainda tenhamos muitas pessoas que requerem implantes dentários para recompor a normalidade das estruturas perdidas. Com a permanência de todos os dentes na boca, aumenta a necessidade de alinhar e ocluir para mastigar corretamente os alimentos. Dentes alinhados e oclusão adequada não têm efeito apenas estético, mas permitem ainda a fala correta na comunicação eficiente e respiração saudável para que o sono tranquilo recupere o organismo dos desgastes.

É fantástico ver estes dois progressos científicos de apenas 20 anos serem disponibilizados para todos os brasileiros no SUS como foi determinado pelo Ministério da Saúde. Não foi discurso, foram colocados R$ 134 milhões para se ter início imediato no atendimento das pessoas nos 853 Centros Especializados Odontológicos do programa federal Brasil Sorridente. Falta as prefeituras contratarem os numerosos especialistas disponíveis no mercado de trabalho para iniciar o atendimento às pessoas. Agora vamos depender da iniciativa e competência dos secretários municipais de Saúde: há dinheiro liberado, know how instalado e pessoas precisando! Falta apenas decidir: vamos viabilizar!

Conversei com as pessoas da área relacionadas às políticas de saúde e a maioria nitidamente ignorava o assunto, mas nenhuma reconheceu e todas diziam a mesma coisa: ...vamos ver, vai demorar ...é, vai ter que implantar ...depende da disponibilidade ...é, a prefeitura vai ver ...é, mas para agora é difícil, mas sequer sabiam da notícia!

Devemos pesquisar mais as tartarugas!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br


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Observatório


Congresso - Entre 17 e 21 de maio ocorre o 24º Congresso Odontológico de Bauru, na FOB-USP. Até recentemente, era conhecido carinhosamente como JOB, ou Jornada Odontológica de Bauru. Esta história se iniciou em 1957 quando os profissionais da cidade liderados por Paulo Amarante Araújo organizaram a primeira edição, como mostra a flâmula comemorativa (foto abaixo) distribuída na época. O evento, deste então, busca a disseminação do conhecimento apresentando cursos e resultados de pesquisas clínicas e laboratoriais www. cobusp.com.br.