09 de julho de 2026
Articulistas

Esgotamento do trânsito em Bauru

Archimedes Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

O volume de veículos que se consegue escoar em uma via é semelhante ao de uma canalização de água, por exemplo. Se o diâmetro da tubulação de água for grande, o volume fluído é também grande. Outro ponto importante é o atrito que o fluido sofre nas paredes do cano. Quanto maior o atrito, menor a velocidade de escoamento. Este atrito, fazendo-se uma analogia ao trânsito, pode ser representado pelo estacionamento lateral nas vias e pelas condições do pavimento.

A Engenharia de Tráfego prevê que o sistema viário deve ser hierarquizado, segundo as funções precípuas das vias urbanas. O Código de Trânsito Brasileiro as classifica em quatro categorias: de trânsito rápido, arterial, coletora e local. As primeiras têm maior fluidez e, as últimas, maior acesso aos lotes lindeiros. O sistema viário bauruense não é compatível com o porte da cidade, que tem, segundo o censo de 2010, 335 mil habitantes e uma frota de veículos de 195 mil, considerando-se somente veículos individuais (automóveis, caminhonetes, motos). Isto resulta em uma alta taxa de motorização, de 1 veículo a cada 1,7 pessoas.

Nesta cidade, onde o transporte coletivo foi sempre preterido em relação ao transporte motorizado individual. Jamais houve a preocupação em construir um sistema viário capaz de acompanhar e acolher o crescente fluxo de veículos nas ruas. Há quanto tempo a cidade não investe em grandes avenidas, viadutos? Bauru não possui via classificada como de trânsito rápido, com capacidade de escoar rapidamente um grande volume de tráfego. As vias consideradas como arteriais, Duque de Caxias e Rodrigues Alves (sem estacionamento) e Nações Unidas, Comendador Martha, Getúlio Vargas (com estacionamento), possuem somente duas faixas por sentido. É muito pouco para comportar o fluxo de veículos.

O sistema viário local ficou esquecido. A Rodrigues Alves convive eternamente com os calombos no asfalto e sua continuidade, para oeste, atinge um viaduto há anos interditado. A Cruzeiro do Sul, de boa capacidade, foi seccionada com a duplicação da Rondon. A Nuno de Assis não teve continuidade após o Fórum. A Nações, na forma em que é operada no centro, tem baixíssima capacidade. A Comendador Martha, até o momento não acabou a sua duplicação. A Getúlio termina numa via de mão dupla. A cidade, por outro lado, possui algumas vias coletoras com boa largura. As ruas Rio Branco, Gustavo Maciel, Treze de Maio, Araújo Leite, Antônio Alves, que ligam o centro à zona sul, poderiam ter uma capacidade ampliada de tráfego, sem os estacionamentos. E onde estacionam os carros? Fora destas vias mais importantes, principalmente, em estacionamentos particulares fora da via pública. É compatível para uma via importante ter fluidez e estacionamento simultaneamente.

Os diversos segmentos da sociedade precisam pensar de maneira mais arrojada. Considerando o porte de Bauru, não é possível ir comprar um vestido e parar em frente à boutique, nem ir ao banco e estacionar na porta. Isto é passado. Diante destes fatos, e aliado à falta de investimentos no transporte coletivo, entende-se que se não houver um pesado investimento na melhoria do sistema viário, é certo que os bauruenses e as pessoas que visitam a cidade diariamente ficarão imobilizados no sistema viário. Ficará mais rápido andar a pé.


O autor, Archimedes Raia Jr., é engenheiro, mestre e doutor em Engenharia de Transportes pela USP, pesquisador e professor de Engenharia e Segurança de Tráfego da UFSCar, co-autor do Livro Segurança no Trânsito - e-mail: raiajr@ufscar.br