De volta a Bauru, decepcionado por não conseguir atingir os objetivos na cidade de Anori devido à falta de equipamentos e profissionais necessários, o cirurgião plástico Antônio Assunção não desiste e começa a busca por profissionais abnegados que pudessem doar dez dias, duas vezes por ano, de suas agendas para o trabalho voluntário no Amazonas. Assim, a enfermeira Naira Albino, o dentista Marlos Tercioti, a instrumentadora Rosa Dolo, os anestesistas Felipe Rothmann e Paulo Tabacow, além da aeromoça que faz o serviço de apoio, Maria Cecília Guidio, formam com o cirurgião plástico a "Missão Fala-Sorriso".
O nome do grupo vem da concepção de que a fala é tão ou mais importante que o sorriso. "Costumo dizer que se você fala bem, mas não tem um aspecto da face muito bom, pode trabalhar como telefonista ou locutor de rádio, por exemplo, mas não pode atuar como recepcionista. Contudo, se tem problemas na fala, mas tem aspecto bonito, não pode trabalhar em nenhum dos dois, porque a comunicação é importantíssima", acredita Assunção.
Desvencilhado da igreja que o levou até Anori por divergências de objetivos, Assunção recebeu um convite da secretária do Meio Ambiente de Careiro Castanho para operar no município que, segundo ela, possui melhores condições que Anori.
Proposta aceita, a primeira ida a Careiro Castanho foi em abril de 2010. Na chegada ao hospital, mais desafios. "O prédio é um antigo hotel de BR cheio de irregularidades, que hoje estão sendo modificadas aos poucos", expõe Assunção.
Das dificuldades encontradas na primeira missão, o carrinho de anestesia muito antigo, desmontado e cheio de poeira, era um dos principais. Além disso, não havia campos, aqueles panos grossos usados para cobrir os pacientes em cirurgias. Segundo o cirurgião plástico, havia uma certa má vontade ou desconfiança inicial do pessoal do hospital. "Chamei a enfermeira-chefe e disse que ela podia esterilizar jornais para usarmos como campos, que era basicamente o que estava faltando. Na mesma hora, ela me informou que já tinha providenciado os campos. Pedi que os buscassem".
Primeiras cirurgias
A primeira cirurgia labiopalatal estava marcada para o meio-dia do primeiro dia de trabalho da primeira missão em Careiro Castanho. Com os percalços, as operações começaram às 17h e terminaram por volta das 2h. Foram atendidos seis pacientes e a equipe não teve ajuda de ninguém do hospital, nem mesmo do pessoal da limpeza.
No segundo dia de trabalho, outra surpresa: o material cirúrgico não estava esterilizado e novamente, com atraso, a equipe operou até a madrugada.
"No terceiro dia eu dei alta para todo mundo. A diretora do hospital e a secretária de Saúde da cidade me chamaram para pedir desculpas pela má vontade inicial. Elas disseram ter ouvido que a cirurgia era perigosa e que as pessoas morreriam. Tivemos a impressão de que estavam esperando uma desgraça acontecer para a gente ir embora. Mas a segurança dos pacientes foi uma questão de ordem. Em 25 anos de cirurgia plástica, nunca um paciente foi a óbito e não seria lá que isso ia acontecer", relembra o cirurgião plástico.
Assim, a partir do terceiro dia de trabalho e da reunião com a diretora do hospital e com a secretária da Saúde, as condições de trabalho começaram a melhorar. "A diretora me confessou que estava no posto há apenas 15 dias porque o antigo diretor não quis a missão por lá. Agora, com o apoio do governo local, a Fala-Sorriso viaja duas vezes ao ano para Careiro Castanho e atrai cada vez mais pacientes do Estado do Amazonas", salienta Assunção.
Humildade emociona equipe médica
Cidade de 30 mil habitantes, Careiro Castanho é um município muito pobre. Não tem supermercados, colégios particulares ou outros confortos dos centros urbanos. O esgoto corre ao ar livre e falta calçamento nas ruas. De acordo com o cirurgião plástico Antônio Assunção, embora não se tenha dados estatísticos, a impressão que se tem é de que a incidência da fissura labiopalatal seja maior no Estado do Amazonas
São pacientes dos 5 aos 67 anos de idade e, embora extremamente humildes, a generosidade e a esperança estão presentes no cotidiano de boa parte da população.
"A pobreza e a miséria do local emociona e até nos faz chorar, mas me sinto por ser capaz de melhorar a vida desses pacientes. Eles são tímidos e muitos vivem no meio da floresta sem ao menos mostrar o rosto. É uma parte do Brasil muito interessante e que precisa de cuidados", conta Assunção.
Ao falar sobre os pacientes é praticamente impossível não notar a comoção nas palavras de Assunção. A carência das crianças é tamanha que, de acordo com relatos do médico, um simples brinquedo levado pela equipe é capaz de conter as lágrimas dos pequenos que passam por cirurgia.
Como a cidade de Careiro Castanho não possui fonoaudiólogos, a equipe também orienta e dá dicas de fisioterapia para trabalhar a fala após as cirurgias.
"Estou tentando com o prefeito um profissional de fonoaudiologia e um ortodontista, o que não resolve tudo, porque eles não conseguem ir de barco uma vez ao mês para as consultas. Por outro lado, eles se sentem muito felizes em ter o lábio e o céu da boca fechados. Acham que isso já é o suficiente", aponta Assunção.
Doações
Na bagagem dos integrantes da associação, além dos equipamentos cirúrgicos e dos objetos pessoais, vão também brinquedos e roupas para os pacientes que, muitas vezes, não têm sequer dinheiro para as refeições.
"O retorno e o carinho são grandes. Recebemos faixas em agradecimento e alguns pacientes, mesmo sem condições, tentam nos presentear com o que possuem, como animais que criam para o sustento, por exemplo".
Cirurgias labiopalatais
mudam vida de pacientes
Após a primeira viagem de sucesso, a "Missão Fala-Sorriso" ganhou a confiança não só do poder público, como também da comunidade amazonense. Na segunda viagem à cidade de Careiro Castanho, a quantidade de pacientes aumentou e, segundo o cirurgião plástico Antônio Assunção, as melhorias do hospital já eram visíveis.
Entre outros avanços, as salas antes com mofo e goteiras foram pintadas, o ar condicionado voltou a funcionar, um gerador de eletricidade foi instalado e o bisturi que cuspia fogo ao invés de cauterizar foi trocado. Além disso, mutirões em outras áreas médicas estão sendo realizados na unidade que estava praticamente parada.
Na segunda visita da equipe, o problema do aspirador usado para sugar o sangue da operação também foi resolvido. "Todas as providências tomadas são simples, mas eficazes. O aspirador, por exemplo, fazia um barulho imenso e, para resolver o problema, fizeram um buraco na parede para passar o tubo e colocaram o motor do lado de fora da sala".
Para firmar o compromisso com a comunidade, Assunção foi até a imprensa local e se comprometeu em retornar a cada seis meses. "O tratamento é longo, mas os resultados estão sendo bastante satisfatórios", evidencia.
O trabalho filantrópico da equipe de Bauru repercutiu tanto que, em novembro de 2010, a associação conseguiu uma entrevista com o secretário de saúde do Estado do Amazonas, onde melhorias e até a ampliação do hospital estiveram em pauta.