08 de julho de 2026
Geral

Há fórmula para casamento durar?

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

Marido e mulher até que a morte os separe. Ouvida por casais que trocam alianças ao longo do tempo, a frase perde o sentido quando o número atual de divórcios é analisado. Um levantamento feito pelo Colégio Notarial do Brasil - Seção São Paulo (CNB-SP), por exemplo, apontou que, no ano passado, o Estado registrou 9.317 divórcios, o que representa um aumento de 109% sobre 2009, ano em que 4.459 casais se separaram. A CNB atribui tal crescimento à publicação, em julho de 2010, da Emenda Constitucional 66, em que os prazos de oficialização, antes permitidos após um ano de separação formal ou quando o casal vivia em casas separadas, foram extintos

Por outro lado, a quantidade de divórcios leva a outras indagações. Partindo do pressuposto de que, quando um casal troca alianças, o desejo é construir sonhos e realizá-los juntos por toda a vida, onde os tijolos dessa construção caem? Existe uma fórmula para não errar e ser feliz no casamento? Há décadas tais perguntas têm sido fonte de pesquisa para especialistas em comportamento humano, e as respostas são as mais diversas possíveis

Alessandra Turini Bolsoni Silva é professora do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. Para ela, manter relacionamentos implica em muitos comportamentos, tais como empatia, saber conversar e resolver problemas, lidar com conflitos de opiniões, entre outros. Porém, nem sempre os casais sabem como resolver as questões que envolvem negociar interesses e dividir tarefas, dificuldade que acaba culminando, muitas vezes, em separações.

Para resolver os conflitos e até mesmo "segurar" o casamento, há quem lance mão de todos os artifícios possíveis, até mesmo o de ter um filho, o que pode ser um erro, de acordo com a psicóloga. Um filho pode até unir um casal, mas é preciso atentar para o efeito contrário que pode ocorrer. Diante das dificuldades enfrentadas pelo par, a chegada de um herdeiro pode representar um compromisso além das outras demandas, o que pode ampliar a chance de divórcio.

"É difícil afirmar, categoricamente, quais são os erros que levam ao divórcio, porém, a maior parte dos casais que chegam para atendimento na clínica de psicologia da Unesp se queixa da falta de divisão de tarefas, comunicação e afeto. Quando tentam resolver tais questões e não conseguem, acabam criticando um ao outro, deixam de falar, de ouvir, de elogiar e expressar afeto", revela Alessandra.


Paciência e autocontrole

De acordo com Alessandra Turini Bolsoni Silva, psicóloga do Departamento de Psicologia da Unesp de Bauru, paciência e autocontrole são palavras-chave para que haja sucesso e entendimento em qualquer relacionamento afetivo. E, mesmo que gere conflitos, expressar-se e apontar opiniões são atos necessários para melhorar a relação. Quando o amor ainda existe e as dificuldades não são superadas, a psicóloga aconselha a busca por ajuda profissional.


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Insucesso matrimonial pode estar ligado à falta de comprometimento

Professor de filosofia e antropologia do Instituto de Ensino Superior de Bauru (Iesb), Ivan José Abel acredita que a atual falta de comprometimento das pessoas é a principal questão a ser abordada a respeito do divórcio. Manter o próprio modo de vida dento do matrimônio, onde a vida passa a ser a dois, é outra mudança de comportamento que precisa ser analisada.

"Hoje, casar-se passou a ser equiparado ao desfazimento de um negócio qualquer. É comum as pessoas pensarem em seu íntimo: vou casar, se não der certo, separo. Ou seja, muitas vezes, aqueles que se casam o fazem de forma descompromissada e quando surgem os primeiros problemas conjugais, ao invés de adotar a postura de enfrentamento das divergências, acabam optando pelo rompimento", diz Abel.

O professor acredita que, assim como o modelo familiar passou por um processo de descaracterização ao longo do tempo - hoje, nem todas as famílias seguem o padrão pai, mãe e filhos -, o casamento também deixou de ser valorizado como antigamente. Segundo analisa, romper o laço matrimonial passou a ser tão trivial como romper laços profissionais ou de amizade.

Outra questão ressaltada pelo professor faz referência ao fato de os que se casam, tentam, de alguma forma, manter o seu próprio modo de vida dentro do casamento. "Eles querem ter seus próprios objetos, suas próprias contas bancárias, seus próprios carros, suas próprias diversões... E esquecem que a vida conjugal envolve também planos comuns, em conjunto".

Há algumas décadas, o casamento tinha a função primordial de unir famílias com o objetivo de perpetuar os laços afetivos através de uma nova que surgia, com fins procriativos. "Porém, com o passar do tempo, a sociedade adotou outros parâmetros de vida, dedicando-se mais à vida profissional e, portanto, o casamento deixou de ser prioridade, ficando em segundo plano. Isso pode ser comprovado com os casamentos tardios em função da carreira. Muitos até não pensam em se casar", ressalta Abel.

O mercado de consumo, que exige sempre e cada vez mais do trabalhador, seja homem ou mulher, também tem contribuído para as mudanças acerca do casamento e sua duração. Segundo análise do professor de antropologia, com o passar das décadas, o casamento perdeu o seu encanto para muitas pessoas, deixou de ser visto como um ideal de vida e a vida passou a ter outros atrativos.


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Junto há 56 anos, casal é exemplo de paciência e amor


A história de "seo" Nilton de Freitas, 80 anos, e dona Emerita Moreno de Freitas, 74 anos, teve início em junho de 1958 e, hoje, já somam 56 anos de casados. Da união surgiram 4 filhos, 9 netos e muitas histórias para contar.

"Gosto de dizer que somos casados há 56 anos e namorados há 59 anos. Sinto meu coração bater como asa de beija-flor quando falo dela e, todos os dias de manhã, agradeço a Deus pela vida e por vê-la dormindo do meu lado", diz "seo" Nilton.

Porém, engana-se quem acredita que para se dar bem por tantos anos, o casal não tenha passado por dificuldades. No namoro, segundo Nilton, as briguinhas e os pequenos deslizes aconteciam até para apimentar a relação. "Muitas vezes eu marcava de me encontrar com ela no Cine Bauru e esquecia de ir por causa do trabalho. Chegava atrasado e, é claro, ela brigava comigo. Mais depois vinham os beijos e abraços, carinhos que devem existir todos os dias de uma relação amorosa", lembra o entrevistado.

Já dona Emerita diz que, para um casamento durar até que a morte os separe, é preciso ter muito amor, porque a rotina traz aborrecimentos para qualquer casal. Paciência e compreensão também são indispensáveis para quem quer envelhecer ao lado do par amado. "Hoje percebo que falta paciência entre os casais. Talvez o medo de não se casar também seja responsável pelas escolhas precipitadas das pessoas. Sem amor, nada caminha".

Mas qual é a receita para que um casamento dure mais de meio século? Para Nilton, o segredo é não deixar o amor acabar. Ele lembra que, certa vez, acordou de madrugada e escreveu declarações de amor com batom no espelho do banheiro. Mas ao acordar, sua esposa ficou brava por ele ter acabado com seu batom novo. "Fui até a farmácia, comprei um batom barato e, na noite seguinte, escrevi frases de amor em todas as paredes do banheiro. O amor precisa ser declarado", dá a dica.