08 de julho de 2026
Bairros

O Sambódromo e suas faces

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 9 min

Todas as quintas e sextas-feiras é dia de tensão no Sambódromo Municipal de Bauru (SMB). O nervosismo toma conta do local logo cedo, às 7h, e envolve dezenas de pessoas. É que nestes dias da semana a passarela do samba é transformada pela Departamento Estadual de Trânsito (Detran) de São Paulo em pista de testes para a concessão de permissão para dirigir. O futuro de centenas de aspirantes a motorista está ali, entre algumas balizas e um circuito.

Quem está de fora e observa a movimentação também sente o clima. Alguns deixam transparecer a ansiedade, ficam na torcida. Já os peritos e profissionais envolvidos no teste acham graça, para eles, faz parte da rotina.

Os testes acontecem na parte baixa do SMB, a famosa dispersão das escolas de samba. No caso das motos, é preciso cumprir um circuito desenhado à tinta no chão. Já para os carros, a primeira barreira é a temida baliza, que deve ser transposta em, no máximo, quatro minutos.

Todos os meses, cerca de 1.500 pessoas realizam prova no local, que foi escolhido pelo Detran justamente pela capacidade em comportar uma grande quantidade de pessoas.

"Antigamente, as provas eram realizadas no Centro de Treinamento mas, por conta da grande demanda, transferimos para cá. Penso que, atualmente, o Sambódromo é o local disponível na cidade mais adequado", avalia Elizeu de Freitas Costa, delegado de polícia.

Jeysse Daiele Cardoso Ferreira, 21 anos, e Everton Henrique de Godoy, 18 anos, realizaram a prova da categoria B, habilitação para dirigir carros, pela primeira vez na manhã da penúltima sexta-feira, dia 6. Eles chegaram ao Sambódromo antes das 7h, quando os testes começaram, e só conseguiram soltar o sorriso por volta das 9h, depois de puxar o freio de mão, interromper o funcionamento do motor e escutar do perito: "Ok, aprovado".

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Passarela do Samba


Nem a chuva, ou os riscos que uma grande aglomeração de pessoas causa, nem o costumeiro atraso nos desfiles foram suficientes para fazer com que os bauruenses deixassem de prestigiar o Carnaval realizado no Sambódromo em fevereiro deste ano. Resultado: 13 mil foliões no primeiro dia de desfile e cerca de 20 mil na segunda noite, todos empolgados e com muito samba no pé.

Mas enquanto a alegria predominava na arquibancada e o público aguardava para assistir aos desfiles dos blocos e escolas de samba, o clima era de tensão na concentração. É ali que as seis escolas de samba e oito blocos que desfilaram este ano se prepararam para adentrar na passarela do samba.

"Dá um frio na barriga imenso. Cada desfile é único e inesquecível. Neste momento, você pensa em tudo, do enredo à fantasia, além dos imprevistos que possam ocorrer, é claro", conta Aparecida Brito Caleda, a Cidinha, presidente da escola Azulão do Morro, campeã do Carnaval 2011.

E foi para evitar imprevistos que Cidinha trocou o salto fino pela sandália tipo anabela.

"Eu tinha assistido a um desfile antes e notei que uma moça quase caiu porque o salto fino esbarrou em um buraco na pista. Então pensei: é melhor prevenir que remediar", conta.

Outra precaução da carnavalesca foi evitar a ingestão de líquidos antes do desfile, já que os banheiros da concentração permaneceram fechados durante o evento e os banheiros químicos ficavam na parte superior do Sambódromo, muito distantes da passarela do samba.

É com base na experiência de quem é obrigada a tomar estas e em outras precauções que Cidinha afirma que o Sambódromo precisa passar por algumas reformas para alcançar a infraestrutura ideal e tornar os desfiles de Carnaval mais tranquilos.

"São coisas pequenas, mas que fazem toda a diferença. Uma delas, por exemplo, é a pintura de uma faixa amarela marcando o meio do Sambódromo, para que tenhamos noção do tempo, e outra cortando a passarela ao meio, na vertical, para nos localizarmos quanto à centralização dos carros alegóricos na pista", reivindica.

Paschoal Storniolo, presidente da Escola de Samba Acadêmicos do Cartola, concorda com Cidinha. Para ele, há muito a ser melhorado na passarela do Samba e um bom começo seria movimentar o local do desfile durante todo o ano, garantindo a manutenção periódica.

"O Sambódromo fica abandonado durante todo o ano. Daí, chega em época de Carnaval, algumas medidas de emergência são tomadas, o lugar é maquiado, e fica por isso mesmo. Penso que o uso contínuo, durante todo o ano, é uma boa alternativa", sugere o carnavalesco.

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O perigo mora ao lado


Um local com mato alto atrai bichos e insetos. Sem iluminação, torna-se esconderijo para usuário de drogas. Sem utilidade, se transforma em depósito de lixo. Para o desespero dos moradores das redondezas do Sambódromo Municipal de Bauru (SMB), este é o cenário que pode ser encontrado no espaço que foi projetado para ser a passarela do samba e da alegria.

Tereza Erba, 76 anos, mora na rua dos Abacateiros, logo acima das arquibancadas do SMB, há 30 anos. Ela acompanhou de perto a construção do espaço e afirma que, na época, os moradores das adjacências ficaram bastante animados com a obra. Animação que desapareceu com o passar dos anos.

"Quando me mudei para cá, o local onde está o Sambódromo era só mato. Meu marido até fez uma horta para amenizar a situação. Quando ficamos sabendo da obra, ficamos muito felizes, mas depois percebi que era um problema", conta.

Entre as reclamações da moradora está o depósito irregular de lixo no local e o abandono por parte da prefeitura.

"As pessoas vêm aqui de noite e jogam lixo. Quando os moradores percebem, já é tarde. A prefeitura só aparece aqui duas vezes no ano: nas vésperas de Carnaval e do desfile de Sete de Setembro", reclama. "Penso que o Sambódromo deveria ter um zelador", sugere.

Airton da Silva também é afetado pela precariedade do espaço. Ele tem um comércio nas proximidades do local e reclama do pouco uso do lugar. Na opinião dele, um maior número de eventos é fundamental para manter a manutenção e evitar o mau uso do espaço.

"É terrível. O banheiro, por exemplo, está sempre fechado. O pessoal que faz teste de habilitação, nas quintas e sextas-feiras, não tem a estrutura básica da qual necessita. Às vezes eles, têm de vir até aqui, do outro lado da dispersão, pedir para usar o banheiro", conta.

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Trancado a sete chaves


Enquanto uns reclamam do abandono do Sambódromo Municipal de Bauru (SMB), outros se aproveitam da pouca utilização do espaço. Por conta de uma lei estadual, o município é obrigado a dar suporte para as ações do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran) e, por conta disso, a cidade empresta a área do Sambódromo, especificamente a dispersão, para realização dos testes de habilitação.

Porém, quem passa pelo local pode notar que, durante todos os dias da semana, motos e até caminhões de auto-escolas transitam pelo espaço tranquilamente.

Na tarde da última terça-feira, a equipe do Jornal da Cidade encontrou motorista de caminhão e seu instrutor realizando treinamento para baliza no centro passarela do samba. Um pouco mais adiante, na concentração, meia dúzia de aspirantes a piloto de motocicleta também faziam aula. Curioso constatar que todos os portões do Sambódromo, sem exceção, estavam fechados com cadeado.

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É dia de feira


Ovos, legumes, flores, artesanato, frutas, mel, temperos, e, é claro, o famoso pastel. Estes são alguns dos produtos que podem ser encontrados na feira livre realizada nas noites de sexta-feira nas imediações do Sambódromo Municipal de Bauru (SMB).

A variedade pode até chamar a atenção, mas quem frequenta o local sabe que, em um passado não muito remoto, o evento e o número de feirantes que o compõem já foram muito maiores. Em dezembro de 2003, por exemplo, quando foi inaugurada, a feira contava com 35 bancas. Atualmente, apenas oito participam.

Na opinião do presidente da Associação dos Feirantes de Bauru, uma série de fatores contribuíram com a decadência, entre eles, a falta de incentivo por parte do município.

"Em 2003, quando a feira noturna foi realizada aqui no Sambódromo pela primeira vez, foi uma festa geral. Um grande número de pessoas participou. Até caminhão de palco e shows de cantores bauruenses teve", lembra Moisés.

Além disso, uma temporada de chuvas subsequente à inauguração pode ter afugentado o público e alguns feirantes.

"Choveu nove segundas-feiras seguidas e a feira foi caindo no esquecimento", comenta.

A diminuição no movimento e no número de feirantes acarretou uma outra mudança, desta vez, na localização. Há cerca três anos a feira deixou de ser realizada na passarela do samba e passou para uma pequena rua, ainda dentro dos limites do Sambódromo, logo acima das arquibancadas.

A transferência de local, segundo Moisés, aconteceu porque muitas pessoas sentiam dificuldades em descer as escadarias para chegar até a passarela do samba e, por isso, estavam deixando de frequentar o evento.

"O Geisel é um bairro com muitos idosos. Como diminuiu o número de barracas, as pessoas começaram a analisar se compensava mesmo descer as escadarias ou contornar o Sambódromo para ir à feira. Por isso decidimos trazê-la para cima", afirma Moisés. A mudança trouxe contentamento para os moradores. Silvio Teixeira Viana, 67 anos, é um dos moradores do bairro de batem cartão no local todas as sextas-feiras. Ele comemora a transferência.

"Achei muito bom. Quando era lá embaixo, na pista, tinha muito movimento e a gente se animava a ir até lá. Agora, são poucos os feirantes e o movimento é pequeno. Acho perigoso", pontua.

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Tradição interrompida


Logo que o Sambódromo Municipal de Bauru (SMB) foi inaugurado, em 1991, o Feirão de Carros, que antes era realizado na avenida Nações Unidas, foi transferido para o local. A ideia era, além de dar uma utilidade ao espaço, arrecadar verba para ajudar as escolas de samba nos desfiles de Carnaval.

O evento se estabeleceu na concentração do SMB e, segundo Avelino de Souza, presidente da Liga das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas (Lesec) de Bauru, cada veículo que participasse devia pagar uma taxa de R$ 2,00.

"O Feirão tornou-se tradição aos domingos. Vinha gente de toda a região para prestigiar. Semanalmente, uma média de 150 carros participavam, o que gerava uma renda em torno de R$ 300,00. As escolas de samba se revezavam na administração e repartiam a verba", conta.

O evento foi realizado na concentração durante 19 anos até que, após o Carnaval de 2010, foi interrompido por ordem da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), que alegou impedimentos legais para o uso. Além disso, a denúncia de que as verbas do Feirão não estariam sendo devidamente repassadas para as respectivas agremiações também pode ter sido um fator motivador para a proibição.

Mas o fato é que, desde então, o Feirão passou a ser realizado nas ruas adjacentes, sem a cobrança de taxa, já que os carros ficam estacionados nas vias. Quem não gostou muito do novo formato foi o presidente da Lesec e os moradores do local.

"Acho um absurdo. Um espaço tão grande como o Sambódromo e sem uso nenhum. O Feirão é tradição na cidade, a prefeitura deveria incentivar a apoiar. Estamos fazendo na rua para não deixar a tradição morrer", reclama Avelino.

Já da perspectiva dos vizinhos do local, a alternativa não é tão adequada assim.

"Lá no Sambódromo eles não atrapalhavam ninguém. Agora, aqui na rua, é um transtorno. Cada vez que tenho de sair com o carro, aos domingos, é uma batalha. A rua não é o local próprio para isso", reclama um morador que não quis se identificar.