11 de julho de 2026
Polícia

Cinco anos depois dos ataques do PCC, polícias focam crime organizado

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

Passados cinco anos da onda de ataques executada em todo o Estado de São Paulo e atribuída à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), as polícias Civil e Militar de Bauru mudaram seu foco de atuação e direcionaram estratégias de combate ao crime organizado. A afronta histórica às duas instituições - que espalhou medo também entre moradores - fez com que um novo planejamento fosse adotado não apenas para proteger policiais, mas principalmente para diminuir o então comprovado poder dos líderes do tráfico.

Embora o total controle sobre estes grupos criminosos seja um ideal ainda não alcançado, as entidades policiais da cidade comemoram, hoje, algumas conquistas. Entre elas, está a prisão de toda a gerencia de primeiro, segundo e terceiro escalões do comércio ilegal de entorpecentes, o aprimoramento dos sistemas de inteligência, o acompanhamento constante dos presos liberados durante as saídas temporárias e uma melhor integração entre os trabalhos realizados pelas duas esferas policiais.

A primeira série de ataques no estado foi registrada no dia 12 de maio, quando policiais civis e militares foram assassinados e rebeliões simultâneas em 22 presídios foram deflagradas, num total de 74 ao longo do ano de 2006. Em Bauru, os crimes começaram no dia 14 de maio. Como uma verdadeira operação de guerra, ruas da cidade nas imediações de delegacias e bases militares foram interditadas, efetivos foram convocados às pressas para reforçar a segurança em toda a cidade, até mesmo dentro de ônibus circulares.

Desde então, a atuação das polícias nunca mais foi a mesma. Segundo o comandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPMI), tenente-coronel Nelson Garcia Filho, até então o combate ao crime organizado era uma atribuição quase que exclusiva da Polícia Federal. Depois dos ataques, as facções passaram a ser monitoradas de perto também pela PM.

"Uma das medidas, por exemplo, foi iniciar o monitoramento de presos por meio de visitas aos endereços em que eles devem permanecer durante as saídas temporárias. Este modelo teve início na nossa região, em 2007, e se expandiu para todo o estado", observa, acrescentando que o acompanhamento dos detentos em livramento condicional ou sursis também foi aperfeiçoado ao longo dos últimos cinco anos.


Operações conjuntas


O Policiamento Rodoviário, por sua vez, passou a desenvolver estudos para identificar com detalhes a logística de transporte de entorpecentes dentro do País, que tem Bauru como cidade de passagem para uma das principais rotas do tráfico. "De maneira geral, houve um melhoramento dos mecanismos de inteligência policial para não tratar cada ocorrência criminosa como um fato isolado. Hoje, conseguimos determinar conexões entre vários crimes com muita rapidez", argumenta o comandante.

Outra mudança apontada por Garcia Filho é o aumento da frequência de operações conjuntas entre polícias Civil, Militar e Federal em parceria com o Grupo de Atuação Especial Regional para Prevenção e Repressão ao Crime Organizado (Gaerco). Este trabalho, inclusive, teria possibilitado a prisão de todos líderes de quadrilhas de tráfico de drogas da cidade.

O titular da Delegacia Seccional de Bauru, Benedito Antônio Valencise, também destaca esta proximidade como um benefício pós-ataques, acrescentando que a polícia civil em todo o estado passou a atuar de forma mais unificada. "Antes, já tínhamos um direcionamento de combate ao tráfico, mas este trabalho foi aperfeiçoado. Hoje, dispomos de cadastros e planos estratégicos muito mais aprimorados que não posso revelar por questões de segurança", comenta.

Todo este sistema de inteligência, segundo ele, poderia até mesmo antecipar a organização de eventuais novos ataques - que, até o momento, não estão previstos. "E, se acontecesse qualquer ocorrência deste tipo, a polícia está preparada para responder à altura, nos termos da lei, mas com bastante rigor", aponta.

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Prevenção


Uma das medidas de prevenção adotadas pela Polícia Militar (PM) após os ataques de maio de 2006 foi a criação das chamadas Operações de Saturação por Tropas Especiais (Ostes) em todo o território paulista. Trata-se da ocupação pacífica de policiais para a realização de ações sociais em bairros onde há atuação do tráfico.

Em Bauru, a primeira iniciativa desta natureza foi implementada na favela São Manoel durante seis dias, entre o final de novembro e início de dezembro de 2010. "Assim, reduzimos a tensão social naquele local e chamamos a atenção do poder público e de toda a sociedade para as demandas daquele bairro, além de realizar eventuais prisões de traficantes e apreensões de entorpecentes", pontua.

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Em Bauru


Em Bauru, a primeira onda de ataques foi registrada no dia 14 de maio, quando presidiários do Centro de Detenção Provisória (CDP) se rebelaram e fizeram um agente penitenciário refém. Além disso, o prédio onde funciona a Vara de Execuções Criminais de Bauru, localizado na quadra 6 da avenida Cruzeiro do Sul, foi alvo de 13 tiros na madrugada do dia 15. Também foram registrados disparos contra três delegacias da Polícia Civil e residências de um policial rodoviário um agente penitenciário, na Vila Nova Esperança.

Na segunda onda de ataques, no início de julho, foram queimados cinco ônibus do transporte coletivo, um caminhão e uma Kombi da prefeitura, registrada uma tentativa de incêndio na Regional Administrativa São Geraldo, além de um incêndio a uma loja de conveniência de um posto de combustíveis localizado na quadra 18 da avenida Comendador José da Silva Martha. No mesmo mês, agentes de segurança da Penitenciária 1 foram feitos reféns por cinco horas.

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Moradores que viram as ações relembram data


Moradores de Bauru não esquecem a sensação de incerteza e medo constante que permearam suas vidas após os ataques atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Na época dos crimes, o JC noticiou o pavor vivido por vizinhos de bases comunitárias de segurança e delegacias policiais, pontos até então considerados seguros que se tornaram alvos da ação dos integrantes da facção.

Cinco anos depois, a pensionista Lourdes Costa, 63 anos, lembra da comoção entre a vizinhança quando a Vara de Execuções Criminais de Bauru - localizada na avenida Cruzeiro do Sul, a meia quadra de distância da sua casa - foi alvejada com 13 tiros. Os disparos atingiram paredes, vidros e até documentos dentro do prédio da unidade.

"Foi aquele comentário quando tudo aconteceu, todo mundo ficou apreensivo, com medo de que houvesse um novo ataque. Eu nem passava por perto de lá", relembra ela, que não chegou a ouvir os disparos durante a madrugada. A atendente Simone da Silva Urbano, 38 anos, também não viu nenhum dos ataques de perto, mas sofreu com a insegurança gerada por uma das ações do PCC em Bauru.

Depois que uma loja de conveniência de um posto de combustíveis foi incendiada, em julho de 2006, os funcionários pediram demissão e ela teve de assumir a função de caixa do estabelecimento, apenas três meses depois da ocorrência.

"O vigia e o atendente pediram a conta. Era para eles terem sido queimados dentro da loja, porque o criminoso ia trancar a porta com eles dentro. Só não foram porque o querosene usado para atear fogo caiu no pé do incendiário, que saiu correndo depois de ser atingido pelas chamas e acabou deixando a porta aberta", revela.

Hoje, mais tranquila, ela não teme novos ataques e diz trabalhar sem nenhuma preocupação, mas conta que, na época só aceitou o emprego por necessidade financeira. "Quando entrei para trabalhar, o forro ainda estava todo queimado. Era uma sensação estranha ficar lembrando de tudo que tinha acontecido. Mas, hoje, já está tudo superado", pondera.

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Achaque de policiais causou reação do PCC, diz estudo


Um ano antes da rebelião em 74 presídios e dos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas ruas das cidades do Estado de São Paulo, Rodrigo Olivatto de Morais, enteado de Marcos William Camacho, o Marcola, líder da facção, foi sequestrado por policiais civis de Suzano, na Grande São Paulo. Só foi solto depois que Marcola pagou o resgate de R$ 300 mil.

O chefe do PCC ficou indignado com o achaque. Na véspera dos ataques do PCC, Marcola fez um comentário no Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic): "Não vai ficar barato." No inquérito feito pela Corregedoria da Polícia Civil, o delegado assistente, Hamilton Antônio Gianfratti afirma que o sequestro ajudou a deflagrar a revolta do PCC.

"Aflora dos autos sérios indicativos direcionados à possibilidade deste fato erigir-se à causa deflagradora dos históricos e tristes episódios que traumatizaram o povo de São Paulo, traduzidos nos atentados em todo o estado pelo PCC", diz no documento. Os achaques abusivos de policiais aos criminosos paulistas foram fundamentais para os ataques, segundo o relatório "São Paulo sob Achaque: Corrupção, Crime Organizado e Violência Institucional em Maio de 2006".