10 de julho de 2026
Polícia

Para evitar furtos, empresários do Distrito 3 dormem nas fábricas

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

A alta incidência de furtos no Distrito Industrial 3, em Bauru, mudou a rotina de empresários e funcionários, que deixaram de voltar para casa após o expediente. Eles passaram a dormir na fábrica justamente para evitar novos prejuízos provocados por delitos contumazes.

De acordo com o que a reportagem apurou, até objetos levados de um endereço são utilizados para furtar outros. Há relatos, por exemplo, de um ladrão que fugiu com a escada de um barracão e, momentos depois, a utilizou para adentrar na fábrica vizinha e praticar outro furto. Dias antes, a poucos metros dali, outra indústria foi invadida três vezes em uma única noite. Até câmeras de vigilância estão sendo levadas pelos bandidos. Essas são apenas algumas das histórias da região que, segundo a população do local, torna-se a cada dia território da criminalidade.

Com medo de retaliações, todos os ouvidos na reportagem pediram para ter seus nomes e o de suas fábricas preservados. Partilham medo e relatos semelhantes de furtos e roubos, que se repetem a cada semana.

O funcionário de uma indústria de metalúrgica, de 67 anos, foi uma dessas vítimas. Ele relata que, no último dia 28, homens entraram no galpão onde trabalha e levaram ferramentas, máquinas, carriolas e até o seu rádio particular. Entretanto, três dias depois, o fato se agravou.

Ele dormia por volta das 23h na fábrica, quando um homem tentou adentrar no local. Como era apenas um indivíduo, ao perceber a presença do funcionário, o suspeito fugiu. Porém, cerca de três horas depois, dois homens, agora armados com um pé-de-cabra, conseguiram entrar. Dessa vez, quem fugiu foi o próprio funcionário. "Eu estava com roupa de dormir e, além de medo, passei vergonha na rua. É uma situação extrema: os bandidos colocando a gente para correr. Eles vieram e eu tive que pular o muro dos fundos e fugir", relembra.

O trabalhador chamou o proprietário da empresa para relatar o fato. Quando todos estavam no local, por incrível que pareça, a ousadia se repetiu pela terceira vez. "Era cerca de 4h da manhã e houve outra invasão. Meu patrão que viu o suspeito. Não conseguíamos acreditar".

Na mesma quadra, o proprietário de uma indústria de peças elétricas, de 53 anos, também foi vítima da ação dos ladrões. Na ocasião, os indivíduos furtaram uma escada de uma construção ao lado do galpão e a utilizaram para sobrepujar o alto muro da propriedade.

"Eles entraram, furtaram um monte de fios de cobre e objetos elétricos. Desmontaram minha lancha, que estava na fábrica, e retiraram um monte de peças. Também levaram a motocicleta de um dos meus funcionários. Ao todo, tive um prejuízo de mais de R$ 5 mil", conta o proprietário, que passou a dormir na indústria para tentar evitar a ação dos ladrões.

"Há uma semana, tentaram de novo invadir a fábrica. Eles tentaram quebrar o cadeado, mas não conseguiram. Durmi aqui a semana inteira para evitar algo assim", completa o industrial.


Premeditado


Em outra metalúrgica, a situação foi ainda mais constrangedora. Entre as várias vezes que o local foi furtado, os ladrões chegaram a levar as duas câmeras de vigilância que monitoravam a fábrica. Provavelmente, a estratégia utilizada foi para facilitar os outros crimes, supostamente já programados. "Na semana passada, depois de terem levado as câmeras, eles entraram na fábrica por volta da meia-noite, estouraram os cadeados e furtaram várias máquinas e ferramentas. Se for considerado tudo que levaram, o valor do prejuízo gira em torno de R$ 10 mil", afirma o proprietário da indústria, de 42 anos.

Na ocasião, ele encontrou dois jovens com carriolas e um monte de objetos, como alimentos e até mesmo uma televisão de 29 polegadas. "Mas, não conseguimos contatar a polícia e, como eles disseram que estavam se mudando, deixei que fossem embora mesmo desconfiado", conta.

Entretanto, na última quarta-feira, por volta do meio-dia, o proprietário estava nas proximidades quando um vizinho denunciou que um indivíduo havia pulado o muro do local. Então, ele resolveu chamar um funcionário e segui-lo.

Ao encontrar o suspeito, o industrial reconheceu que era o mesmo encontrado há duas noites e resolveu detê-lo por conta própria. A polícia foi acionada e Willian Pereira Alves, 23 anos, foi preso em flagrante com 17 barras de ferro, de cerca de 1,5 metro cada e, ainda, outros 20 estribos do mesmo material. "Aqui a gente tem que resolver por conta própria os crimes", conta, evidenciando a insegurança da área.

Depois de detido, Willian Alves ainda foi reconhecido como o autor de outro furto, realizado na madrugada de sexta-feira, em uma creche localizada na quadra 2 da rua Nelson Banachela Gimenes. Nesta ocasião, ele levou um colchonete e uma máquina de triturar frios. O jovem e outro suspeito somente não furtaram mais porque foram flagrados pelo proprietário da metalúrgica quando faziam o transporte dos objetos com as carriolas e resolveram abandonar a "carga".

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Sem registros?


Além do medo, todos os entrevistados na reportagem também reclamam da falta de policiamento do Distrito Industrial 3. Porém, a Polícia Militar (PM) enxerga uma realidade bastante contrastante com a que está sendo vivenciada e denunciada pelos proprietários e funcionários de indústrias no local.

Segundo o comandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPMI), tenente-coronel Nelson Garcia Filho, a demanda de crimes na área não é tão grande quanto em outras regiões da cidade. Entretanto, o tenente-coronel explica que o motivo pode ser a falta de elaboração do boletim de ocorrência (BO) por parte das vítimas, o que justificaria até mesmo a quantidade - ou falta - de policiamento. "Sempre organizamos nossos planos de patrulhamento mediante a estatísticas. Lá (no Distrito Industrial 3), não temos muitos registros de ocorrência. As vítimas precisam registrar todos os casos para que isso mude", alega o comandante Nelson Garcia Filho.

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PM sugere ?condomínio fechado?


O comandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPMI), tenente-coronel Nelson Garcia Filho, aponta que a proximidade com algumas áreas pode ter gerado essa onda de crimes no Distrito Industrial 3. "Além da presença do IPA (Instituto Penal Agrícola), o local está muito próximo do bairro Fortunato Rocha Lima, que é um bairro complicado", afirma.

De acordo com o tenente-coronel, está sendo planejada, para a segunda quinzena de junho, uma reunião entre a PM e todos os industriais do Distrito 3. A ideia é criar um plano preventivo de defensibilidade e, até mesmo, "cercar todo o Distrito".

"Nosso objetivo é traçar um plano para fechar toda aquela área. Transformar em uma espécie de condomínio fechado mesmo. Veremos como fazer isso. Talvez, conversar com a prefeitura e pedir a isenção de algum imposto para que eles pudessem construir esse muro", aponta.

O tenente-coronel Nelson Garcia Filho explica que, além desse plano maior, ainda é necessário que os próprios proprietários tomem algumas medidas de segurança. "A polícia atua na área, porém, eles precisam tomar algumas medidas. Verificamos, por exemplo, que, em muitas ocorrências, os marginais pulam os muros. Se eles colocassem cercas elétricas ou concertinas, isso já seria inibido".