Brasília - Eram 21h de quarta-feira quando o estridente celular de um dirigente do PT tocou forte, no Salão Verde da Câmara dos Deputados. O assunto em discussão era o polêmico Código Florestal, mas o dono do telefone estava interessado em outro tipo de ocupação. "Você conversou com o Gilberto?", perguntou o petista ao interlocutor. "Conseguiu passar a nossa insatisfação com essa questão dos cargos?"
O "Gilberto" mencionado na conversa reservada era o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho. No Palácio do Planalto, ele é conhecido como "nosso guia", o homem do "freio de arrumação". Nos últimos dias, Carvalho atuou para acalmar a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, enquadrou companheiros de partido e distribuiu broncas.
Ex-seminarista que largou tudo para viver a experiência de Jesus entre os pobres, ele morou dez anos numa favela de Curitiba - onde se casou em festa regada a Ki-Suco - e hoje é o ministro que faz a ponte entre o governo de Dilma Rousseff e o PT.
Conhecedor das entranhas do partido e amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - de quem foi chefe de gabinete durante os oito anos dos dois mandatos -, Carvalho atua sempre como anteparo, antes que as queixas batam à porta de Dilma Rousseff. É também ele o ministro que faz o elo entre o governo e os movimentos sociais e dialoga com as centrais sindicais. Nas festas do 1 de Maio, foi Gilberto Carvalho quem trouxe a mensagem da presidente aos sindicatos e trabalhadores.
"Ele é o guia espiritual de todos nós", resumiu o ministro Antonio Palocci ao comentar sobre a importante atuação de Carvalho no governo. A intervenção de Carvalho, por exemplo, deu fôlego a Ana de Hollanda e estancou o fogo amigo no PT contra a ministra. É ele que tem feito o meio de campo com petistas descontentes com a gestão de Ana porque tiveram interesses contrariados.
Ouvidor-geral
Brasília - Embora Gilberto Carvalho seja o "ouvidor-geral" do Planalto, muitas vezes as reclamações são arquivadas ali mesmo. Na composição do segundo escalão do governo, por exemplo, ele pouco tem ajudado seus amigos do PT.
"Gilberto é uma figura generosa, educada e de posições firmes. Muita gente acha que ele não tem lado, mas tem e faz a disputa política", comentou o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), que defendeu a candidatura de Carvalho ao comando do PT, em 2009. À época, Lula barrou a articulação. "Você está doido, Vaccarezza? Ele é um homem bom. Não pode presidir o PT", interveio Lula.
Ser "ouvidor-geral" do Planalto também tem seus momentos de descontração. No último dia 6, por exemplo, Carvalho recebeu uma ligação do ex-presidente Lula. Animado, pensou que fosse se inteirar sobre os movimentos do ex-chefe para as alianças municipais nas eleições de 2012. De uns tempos para cá, Lula e Carvalho têm conversado bastante com o deputado federal Gabriel Chalita (PSB-SP), hoje de malas prontas para o PMDB e pré-candidato à Prefeitura de São Paulo.
"Você dormiu bem, Gilbertinho?", perguntou Lula. Ainda sem entender nada, o ministro desconfiou do estilo irônico do amigo, a quem chama de "Baiano". Não demorou muito para que caísse sua ficha: a ligação ocorreu depois que o Palmeiras sofreu uma goleada de 6 a 0 ao enfrentar o Coritiba. Palmeirense roxo, Gilberto Carvalho ouviu, mais uma vez, a gozação do corintiano Lula.