09 de julho de 2026
Polícia

Dez pessoas ?moram? na cracolândia

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 4 min

Não é de hoje que a maioria da população que passa pela "cracolândia bauruense" se depara com um cenário degradado e perigoso. A área compreende a avenida Nações Unidas e a ponte JK, prolongada até o viaduto inacabado, abaixo da rua Presidente Kennedy até a linha férrea da extinta rede ferroviária paulista. Ontem, Polícia Militar e Sebes realizaram uma operação no local (leia mais na página 13).

A região é um cenário assustador: são vagões abandonados, lixo, entulho, prédios e construções depredadas, além de pichações por todo lado. Pela "cidade do crack" circulam diariamente de 100 a 200 dependentes químicos, aprisionados pelo vício de substâncias entorpecentes.

Mas grande parte dos bauruenses que se deparam com a cracolândia, contudo, tem a oportunidade de voltar para o refúgio de seu lar, mesmo que seja com muito ou pouco conforto. Entretanto, imagine quem tem como "residência fixa" a própria cidade do crack e contracena num verdadeiro filme de terror todos os dias.

Apesar da repugnância de muitos, a localidade serve de refúgio permanente de pelo menos dez usuários que enfrentam a triste realidade da dependência química e necessitam de ajuda.

Em uma ação conjunta do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I) e da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), o JC pôde conhecer de perto como sobrevivem essas pessoas. Batizada de "Revitalizar", a operação conjunta uniu policiamento ao acolhimento social e conseguiu chegar até 30 dependentes químicos na madrugada de ontem, que vagavam em pontos diversos da região.

Dessas pessoas, pelo menos dez assumiram realmente residir na cracolândia, passando todas as manhãs, tardes e noites aprisionadas pelo vício naquele local. São pessoas de diversas faixas etárias, que trocaram familiares, sonhos e a liberdade pela prisão no mundo das drogas.

Vida miserável


Os dez "moradores craqueiros" vivem em meio ao frio e com roupas rasgadas. Sem tomar banho, atraem mosquitos e doenças. Alguns deles apresentam muitos ferimentos pelo corpo. Comida? A maioria se alimenta do vício do crack, apenas, ou procura restos de alimentos em meio ao lixo misturado com fezes e entulho que se acumulam na área da linha férrea.

Eles se mantêm nessa vida fazendo bicos e gastando toda sua pequena renda com o crack e outras drogas, ou então, se afundam na criminalidade, praticando furtos e assaltos para, em troca, comprar a droga.

E foi justamente com o intuito de reverter essa situação e possibilitar outros rumos às vidas desses dependentes químicos que a PM e a Sebes deram a largada na operação Revitalizar ontem. Inédita na cidade, a parceria tem como missão tirar o máximo de usuários das ruas e conta com apoio de diversos outros órgãos, como Conselho Tutelar e Defesa Civil.

"Esta primeira ação, iniciada na madrugada de ontem, será o começo de muitas outras que acontecerão no decorrer dos próximos meses, pois queremos que esse trabalho seja contínuo. É também a extensão do atendimento da Sebes", salientou Darlene Tendolo, titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes).

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Abordagens foram feitas durante quatro horas pela polícia e Sebes


Entre 5h30 e 9h30, foram localizadas e abordadas 30 pessoas pela Polícia Militar (PM) durante a operação. A maioria admitiu ser usuária de crack e compreende a faixa dos 20 aos 65 anos. Do total de abordados, em torno de 18 pessoas foram conduzidas ao Plantão Policial, pois estavam sem os documentos.

Apenas um adolescente foi localizado e recolhido pelo Conselho Tutelar. Entre os mesmos, um homem de 65 anos foi encaminhado à Casa de Referência por iniciativa própria, após as orientações oferecidas sobre o serviço prestado.

"O objetivo principal da PM foi fazer a averiguação desses usuários, assim como recolher substâncias entorpecentes, que não foram encontradas com eles. O papel da Sebes é conduzir esse pessoal a algum tipo de projeto ou política social", sintetizou o capitão Paulo César Valentim, que coordenou a ação de uma equipe de 45 policiais da PM, envolvendo trabalho da Ronda Ostensiva Com Apoio de Motocicletas (Rocam), Canil e Cavalaria da PM.

Todos os usuários abordados na operação foram cadastrados pela Sebes com a ajuda de uma equipe multidisciplinar, entre assistentes sociais, psicólogas e agentes sociais. Com o cadastro, foi possível fazer uma primeira aproximação.

Posteriormente, os usuários serão encaminhados para centros de referência social. De lá, poderão ser conduzidos a projetos específicos, de acordo com a necessidade de cada um. Contudo, não há obrigatoriedade das pessoas abordadas em aceitar qualquer sugestão.

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Café da manhã


Durante a operação Revitalizar, a equipe da Sebes ainda proporcionou um café da manhã aos dependentes químicos do local, com direito a lanche, leite, chá e distribuiu cobertores.

"Queremos identificar a família de cada um deles. Nem todos são usuários de crack, alguns são alcoólatras. Há, inclusive, mulheres grávidas nesta situação. Conversamos com todos eles e divulgamos os serviços oferecidos pela secretaria (do Bem-Estar Social). Vamos continuar acompanhando-os", comentou Darlene Tendolo, titular da Sebes.

Numa segunda frente de trabalho, viaturas da PM acompanharam fiscais da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), que fizeram vistorias em seis imóveis abandonados na região, que costumam ser utilizados também por usuários de drogas e outros moradores de rua. A prefeitura fará a notificação, nos próximos dias, dos proprietários responsáveis.

Ainda durante a ação, a polícia apreendeu seis facas, vários cachimbos, aparelhos celulares, um notebook, entre outros objetos, que foram achados espalhados pela linha férrea.