08 de julho de 2026
Geral

Sistema de Saúde teme chegada do oxi

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Considerado um dos grandes problemas de saúde pública, a epidemia do crack devasta os usuários. E, enquanto a polícia e as políticas sociais "perdem o sono" no combate a essa droga, a chegada de um produto muito pior é vista como questão de tempo. É o oxi que, além de preocupar as autoridades policiais, deixa em alerta os serviços de urgência e emergência de Bauru pelo seu alto potencial destrutivo e seus efeitos nocivos ao organismo que devem aumentar em muito a demanda de usuários intoxicados.

O oxi possui basicamente a mesma composição do crack (leia mais abaixo), porém, a fórmula é muito mais "impura". Ambos os entorpecentes são feitos com pasta base de cocaína, entretanto, a nova droga é oxidada com querosene, cal virgem e gasolina.

Com essa composição, os efeitos são devastadores ao organismo. A droga traz complicações por onde ela "passa" pelo corpo. Além dos prejuízos do uso constante do entorpecente (veja no quadro ao lado), os médicos projetam que os efeitos imediatos da droga podem comprometer o sistema de urgência e emergência da cidade.

Atualmente, o crack já traz ? em um número muito menor ? essa demanda. Segundo o diretor do Departamento de Urgência e Emergência do Pronto-Socorro Central (PSC), Luiz Antônio Bertozo Sabbag, os usuários chegam intoxicados com muitos problemas.

"80% de quem chega por intoxicação de drogas, medicamentos ou outros produtos biológico é pelo uso do crack. Essas pessoas apresentam muita dor abdominal, vômitos e diarreias", explica.

Sabbag conta que, em muitos casos, o próprio paciente relata o drama. "Ele mesmo conta que estava há dias só usando o crack e sem comer nada. Tentamos aconselhar com psiquiatras ou mesmo encaminhá-los para alguma ajuda, porém, eles ficam um ou dois dias e já abandonam o hospital".

Para todos, o procedimento é o mesmo. Os usuários recebem hidratação com soro e medicamentos para inibir os vômitos, diarreias e para proteger o estômago. "Além de hidratar, geralmente eles estão com gastrite. Isso ocorre pelo jejum constante que eles fazem, uma vez que deixam de comer para se drogar", conta Sabbag.

Ao relatar todo o problema que já se origina com o crack, o diretor do Departamento de Urgência e Emergência do PSC projeta um grande agravamento desse quadro com a possível ? provável ? chegada do oxi. "Essa droga tem muitas impurezas. Os efeitos são semelhantes ao crack, porém, muito mais intensos. Se, hoje, já chegam usuários com todos esses problemas, o oxi realmente vai piorar isso".


Aumento na demanda


O doutor em toxicologia regulatória pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) Edson Cardia confirma a forte intensidade dos efeitos do oxi e relata que a droga certamente levará uma quantidade maior de pessoas aos hospitais.

"Como é composta por combustíveis e cal virgem, o oxi pode queimar a parede interna do estômago e, com certeza, trará efeitos muito mais fortes do que o crack. Além disso, há o fato de ser mais barata. O oxi custa 20% do preço de uma pedra de crack e, assim, o número de usuários será maior. Quanto mais gente usando, mais gente sentindo os efeitos altamente nocivos", completa.

Além dos problemas instantâneos estomacais, o oxi eleva os batimentos cardíacos dos usuários, o que aumento o risco de infartos. O diretor Luiz Sabbag ainda faz outro alerta: "como a quantidade de impurezas é muito grande, temos medo até de que surjam outras degenerações ainda mais graves. Realmente, a projeção para esse quadro é preocupante".

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Política específica


Preocupado com essa futura e triste realidade trazida com a chegada futura do oxi, o diretor do Departamento de Urgência e Emergência do Pronto-Socorro Central, Luiz Sabbag, afirma ser necessário uma política específica de direcionamento desses usuários para que o sistema de urgência e emergência da cidade não seja prejudicado.

"Existe um projeto que visa encaminhar usuários em situação de intoxicação ao Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD). Entretanto, em Bauru, o órgão funciona em horário comercial. Seria preciso um plantão de 24 horas para que esses usuários sejam levados até lá. Enquanto não houver essa política específica, os usuários intoxicados ainda serão levados ao Pronto-Socorro e nós teremos que conviver com isso", conclui Sabbag.

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Oxi X crack


Tanto o crack quanto o oxi são compostos por pasta base de cocaína. Entretanto, o doutor em toxicologia regulatória pela Unesp e ex-delegado Edson Cardia explica que a nova droga é oxidada com querosene, gasolina, cal virgem ou até mesmo fluidos de baterias, o que diminui o preço do produto.

Essa diferença também impõe a maneira de distinguir as duas drogas. Enquanto o crack é mais amarelado, o oxi tem uma coloração marrom mais acentuada. Além disso, os resíduos com a queima são diferentes. O crack produz uma fumaça clara e cinza, enquanto o vapor do oxi é mais escuro.

Entretanto, mesmo com esses aspectos, a semelhança é grande, o que dificulta o trabalho da polícia e até mesmo gera dúvidas se o oxi ainda não chegou a Bauru. Conforme publicou o JC no início do mês, a PM ainda não tem uma confirmação oficial, porém, relata notícias da droga na cidade desde o ano passado.

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Samu também está em alerta


Os enfermeiros do Sistema de Atendimento Médico de Urgência (Samu), que levam os usuários intoxicados para o Pronto-Socorro Central (PSC), também temem a chegada do oxi. Hoje, eles já convivem com as dificuldades da dura realidade trazida pelo crack e sabem que a tendência é o agravamento da situação.

O enfermeiro Paulo Abiuzzi relata que, na maioria dos casos, a debilidade do usuário não é suficiente para que ele contenha a agressividade. "Geralmente é a família que nos aciona em casos extremos. Eles ficam tão agressivos que é preciso acionar a Polícia Militar para nos dar apoio".

O estado em que são encontrados é deplorável, o que será agravado com o uso do oxi. "Eles estão magros, com vômitos, diarreias e muito agitados. Temos que sedá-los para conseguir levá-los ao Pronto-Socorro", conta.

A futura chegada da nova droga faz com que o enfermeiro se preocupe não somente com a questão da saúde. Ele teme pela destruição da família do usuário. "Nós vemos coisas terríveis. Teve um caso em que a mãe precisava esconder o dinheiro do pagamento no congelador para que o filho não levasse. É uma grande degradação", completa Paulo Abiuzzi.

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Preços favorecem o oxi


Em Bauru, ainda não há registros de que o oxi já esteja circulando. Porém, o delegado seccional Benedito Antônio Valencise acredita que a tendência é de que o entorpecente chegue e se alastre em breve. "Hoje, se fala em droga e se fala em comércio. O oxi é barato e realmente terá muitos usuários. O preocupante é o alto poder destruidor", alerta.

O oxi é vendido em pedras assim como o crack. Entretanto, enquanto esta última custa cerca de R$ 10,00 cada unidade, o preço da nova droga é de apenas R$ 2,00.

Além do preço, a forma sistêmica assumida pelo tráfico atualmente também é preocupante. "As drogas circulam bastante pois os traficantes estão ?picando? mais. Eles pegam as grandes quantidades e logo transformam em várias pedras com muitos pontos de venda. Somente nesses 4 primeiros meses deste ano, já apreendemos mais de sete quilos de crack", informa o delegado seccional.

Para ele, o que possibilitou - e estimulou - esse sistema do tráfico é a própria legislação. "Hoje, há muitos benefícios ao pequeno traficante. O criminoso sabe disso e se aproveita. Ele distribui mais as drogas. Mas, quem é mais perigoso? O líder do tráfico ou aquele traficante que está nas escolas ou na porta de nossas casas", diz Valencise, em tom de cobrança.