09 de julho de 2026
Geral

Há uma década, advogado defende união homoafetiva

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 4 min

Um assunto não ?discutível na época, a união homoafetiva, reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no último dia 5, há uma década foi tema da dissertação de mestrado de Cláudio Bahia. Professor da graduação e pós-graduação do Instituto Toledo de Ensino (ITE), o advogado bauruense escreveu "A Proteção Constitucional à Homossexualidade", editada em livro em 2006, onde debate o reconhecimento legal da união estável de homossexuais.

"Na pesquisa, defendia o novo conceito de que a família não é uma entidade que diz respeito à questão de relações sexuais ou de procriação; o principal mote de você ter uma família é o afeto. Uma questão que, na época, não era reconhecida pelo direito", comenta o advogado, que considera a decisão do STF uma grande conquista para a comunidade homossexual.

O reconhecimento pelo órgão ocorreu um dia após a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) aprovar o projeto de lei que institui o Dia Estadual da Luta Contra a Homofobia, a ser celebrado amanhã. O dia 17 de maio foi escolhido porque nesta data a Organização Mundial de Saúde (OMS) tirou o homossexualismo da lista de doenças mentais.

Para Bahia, o reconhecimento da união homoafetiva, vem para contribuir com a evolução do debate existente desde a Constituição de 88, na qual pede-se que se evite a existência de discriminação e de grupos sociais excluídos dos direitos por ela trazidos.

"A história do Brasil é cíclica em apontar discriminação contra o índio, o negro, a mulher desquitada, o menor abandonado; hoje, temos a questão do homossexual como sendo o foco da discriminação. Não vejo, como alguns setores sociais colocaram, que é uma decisão que vem destruir a família, incentivar o homossexualismo; o Supremo não está dizendo que a homossexualidade é a melhor forma de se viver em sociedade, ele não entra neste mérito", afirma.

Segundo o advogado, a decisão trata-se de um recado de que, no País, não se irá tolerar a discriminação. "O Supremo está dizendo à sociedade brasileira que é preciso respeitar os outros. Não está em jogo se entendemos que a conduta assumida pelo outro não nos agrada. Ainda é importante perceber que a decisão não tirou direitos de outros grupos, apenas estendeu direitos que já são pertencentes a todos pela qualidade de cidadãos", explica. "O STF não escolheu a família homossexual como a melhor forma de família e sim que é um das formas e, por isso, deve ser respeitada como tal", ressalta.


Ganhos


Com o reconhecimento do STF, a união homoafetiva passa a gozar dos mesmo direitos das uniões chamadas estáveis. "Agora que ela é vista como forma de falar, podemos falar em regime de bens, em questões de natureza previdenciária, em adoção, direito sucessório e tudo que cabe aos casais heterossexuais", explica Cláudio Bahia.

"Agora ninguém mais pode se recusar a efetivar os direitos dos cidadãos brasileiros homossexuais. Antes a situação era dúbia. Tínhamos jurisprudências para os dois lados, reconhecendo essa relação como família ou simplesmente união civil. Agora o Brasil inteiro vai ter que reconhecer como união estável e isso significa uma democratização muito grande", completa o advogado Sérgio Gazza Júnior, que recentemente escreveu sua monografia de pós-graduação sobre o assunto.

Embora feliz com a conquista, a Associação Bauru pela Diversidade (ABD) frisa que este é apenas o primeiro passo. "O primeiro e talvez o mais importante passo foi dado. Outro desafio é que a sociedade se acostume e o preconceito diminua", comenta João Winck, conselheiro da entidade.

O Dia Estadual da Luta Contra a Homofobia será celebrado no 17 de maio porque foi nesse dia que a Organização Mundial de Saúde (OMS) tirou o homossexualismo da lista de doenças mentais.

____________________

Mudança de mentalidade


Há 10 anos, quando decidiu discutir união homoafetiva, Cláudio Bahia optou por um tema considerado "tabu". "Me interessei pela questão após assistir a uma palestra da então desembargadora Maria Berenice Dias, pioneira no Brasil sobre o tema, tido na época até como não acadêmico", lembra o advogado.

Bahia recorda que a bibliografia necessária para a pesquisa existia apenas fora do País. "Único livro que tínhamos aqui era o da Berenice; não se encontravam jurisprudências sobre o assunto. Hoje, em qualquer tribunal que você faça uma pesquisa, independente do resultado, a discussão é inequívoca", afirma.

Para o professor, as transformações foram possíveis graças a uma série de evoluções ocorridas, inclusive na mentalidade dos profissionais de direito. "A sociedade, em princípio, também está mais tolerante. Mas, sem dúvida, a mentalidade do operador de direito que sempre foi extremamente conservadora, vem abrindo, mudando rapidamente. É um conjunto de evolução: evoluiu a lei, o legislador, o operador de direito, o professor, o aluno", enumera.

"Uma renovação permitiu que os juízes dos tribunais, culmimando até Brasília, tivessem uma mentalidade jurídica contemporânea, uma mentalidade jurídica do seu tempo, embora claro, em relação a outros países, estejamos atrasados 50 anos", finaliza.