09 de julho de 2026
Geral

Bauruense relata tensão no Paquistão

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

A segurança no local de trabalho foi reforçada, o deslocamento para algumas regiões precisa ser previamente autorizada, os subordinados estão de sobreaviso. A vida de um embaixador não é nada simples, ainda mais se ele for representante de sua nação em um local onde ataques terroristas são constantes.

Nascido em Bauru, Alfredo Cesar Martinho Leoni, 55 anos, está á frente da Embaixada do Brasil no Paquistão há um ano e meio. Há exatos 10 dias, ele vive uma situação ainda mais delicada no país, já considerado bastante inseguro. Em 2 de maio, a região se tornou ainda mais vulnerável a ataques criminosos, depois do anúncio oficial de que Osama Bin Laden, líder da rede terrorista da al-Qaeda, havia sido morto em uma operação militar norte-americana.

Em poucos dias, tanto a al-Qaeda quanto o Talibã (movimento fundamentalista islâmico) anunciaram futuras retaliações, que já são dadas como certas. Como consequência, pontos vulneráveis do Paquistão, incluindo as embaixadas, tiveram de se precaver.

"Pedi aos funcionários e a toda comunidade brasileira que vive no Paquistão para que tomassem mais cuidado. O Brasil, por sorte, não é alvo direto dos ataques, mas podemos ser vitimados por investidas contra embaixadas de outros países, que ficam próximas à nossa", descreve Leoni.

Segundo ele, a orientação da polícia é evitar qualquer situação de risco, sobretudo durante deslocamentos. As equipes diplomáticas, via de regra, são alvos considerados prioritários para os terroristas e, por este motivo, precisam obedecer a uma série de normas para se proteger.

"Nossa movimentação precisa ser precedida de várias medidas de segurança. Para qualquer deslocamento, é preciso fazer uma solicitação ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, que monta todo um esquema para garantir nossa integridade física", revela.

Ainda que se diga confiante na estrutura de segurança oferecida pela polícia paquistanesa, Leoni ressalta que todos os habitantes do país sempre viveram sob o sentimento de constante ameaça, já que no Paquistão são registrados ao menos dois ataques terroristas por semana. "E são ataques a bomba, arma que provoca consequências em uma área extensa e, geralmente, de maneira fatal", completa.

Por ser apontado como reduto onde se escondem vários extremistas da al-Qaeda e do Talibã, o Paquistão, segundo o embaixador brasileiro, possui uma realidade política difícil. "Atualmente, as autoridades paquistanesas travam uma batalha contra esses terroristas e, por este motivo, acabam sendo vítimas deles. As retaliações são frequentes", destaca. De acordo com Leoni, desde a queda das torres do World Trade Center, em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001, mais de 30 mil pessoas morreram vítimas de ataques terroristas no Paquistão.

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Vida em Bauru


Alfredo Leoni deixou Bauru aos 3 anos de idade, quando foi morar com a família no Rio de Janeiro. Hoje vivendo em Islamabad, capital do Paquistão, ele guarda lembranças remotas da cidade natal, que em nada se assemelha às localidades do Oriente Médio.

"As cidades daqui são muito antigas, com padrões de construção muito típicos. Bauru é uma cidade moderna, que foge completamente do tipo de urbanismo das cidades paquistanesas", aponta.

Embora tenha deixado Bauru ainda criança, Leoni voltou por diversas vezes a Bauru para visitar a avó materna e os primos. Quando a matriarca da família faleceu, durante a adolescência do embaixador, o contato com os familiares se tornou menos constante.

"Depois que eu passei a morar fora para atuar em embaixadas brasileiras de diversos países, não tive mais condições de voltar a Bauru. Mas me recordo da rua Treze de Maio e da avenida Rodrigues Alves, onde meus avós moravam. Tenho boas lembranças", comenta.

Atualmente, o embaixador, quando vem ao Brasil, costuma visitar o pai em Florianópolis (SC), o irmão no Recife (PE) e parentes no Rio de Janeiro (RJ), além de viajar a negócios para Brasília (DF).

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Perfil


Diplomata de carreira, Alfredo Leoni assumiu a frente da Embaixada do Brasil no Paquistão há um ano e meio, em seu primeiro cargo como embaixador. Antes, atuou em outras funções em embaixadas brasileiras no México, Alemanha, China, Itália, Japão e Estados Unidos. Também serviu em uma missão junto à Organização das Nações Unidas (ONU).

Nascido em Bauru, Leoni mudou-se para a capital do Rio de Janeiro aos 3 anos de idade. Na cidade, formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Já vivendo em Brasília, fez curso de formação para a carreira diplomática no Instituto Rio Branco, além de cursos equivalentes ao mestrado e doutorado, mas específicos para a área de diplomacia. O embaixador não é casado e não possui filhos. Sua mãe é falecida.

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Surpresa


O embaixador Alfredo Leoni conta que foi uma surpresa para os paquistaneses o fato de Osama Bin Laden ter sido encontrado em Abbotabad, cidade com mais de 1 milhão de habitantes e a apenas 115 quilômetros de distância de Islamabad, capital do país. Segundo o embaixador, os terroristas tem por hábito se esconder em uma região acidentada na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, conhecida por suas inúmeras cavernas.

"Só pessoas que conhecem muito bem o local conseguem se movimentar bem por lá. É uma área de difícil acesso", frisa. Já Abbottabad abriga a principal academia militar do Paquistão, além de uma base militar ? o que deveria ter contado de forma negativa no momento de Bin Laden escolher suas instalações. A suspeita é de que a opção por uma cidade relativamente tranquila tenha sido uma estratégia para despistar a polícia.

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Crise diplomática


O embaixador Alfredo Leoni não acredita que uma crise diplomática se instale entre o Paquistão e os Estados Unidos por conta da ação militar que matou Osama Bin Laden. Ainda que as autoridades paquistanesas afirmem não ter sido informadas previamente sobre a operação, um eventual estremecimento das relações com o governo norte-americano poderia resultar em enfraquecimento político.

"Na verdade, esse desconhecimento é algo difícil de explicar, porque o espaço aéreo foi invadido por vários helicópteros americanos sem que houvesse nenhuma reação paquistanesa. Esta violação, entretanto, se transformou apenas em uma queixa, num nível de menor importância para o país", pondera.

Cercado por países poderosos como China, Índia, Irã e Afeganistão, o Paquistão possui 185 milhões de habitantes, 2 milhões de refugiados afegãos e poucos recursos financeiros, segundo Leoni. "É um país que precisa do apoio dos EUA por questões de segurança, em termos de recursos financeiros, armamentos e cooperação técnica", pontua.