08 de julho de 2026
Geral

Termômetro do estômago eleva apetite quando temperatura cai

Luiz Beltramin e Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

É praticamente inevitável. Basta a temperatura baixar que o termômetro do apetite vai lá em cima. A fome de leão, mesmo mantidas as mesmas atividades de dias mais quentes, sentida quando o clima está mais ameno, é uma forma natural do corpo pôr "mais lenha na fogueira", ou seja, quanto mais frio o clima mais calorias o organismo pede, explicam especialistas nas áreas de nutrição, gastronomia e endocrinologia.

"A temperatura vai ditar o que comemos", decreta o chef de cozinha Ulisses Dias, professor do curso de gastronomia da Universidade Sagrado Coração (USC). "O organismo se sente melhor com alimentos mais gordurosos nesses dias", completa.

De forma instintiva, quase que inconsciente, enfatiza a nutricionista Daniela Biagioni Vulcano, fugimos do buffet de saladas na hora do almoço no restaurante por quilo. Aí é que mora o perigo, enfatiza ela. "A gordura dá mais saciedade e digestão mais demorada, com maior regulação da temperatura corpórea nos dias mais frios. Ao mesmo tempo que, no calor, algumas pessoas sentem transtornos gástricos com os mesmos alimentos", compara ela, professora do curso de nutrição também na USC e da Unesp/Botucatu.

E não é apenas a maior necessidade energética que nos faz ingerir mais calorias. A reação orgânica em busca de "lenha na fogueira" corporal envolve até mesmo alterações no próprio paladar, mais aguçado nessas ocasiões. "No frio é mais comum as pessoas terem vontade de comer uma feijoada, por exemplo. Os sabores têm uma melhor percepção", ressalta o chef Dias.

No entanto, manter a temperatura do corpo equilibrada não significa, necessariamente, perder a linha na hora de subir na balança. De acordo com a nutricionista, é possível estar de bem com o peso e silhueta sem deixar com que a fome aperte.

Segundo Daniela, é possível driblar parcialmente as ordens organismo, com a preferência por pratos saudáveis, entre eles os legumes quentes ou sopas e caldos. "Há alternativas, entre eles legumes quentes, refogados", reforça. "Mas também é necessário cuidado. Um grande perigo é refogar com óleo. O ideal é processar legumes no vapor", orienta.

Contudo, apesar das "artimanhas", ressalva a nutricionista, o paladar continua aguçado. Desta forma, não há fórmula mágica. Se o estômago grita, a cabeça tem que dar a última palavra. "Infelizmente não há compensação plena", descarta. Contudo, ela recomenda algumas formas de driblarmos a fome sem abrir mão de sabor, tampouco os frutos colhidos pelo regime feito nos meses mais quentes.

Entre as opções, recomenda, está a salada de feijão branco. Com aproximadamente 180 calorias por porção (medida por um pires) a receita leva cenoura em cubos, tomate cereja, vagem, milho e cheiro verde e é ideal, principalmente, para quando a fome aperta durante a "sessão coruja" debaixo do cobertor. "Para a noite é bom, assim como o caldo de ervilha, prato com apenas uma fonte de carboidrato", enfatiza.

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Caliente


Nos dias de mais frio e mais fome, a busca por sabor, especialmente neste ano, tem como principais vertentes os pratos mais apimentados, conceitua o chef de cozinha Ulisses Dias. Comidas, literalmente, "calientes", estão em alta, destaca ele. "As cozinhas espanhola e peruana, de temperos com mais pegada estão mais valorizados, bem como a tradicional cozinha de botequim", detalha.

A estação, salienta, é propícia para quitutes, caldos e muito condimento, como a cebola, coentro, curry (mistura de especiarias típica da gastronomia indiana) ou açafrão. A queda de braço entre o convite ao sabor e disciplina é o quente da estação.

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Vontade de comer é bem maior em
relação à necessidade metabólica


Vontade de comer ou necessidade mesmo. Não importa. O fato é que no frio, além de querermos comer mais, optamos por alimentos mais gordurosos e pesados. Isso acontece porque o corpo, explicam endocrinologistas, funciona como uma espécie de máquina térmica.

Da mesma forma com que a caldeira de uma locomotiva precisa de mais lenha para manter o trem em movimento, o organismo humano, literalmente, queima mais energia nos dias de temperatura mais amena. "Gastamos mais energia para manter o metabolismo", explica a médica endocrinologista Ivanise Cortez Figueiredo. "O corpo precisa manter a temperatura interna, entre 36 e 36,5 graus. Então, não é que o alimento fica mais gostoso. A atividade metabólica é que é maior", diferencia Telma Gobbi, também especialista na área.

Maior consumo de energia não significa, entretanto, encher o prato com lasanha, picanha ou torresmo, ponderam as médicas. "Nosso olho também é maior do que a necessidade metabólica", ressalva a médica Telma. "O frio virou um pouco de desculpa. Comer mais nessa época é convidativo e até mesmo cultural", pontua a colega Ivanise.

Segundo ela, uma ingestão superior a 5% do consumido em dias mais quentes já é suficiente para ganho de peso. "Se você come somente o necessário para manter a temperatura, não há problemas. Claro que a necessidade calórica é maior no frio, mas a moderação independe ao clima", pontua Telma. "Na verdade, quem prioriza comer por prazer sempre terá uma desculpa. No Verão, essa mesma pessoa vai abusar de refrigerante gelado", exemplifica.

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Com o frio, chega a quadruplicar
procura de apreciadores por vinho


O consumo de vinho sempre aumenta no período mais frio do ano. Embora não seja uma bebida que se tome quente, a não ser nas festas juninas, ela é item obrigatório no cardápio das estações outono-inverno. De acordo com o enófilo e chef de cozinha Jefferson Previero, a venda de vinho tinto (mais indicado para o frio) triplica nessa época. "Às vezes, a venda chega a quadruplicar", relata ele. O cabernet sauvignon, vinho do tipo mais encorpado, é o preferido dos consumidores e um dos indicados para compor a mesa nas noites frias.

Uma das explicações para essa preferência, segundo Previero, é que o vinho tinto encorpado combina bem com os pratos mais gordurosos, bastante comuns para a época. De acordo com o enófilo, a harmonização entre bebida e comida se dá quando um não interfere no sabor do outro. Ao contrário, um deve complementar o outro.

E ele aproveita para dar uma dica. A feijoada, um dos pratos típicos para os dias frios, não combina com vinho tinto, por causa do alto grau de acidez presente no vinho e no feijão. Por isso, a combinação mais indicada é com vinhos mais leves, como o branco.

Dos vinhos encorpados, outra boa opção, segundo Previero, é o de uvas merlot, que atualmente compõe o que as vinícolas brasileiras têm de melhor a oferecer. A uva malbec é outra que produz um bom vinho, especialmente se for argentino.

Para os leigos, um jeito simples de saber se o vinho é de boa qualidade é pelo preço. Teoricamente, quanto mais caro, melhor é a bebida. No entanto, para Previero o vinho bom é aquele que agrada o paladar de quem o consome.

Na dúvida sobre qual vinho escolher, ele aconselha conversar com quem está servindo ou com quem está vendendo. Assim, comenta o enófilo, fica mais fácil descobrir o tipo que mais se aproxima do gosto do freguês.