A cada 2,5 minutos, uma receita médica é emitida pela rede de saúde municipal de saúde mental para o tratamento de pacientes com transtornos diagnosticados. Seja para curar uma simples ansiedade até as mais graves psicoses, são confeccionadas por dia 600 prescrições médicas. No mês, o volume chega a 18 mil.
Para uma cidade com população de 344 mil habitantes, o número soa assustador. Mas vale lembrar, ainda, que cada receita não representa necessariamente a recomendação de compra de um único remédio. Muitas trazem a orientação de aquisição de dois ou mais tipos de medicamentos diferentes.
Uma das unidades que respondem por grande parte destas receitas é o Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde são atendidos os casos psiquiátricos mais graves que chegam ao sistema de saúde municipal. Nele, são acolhidos pacientes que sofrem de psicoses ou depressões com sintomas de psicoses, grupo em que também se incluem os que já tentaram suicídio.
Depois de cuidados dentro dos programas desenvolvidos na unidade e de conseguirem sair da crise, estes doentes deveriam ser encaminhados ao Ambulatório Municipal de Saúde Mental (AMSM), para acompanhamento e manutenção do tratamento.
"Como são pacientes crônicos, não podem ser tratados em uma unidade de saúde comum. No ambulatório, há psiquiatras, neurologistas, terapeutas ocupacionais, psicólogos e um atendimento de enfermagem específico, onde muitos pacientes recebem medicação mensalmente", observa a diretora da Divisão Municipal de Saúde Mental, Vera Lúcia de Paula Rodrigues.
Mais pacientes
Mas, por conta da procura excessiva por atendimento, há algum tempo o ambulatório de saúde mental deixou de receber casos novos, segundo apurou o JC. Como consequência, os atendidos pelo Caps com quadro de saúde estabilizado estão sendo mantidos no centro até que possam receber alta definitiva.
"O Caps é uma unidade de porta aberta, que recebe todos que o procuram. Se a doença não for considerada grave, temos de encaminhar o paciente a uma unidade básica, principalmente para aquelas que contam com psicólogas. Num quadro de ansiedade, por exemplo, muitas vezes nem medicação é necessária. Uma terapia resolve", pondera a psicóloga Gislaine Léa da Silva Mondelli, do Caps.
Segundo Vera, o aumento da demanda por atendimento psiquiátrico nos últimos anos pode ser explicado por dois motivos. O primeiro deles é o aprimoramento das técnicas de diagnóstico, visto que muitas doenças psiquiátricas vêm sendo cada vez mais estudadas e compreendidas pela ciência.
O segundo ? e talvez mais forte ? componente é o crescimento real do número de doentes psiquiátricos no País, assim como vem ocorrendo em todo o globo. "Independentemente de o país ser desenvolvido ou não, a situação vem se agravando ao longo dos últimos anos. As doenças psíquicas já são uma grande preocupação para a economia mundial porque afeta a produtividade das pessoas e também provoca um ônus grande ao sistema público de saúde", analisa. 3
Rede acompanha 340 casos de depressão
Chamada de "doença do século", a depressão ? assim como a ansiedade, que muitas vezes se associa a ela ? é responsável por uma grande sobrecarga no sistema público de saúde. Em Bauru, somente o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e o Ambulatório Municipal de Saúde Mental (AMSM) acompanham cerca de 340 pacientes depressivos.
O número não considera os casos atendidos no Caps Álcool e Drogas (Caps AD) e Caps Infantil. "E temos muitos casos de depressão no Caps Infantil, inclusive com tentativas de suicídio, a maioria de meninas a partir de 13 anos. A cobrança social que elas sofrem a respeito da aparência e de assumirem a maturidade muito cedo acaba colaborando para este sofrimento", aponta Vera Lúcia de Paula Rodrigues, diretora da Divisão Municipal de Saúde Mental.
Ela explica, entretanto, que as mulheres entre 30 e 40 anos ainda são o público mais vulnerável à depressão em razão das exigências cotidianas e dos múltiplos papéis que elas se vêem obrigadas a assumir para ser bem-sucedidas. "Elas precisam ser mães, mulheres, donas de casa, profissionais e precisam realizar tudo muito bem. É um custo alto que, uma hora, pode não ser mais suportado", comenta.
A depressão, no entanto, não apresenta uma sintomatologia única, já que pode ser classificada em três níveis diferentes. O primeiro, leve, pode ser resultado direto de uma situação circunstancial, como a morte de um parente, por exemplo. "Mas, após o indivíduo elaborar e aceitar aquela perda, o quadro de depressão é revertido, mesmo que precise de psicoterapia ou mesmo do uso de medicação por um curto período", detalha.
Mas, se esta superação não ocorre, a depressão pode evoluir para um estágio moderado, quando o estado de humor instável e de tristeza se prolonga por muitos anos e as relações sociais e de trabalho, assim como a rotina alimentar e o sono, começam a sofrer prejuízos. Nestas condições, o uso de medicação é ainda mais recomendado, assim como a psicoterapia.
Já o nível grave abrange pacientes que sofrem surtos psicóticos, alucinações ou até tentaram suicídio. "Nestes casos, o sofrimento é tão grande que a pessoa rompe com a realidade e o tratamento precisa ser bem mais intensivo", revela.
Com alta de casos de suicídio, CVV volta a funcionar em Bauru
Devido ao aumento nos casos de suicídio na região de Bauru, o Centro de Valorização da Vida (CVV) voltou a atuar na cidade. Desde o dia 2 de maio, a entidade ? que atendeu durante os últimos sete anos sob o nome de Posto Samaritano ? agora procura voluntários para alcançar uma meta audaciosa.
Além do já tradicional atendimento 24 horas por telefone, a intenção é ampliar os trabalhos também fora do posto, com visitas agendadas em hospitais, asilos e escolas. Até o final do ano, a intenção é iniciar ainda o atendimento via internet, por meio de chat e e-mail.
"No momento, contamos com 16 voluntários e estamos atendendo apenas das 15h às 7h. Nosso objetivo é chegar a 40 voluntários até dezembro, quando pretendemos estar atendendo com total capacidade", afirma o coordenador do CVV Bauru, Antonio Alves da Silva.
Segundo dados do Mapa da Violência 2011 - estudo divulgado pela entidade em parceria com o Instituto Sangari, Ministério da Justiça e Ministério da Saúde -, 25 suicídios foram registrados em Bauru em 2008. Com este número, a cidade alcançou uma taxa de 7 mortes para cada 100 mil habitantes e passou a figurar como o 61º município com mais ocorrências de suicídio no Estado, proporcionalmente à população.
"É uma média de dois suicídios por mês e isso não é pouco. São pessoas que poderiam ter sido salvas se tivessem recebido ajuda", observa Silva. Para se ter uma ideia, no mesmo ano, o índice na Capital foi de 4,7, ainda que o tamanho da cidade pareça não interferir de maneira direta nas estatísticas.
Na região de Bauru, por exemplo, a pequena São Manuel é quarta cidade com taxa mais elevada de suicídios em todo o Estado (17,8 para cada 100 mil habitantes), seguida por Ibitinga, em 17º lugar (com taxa de 11,4) e Duartina, em 22º (índice de 10,4). Mas os números, felizmente, ainda estão longe dos registrados em países como Lituânia e Rússia, que encabeçam a listagem internacional com taxas de 33,1 e 30,1 suicídios para cada 100 mil habitantes, respectivamente.
"Mesmo assim, para a realidade brasileira, estamos vivenciando uma situação preocupante na região. É uma realidade que queremos ajudar a transformar com o nosso trabalho", adianta o coordenador do CVV.
Pessoas que precisarem de ajuda podem recorrer ao CVV em Bauru pelo telefone (14) 3222-4111, das 15h às 7h. Voluntários interessados em integrar a equipe da instituição também podem ligar para o mesmo número para obter mais informações. Para participar, é preciso ter mais de 18 anos e frequentar um curso de dois meses de duração, com aulas apenas às segundas-feiras, das 19h às 21h.