Anteriormente conhecida pelo padrão de qualidade e como sinônimo de orgulho ao brasileiro, os Correios tentam solucionar o que, segundo os próprios funcionários, é a maior crise de sua história. Mergulhada em encomendas e correspondências com dias de atraso, a empresa virou alvo de reclamações quase diárias e enxerga no concurso público, realizado depois de amanhã, uma das formas de contornar a crise.
O superintendente de vendas Luiz Antônio Bormio Júnior, 39 anos, é uma das "vítimas" desse contexto problemático. A fatura do seu cartão de crédito chegou com vários dias de atraso e ele foi obrigado a pagar os juros do pós-vencimento.
"O prejuízo acaba vindo para o nosso bolso. Eu vou acionar o Procon (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor) para ser ressarcido. Reclamei nos Correios e não deu em nada. Reclamei na operadora do cartão e eles disseram que o atraso foi dos Correios", reclama.
Em nota, a assessoria de comunicação dos Correios informa que, "no momento, para minimizar os transtornos à população, os Correios já têm tomado as seguintes medidas: realização de serviços extraordinários, inclusive aos finais de semana, agilização da aquisição de equipamentos que melhoram o tratamento da carga, deslocamento de empregados de outras áreas para auxiliarem no trabalho e agilização da contratação de trabalhadores temporários".
Entretanto, a solução apontada não é suficiente para o analista de sistemas Eduardo Lourenço Pinto Júnior, que teve problemas com uma encomenda. O trajeto Santos-Bauru nem é tão longe, porém, o pacote demorou 15 dias para chegar em sua casa.
"E eu sei que o problema foi aqui. Eu rastreei a encomenda e vi que, depois de 3 dias da postagem, já havia sido entregue em Bauru. Então, demorou 12 dias para vir do CTCE (Centro de Tratamento de Cartas e Encomendas), para a minha casa, que fica no Jardim Estoril", afirma.
Em Bauru, o CTCE está localizado no Distrito Industrial 1 e, de acordo com a assessoria de comunicação dos Correios, conta com 183 empregados ativos. Contudo, é nítido que o número é insuficiente.
Segundo um carteiro, que não quis se identificar, a falta de funcionários realmente é o principal motivo do problema. "Aqui em Bauru e em todo o país, falta gente. Trabalho há mais de 20 anos nos Correios e essa é realmente a maior crise de sua história", complementa.
Outro funcionário da empresa, um motorista, também enxerga a proporção da crise. Para ele, o fato fica ainda mais nítido ao "enfrentar" a população.
"Eles reclamam muito com a gente. Mas não é nossa culpa. Está faltando funcionários. Sei da falta de uns cinco motoristas. Então, vai virando uma verdadeira bola de neve com muitos e muitos atrasos tanto de encomendas quanto de cartas", conta o funcionário, que trabalha nos Correios há 5 anos.
Concurso salvador?
Apesar de várias razões serem apontadas como determinantes para a crise, o déficit no quadro humano parece ser a principal. A assessoria de comunicação da empresa não nega os constantes atrasos, porém, considera-os "eventuais" e afirma que "se devem a um aumento substancial de objetos para tratamento que vêm ocorrendo nos últimos meses".
Porém, ela também concorda com a falta de funcionários, uma vez que aponta como uma das soluções à crise o concurso público que será realizado depois de amanhã. Em nota, a assessoria afirma que o concurso vai "preencher ao todo mais de 9 mil vagas entre vagas para nível médio e superior, das quais mais de 5 mil serão destinadas ao cargo de carteiro (nível médio). As contratações devem ocorrer a partir de julho".
Porém, mediante a situação atual, esse número não será suficiente para que os Correios voltem a operar com a pontualidade que guiava a empresa em tempos anteriores. A afirmação é de Osmar Brito, membro do Comitê de Luta Contra a Privatização dos Correios de Bauru.
"Serão contratados 9 mil funcionários. Porém, as projeções é de que, para voltar a funcionar com organização e nos moldes passados, seria preciso cerca de 30 mil novas contratações", completa Brito.
Caixas amontoadas
Para constatar o acúmulo de encomendas e correspondências depositadas no CTCE, a reportagem esteve no local e verificou que não são somente as reclamações que surgem aos montes. Além do galpão coberto, no pátio do depósito, é possível verificar uma boa quantidade de caixas acumuladas e amontoadas.
Entretanto, a assessoria de comunicação dos Correios nega que o local esteja sobrecarregado. "O CTCE conta com um pátio coberto, e destinado justamente a abrigar a carga a ser tratada na unidade. Ressaltamos que a carga que fica neste local é rotativa, ou seja, recebida, tratada e liberada, abrindo espaço para nova carga", argumenta, em nota.
Privatização
Para Osmar Brito, membro do Comitê de Luta Contra a Privatização dos Correios de Bauru, a falta de funcionários e a consequente decadência do serviço prestado tem uma explicação: forçar a privatização dos Correios.
Ele acredita que os atrasos são uma estratégia para "cansar" a população e, assim, conseguir o apoio necessário para a privatização.
"De longa data, a direção dos Correios está fazendo uma política articulada para que haja uma transformação de autarquia federal para uma empresa que vá negociar ações em bolsa valores. É uma pressão do sistema financeiro para que alavanque o mercado das ações. E é por isso que a qualidade do serviço está sendo deixada de lado. Para forçar a população", teoriza Osmar Brito.
Internacionalização
Mesmo em meio a toda crise instalada, a presidente Dilma Rousseff deu permissão para que os Correios iniciem sua estratégia de internacionalização. A ideia é de que os Correios conduzam uma empresa aérea para transporte de cargas em vários países da América.
Com esse projeto, os Correios passariam a competir com empresas estrangeiras, uma vez que, hoje, são essas últimas que fazem o transporte dos produtos pedidos no exterior até chegar ao Brasil. Desse modo atual, só no território interno os Correios assumem o transporte. A internacionalização possibilitaria o controle de toda essa etapa pela empresa brasileira.
Cansados, usuários dos serviços criam
estratégias para ?escapar? da atual crise
Cansados de sofrer com os prejuízos trazidos pelos constantes atrasos, os bauruenses estão se virando como podem para contornar o problema. É o caso da assistente administrativa Kelly Godoy Fontes, 36 anos, que, no mês passado, pagou o plano de saúde da família depois do vencimento.
"É um problema que já está ocorrendo há uns dois ou três meses. Como já fui prejudicada, comecei a ir direto nos locais para pagar as contas. A escola dos meus filhos, por exemplo, eu peço para que eles me mandem pela internet porque sei que, se esperar pelos Correios, vai atrasar", reclama.
Quase diariamente, cartas de bauruenses insatisfeitos com o serviço invadem a Tribuna do Leitor do JC. São reclamações de várias regiões diferentes da cidade e que relatam o atraso no pagamento de contas, a demora da chegada de encomendas e, conforme pontuou no último dia 30 o leitor Saulo Teles, a piora gritante na qualidade dos Correios. "É lastimável verificar que uma empresa que sempre pautou pela rapidez e segurança na entrega dos objetos a ela confiados demore mais de 11 dias para fazer a entrega de um objeto que já se encontra em nossa cidade", questiona.
Após a maioria das reclamações, a assessoria da empresa manda praticamente a mesma resposta padronizada, citando as medidas emergenciais que estão sendo tomadas e o concurso público que irá suprir a falta de contingente.
Entretanto, em outra carta, publicada na última quinta-feira, Luis Braga, que é ex-funcionário dos Correios, questiona essa justificativa padrão. "Enquanto esta falta de funcionários não se resolve, como ficamos nós, quem paga esta conta?, argumenta.