08 de julho de 2026
Ciências

Mal de Parkinson: a esperança voltou!


| Tempo de leitura: 4 min

Cada neurônio parece uma aranha com as pernas representando prolongamentos, mas às vezes tem aspecto de estrela. Um dos prolongamentos é muito comprido e como um fio percorre grandes distâncias nos tecidos e se chama axônio. Os neurônios juntos formam nódulos nominados de gânglios neurais dos quais saem todos os axônios juntos como um fio elétrico. Sim, os nervos periféricos são "fios elétricos" formados por vários axônios. Os fios são envoltos por plástico, e os nervos por colágeno, uma proteína, ou por mielina, uma gordura. Ao cortar o fio elétrico se vê minúsculos filetes metálicos e nos nervos, os axônios. Alguns nervos são populares: trigêmeo, facial, vago e ciático.

O cérebro e a medula espinhal na coluna vertebral são formados por uma massa de milhões de neurônios e compõem o Sistema Nervoso Central. Ao lado da medula tem-se uma cadeia bilateral de gânglios neurais, também encontrados na cabeça e fora, do crânio. Cérebro, medula e gânglios estão interconectados por nervos como uma rede distribuída por todo o corpo para controlá-lo.

Os neurônios conversam entre si e estão conectados em cadeia ou rede. O axônio contata o corpo de outro neurônio com trocas de informações, mensagens ou comandos: cada um destes contatos chama-se sinapse. Para cada informação ser repassada na sinapse libera-se na interface uma substância conhecida como mediador em forma de gotículas microscópicas. Dependendo do mediador liberado na sinapse tem-se o sono, despertar, dor, fome e outras percepções. Alguns axônios fazem sinapses em outros tecidos para controlar suas funções como nos músculos.

Um dos mediadores nas sinapses cerebrais é a dopamina, que passa a mensagem de prazer, dor e controle dos movimentos. A falta de dopamina afeta o controle motor e os movimentos perdem efetividade e coordenação. Este quadro clínico ou doença de Parkinson caracteriza-se por tremores, rigidez muscular, lentidão e dificuldade em falar e escrever.

No centro do cérebro, uma região conhecida como substância negra, se apresenta lesada quando perde progressivamente os neurônios produtores de dopamina. Apenas 0,3% dos neurônicos produzem dopamina. A estratégia mais usada para controlar o mal de Parkinson implica em administrar um substituto para a dopamina ou levodopa; o cérebro a transforma em dopamina. Em último caso, quando o substituto não funciona, opta-se por colocar um eletrodo no cérebro para melhorar a comunicação entre os neurônios por meio de uma delicada cirurgia conhecida como estimulação profunda do cérebro ou DBS. Outras formas de tratamento ainda estão em testes.

Nas últimas décadas, a grande esperança era implantar células tronco no lugar nos neurônios degenerados no cérebro, mas os resultados não foram regulares e duradores. Pesquisadores brasileiros descobriram porque as células tronco mesenquimais não funcionaram tão bem: se diferenciavam em novos neurônios e melhoravam a lesão, mas junto iam células que diferenciavam em fibroblastos que atrapalhavam. Na forma pura, sem mistura com outras células, os resultados foram surpreendentes e promissores. Explicou-se porque as células tronco caíram em descrédito para a cura do mal de Parkinson!

O estudo feito por cientistas da USP e da UNIFESP, liderados por Oswaldo Okamoto, foi publicado no Stem Cell Reviews and Reports. Em 10 ratos com a doença injetou-se células tronco e não mais apresentaram a doença depois de um mês. Em outros 10 ratos injetou-se fibroblastos, uma célula comum nos tecidos do corpo e o mal de Parkinson piorou muito. Em 10 ratos porém, injetou-se as células troncos com fibroblastos e o quadro piorou mais ainda, sem qualquer melhora. Concluiu-se que os fibroblastos no ambiente inibiam os efeitos benéficos das células troncos, explicando porque tantas tentativas fracassaram anteriormente.

Não se sabe o que induz o mal de Parkinson, embora se reconheça a associação com o envelhecimento. Mas existem pacientes com até 13 anos, embora, a maioria receba o diagnóstico com mais de 50 anos. Porém, sabemos que a doença ocorre pela degeneração dos neurônios produtores de dopamina no cérebro. Estudos revelam que o mal de Parkinson está ligado a causas ambientais e a alguns genes do funcionamento das mitocôndrias. Entre estas causas ambientais está a ingestão inadequada e excessiva de medicamentos.

Estima-se que 1% da população mundial com mais de 65 anos tenha mal de Parkinson: cuidemo-nos, apesar da esperança com as células tronco ter voltado!


Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br