Rio - Os moradores de 143 apartamentos invadidos no início de 2011 no condomínio Ferrara, do programa Minha Casa, Minha Vida, foram despejados ontem em Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. O juiz da 26.ª Vara Federal do Rio, Valner de Almeida Pinto, concedeu liminar à prefeitura e à Caixa Econômica Federal determinando a reintegração de posse, depois de denúncia de que o condomínio estaria sob o domínio de milicianos.
O secretário municipal de Habitação, Jorge Bittar, disse que "a secretaria recebeu diversas denúncias de grupos armados andando pelo condomínio". A organização paramilitar estaria cobrando taxas dos moradores, e teria até mesmo vendido os apartamentos aos invasores, com preços entre R$ 2 mil e R$ 7 mil.
Os condomínios Ferrara, Treviso e Terni, que ficam lado a lado, foram adquiridos pela prefeitura junto à Caixa para as vítimas da chuvas de abril de 2010. Em janeiro deste ano, os beneficiados pelo Minha Casa, Minha Vida começaram a receber os apartamentos. No entanto, em fevereiro, segundo Bittar, grupos armados invadiram algumas casas do Ferrara, ameaçaram funcionários da Secretaria Municipal de Habitação (SMH) e expulsaram moradores. A situação não teria se repetido nos outros dois condomínios, mas a SMH ainda faz um levantamento.
Ontem, um dia após a decisão da Justiça que determinou um prazo de 24 horas para os invasores deixarem as residências, oficiais de justiça, acompanhados de policiais militares e federais, percorreram cada um dos 262 apartamentos. Os 119 moradores que estavam regularizados não foram despejados.
Um deles, A.C.S., 44 anos, confirmou que sofria pressões constantes de "homens de preto, armados, como se fossem da polícia". "Tentaram cobrar uma taxa, entre R$ 20,00 e R$ 30,00 por mês, diziam que era para o condomínio. Muitos pagaram com medo de represália. A polícia está aqui hoje, mas e amanhã? Estou com medo. Já coloquei duas trancas a mais na minha porta", disse.
Simone Rangel, 40 anos, desempregada, admitiu ter invadido o apartamento, mas negou a existência de uma milícia. "Aqui não tem nada disso, não tem gatonet (sinal pirata de TV a cabo). Se tivesse mesmo um grupo, já teriam arranjado um outro lugar para invadirmos de novo", disse. Apesar dos caminhões oferecidos pela prefeitura para fazer a mudança das famílias despejadas, Simone levou seus pertences para a porta do condomínio, e disse que não vai sair. "Vou ficar aqui, acampada, até me oferecem uma solução. Não tenho para onde ir."
A SMH informou que as famílias removidas podem optar por receber o aluguel social, de R$ 400,00, ou serem alojadas em um abrigo da prefeitura. Segundo o coronel Cláudio Lucas, comandante do 40.º BPM (Campo Grande), o policiamento será reforçado nos próximos dias para evitar que as invasões voltem a ocorrer.
De acordo com a Caixa, todos os 262 apartamentos têm donos contemplados pelo Minha Casa, Minha Vida. As moradias passarão por vistoria e, se for o caso, reparos, mas todos os beneficiados já foram informados de que poderão reassumir suas casas.