A prevenção ao câncer de mama enfrenta uma realidade inadmissível em Bauru. Por falhas na gestão do sistema, enquanto cerca de 1.700 mulheres encaminhadas pelos médicos do município para a realização da mamografia não conseguem o exame gratuito, sobram vagas ? e muitas - nos hospitais da cidade que oferecem o serviço. A justificativa é a de que essas mulheres não se encaixam nos protocolos que dão direito à gratuidade do exame. Entretanto, aquelas que se enquadram nesse perfil também sofrem com a demora.
O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que o câncer de mama tira a vida de aproximadamente 10 mil mulheres por ano no Brasil. É o segundo tipo de câncer mais frequente no mundo e o diagnóstico precoce é fundamental no tratamento. Entretanto, em Bauru, as mulheres enfrentam dificuldades na prevenção.
O problema está em conseguir a mamografia, o exame que permite a detecção precoce do câncer, ao mostrar lesões, mesmo muito pequenas, em fase inicial da doença. A mamografia somente deve ser realizada ? de forma gratuita ou não ? por prescrição do médico.
Segundo a assessoria de comunicação da prefeitura, há atualmente cerca de 1.700 pacientes esperando para realizar a mamografia pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O fato curioso é que, mesmo o exame tendo sido solicitado por médicos do próprio município, nenhuma das mulheres dessa "fila" teria direito a fazer o teste de forma gratuita.
De acordo com a lei 11.664/2008, que passou a vigorar em 29 de abril de 2009, as mulheres acima de 40 anos possuem direito à mamografia gratuita. Entretanto, o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, explica que, caso o médico verifique alguma alteração ou mesmo histórico familiar da doença, elas ganham esse direito independentemente da idade.
Mas e essas 1.700 mulheres? Qual a explicação para os médicos municipais terem solicitado a mamografia e, mesmo assim, elas não se enquadrarem no grupo daquelas que possuem direito à gratuidade do exame? O secretário argumenta que elas não se encaixam nesse grupo, pois, apesar de o médico ter pedido o exame, elas não estão na faixa etária de risco e, no encaminhamento, não consta o motivo da solicitação.
Ou seja, o secretário reconhece que há falha de procedimento do profissional na descrição do pedido. "Estamos reavaliando o pedido médico em cada uma dessas unidades. Iremos reavaliar todos os casos para saber se a mamografia é necessária ou não. Se verificarmos que a pessoa precisa do exame, ela receberá. O que pode estar ocorrendo é uma falta de clareza em relação ao protocolo por parte dos médicos do município. No pedido, eles não dizem se solicitaram o exame por alguma alteração ou histórico familiar", informa Monti.
Vagas ociosas
Entretanto, enquanto a reavaliação não sai, mulheres podem estar com a doença se agravando e, mesmo assim, sem o direito de realizar o exame pelo SUS. "Acho que nenhuma mulher que precisa desse exame está sem ele. Porém, não podemos ficar no ?achar?. É possível que haja e precisamos nos certificar disso", reconhece Fernando Monti.
E se parece contraditório o fato de a solicitação do exame por parte do médico do próprio município não ser suficiente para dar direito à mamografia gratuita, o mais absurdo é que existem vagas desse exame sobrando na cidade. Segundo o que a reportagem apurou, no Hospital Estadual (HE), uma das instituições que realiza a mamografia em Bauru, em 2011, foram disponibilizados 394 exames, sendo que desses 164 não foram realizados. Até o momento, dos testes que poderiam ter sido feitos, sobraram mais de 40%.
No ano passado, o Estado autorizou 2.602 mamografias para a instituição. O ano acabou e sobraram 780 exames, ou seja, enquanto mulheres ficaram sem o teste de detecção do câncer de mama, sobraram aproximadamente 30% das mamografias autorizadas.
Informado da sobra de vagas que contrasta com essa "fila", Monti afirma que "não é porque existem exames sobrando que será feito em quem não precisa. Cada situação será reavaliada".
Custo médio
Sem a gratuidade do exame garantida pelo SUS, as pacientes que foram às Unidades Básicas de Saúde (UBS) e tiveram a mamografia solicitada pelo médico convivem com uma dualidade difícil: ou deixam de fazer o exame de detecção ? contrariando o profissional ?, ou sofrem no bolso.
Na rede particular, um exame de mamografia custa em média R$ 150,00. Pagar o exame é a alternativa para essas mulheres que não se enquadram no protocolo que concede direito à mamografia pelo SUS.
Médicos
A reportagem ouviu um ginecologista da UBS para entender o contexto interno do problema. O médico, que não quis se identificar, confirma que muitos profissionais acabam solicitando a mamografia mesmo sem que ela precise. "Muitas vezes isso ocorre. A paciente insiste e o ginecologista acaba pedindo o exame", revela.
Outro médico, que trabalha em um instituto que realiza mamografias, também corrobora o problema de conduta profissional indicado pela Secretaria Municipal de Saúde, porém, revela outra questão preocupante. "O que ocorre é que quem autoriza os exames e encaminha também não olha direito os pedidos. Na ficha da solicitação, o médico coloca o motivo de ter pedido a mamografia. Em muitos, só a idade é olhada. Talvez a alteração e o histórico estejam lá, porém, não foi verificada", completa.
Pedro Tobias vai cobrar revisão do procedimento
Além de deputado estadual, Pedro Tobias é médico na área. Ouvido pelo JC, ele disse que vai se reunir com o secretário municipal de Saúde Fernando Monti e com diretora Regional de Saúde de Bauru (DRS-6), Doroti Conceição Vieira Alves Ferreira, para se inteirar sobre a demanda pela mamografia em Bauru e cobrar ajuste na articulação no sistema, pois garante que o SUS tem capacidade de atender a todas as mulheres que precisam do exame na cidade.
"Confesso que a informação me surpreendeu, pois a rede pública é capaz de realizar a mamografia nas pacientes. Como médico, nunca tive problemas com esse tipo de situação. Dependendo do caso, o exame é feito no mesmo dia, mas é claro que essa não é a regra. No entanto, o problema em Bauru pode estar no encaminhamento por parte dos médicos", afirma Tobias.
O deputado afirmou que vai intervir e sugerir a Fernando Monti que capacite os médicos da rede pública para que sigam o protocolo de encaminhamento. "Se os profissionais não estão sabendo como agir, precisam de treinamento, até porque o SUS não repassa os recursos para o pagamento do exame se ele é feito em uma mulher que não precisava dele", ressalta.
Além disso, Pedro afirma que não é difícil nem leva muito tempo para que todas as mulheres sejam submetidas à mamografia, desde que haja uma seleção das que, de fato, necessitam do exame. "Nós fazemos mutirões em Bauru e não é difícil solucionar essa demanda, até porque também sobram vagas nos hospitais", pontua.
Exame é ineficaz em mulheres jovens
Outro ponto importante apontado pelo médico Pedro Tobias é de que a mamografia não é eficaz para identificar tumores ou outros problemas em mulheres que tenham menos de 40 anos. "Mas é claro que, em casos de suspeitas mais graves e de antecedentes familiares, o exame pode e até deve ser feito", pondera.
O deputado explica, porém, que, até os 40 anos, os seios são compostos, essencialmente por tecido mamário. Após essa faixa de idade, a presença de gordura é muito maior. "Acontece que, no exame, a imagem da gordura é preta e do tecido mamário é branca. O tumor também é branco, então não aparece nos exames feitos em mulheres mais jovens", aponta.
Além disso, a mamografia é contra-indicada quando não há a necessidade efetiva porque a radiação faz mal à saúde. Nesses casos, é muito mais eficiente que os médicos apalpem as mamas de suas pacientes para sentirem ou não a presença de caroços, segundo Tobias.
Espera também atinge quem preenche os requisitos
Entretanto, não é somente esse grupo de mulheres que não preenche os requisitos para o direito à mamografia gratuita que convive com dificuldades na prevenção. Muitas das pacientes que estão dentro dos parâmetros para realizar o exame pelo SUS precisam lidar com a longa espera para que o procedimento seja efetivado.
É o caso de Sandra Nogueira, 43 anos, que, além da idade, teve histórico de câncer de mama na família. "Eu fui no posto de saúde e o médico recomendou o exame. Isso já faz dois anos. Sempre falam que tem uma longa fila de espera. Desde que o exame foi solicitado, convivo com o medo de ter alguma coisa. Minha avó já teve câncer de mama e eu tenho esse receio", desabafa,
Na cidade, pelo sistema público, a mamografia é feita no Hospital Estadual (HE) ou no Instituto da Mama, que é gerido pela Associação Hospitalar de Bauru (AHB). Para a realização do exame, as mulheres precisam ir a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e o médico fazer a solicitação. Depois, a paciente é encaminhada a uma dessas instituições.
No HE, o aparelho que realiza a mamografia está quebrado. Segundo a assessoria de comunicação, a máquina não funciona há cerca de 25 dias e a peça para o conserto está em processo de compra. A assessoria, entretanto, informa que há casos em que o município contrata o serviço particular para suprir essa carência.
Depois de conseguir a mamografia, o problema continua com a ultrassonografia da mama, que é basicamente um exame complementar. No Instituto da Mama, o que prejudica é a falta de médicos.
Além do encaminhamento depois de consultar uma UBS, o combate ao câncer contava com a opção de ir direto ao Instituto. Porém, essa alternativa deixou de existir há algum tempo, segundo o presidente do conselho de intervenção da AHB, Aparecido Donizeti Agostinho.
"Havia um médico que fazia a ultrassonografia nas pessoas que vinham direto no Instituto. Porém, no fim do ano passado, por uma série de motivos, esse profissional deixou de fazer esse exame. Então, realmente existe uma demanda reprimida. Mas, agora, um médico irá fazer esse serviço no HB", revela.
A demanda, de acordo com o diretor, seria uma fila de 33 mulheres que esperam a ultrassonografia no instituto. Segundo a assessoria de comunicação da prefeitura, em toda a cidade, o número de espera desse exame é de 920. O valor médio de uma ultrassonografia de mama na rede particular também é de aproximadamente R$ 150,00.