Um estudo desenvolvido na Universidade Harvard, em Cambridge, na Inglaterra, aponta que pessoas com tendência à depressão, ansiedade ou timidez são as mais suscetíveis às gafes porque teriam mais medo de cometê-las do que os demais indivíduos. Justamente por este temor, aqueles que contam o tempo todo com a possibilidade de criar uma "saia justa" entram frequentemente em um círculo vicioso: de tanto lutar contra este pensamento negativo, se concentram demasiadamente naquilo que gostariam de expulsar e acabam sendo traídos pela própria mente.
Segundo o levantamento, realizado pelo psicólogo social Daniel Wegner, que pesquisa esses casos há mais de 20 anos, estas pessoas seriam mais emotivas que a média e suportariam com menor tranquilidade as consequências de um "fora". "E, por ficarem mais tensas e se empenharem demasiadamente para se comportar ?bem?, elas se tornam mais vulneráveis a dizer algo que provoque constrangimento", comenta a psicóloga Thelma Margarida de Moraes dos Santos, coordenadora da clínica escola de psicologia da Universidade Sagrado Coração (USC).
Por outro lado, ela explica que as gafes cometidas por indivíduos mais expansivos e comunicativos acabam não tendo uma repercussão tão grande, exatamente por serem pessoas mais sociáveis e lidarem melhor com eventuais falhas. "São gafes com maiores chances de se dissolverem no contexto, principalmente se o diálogo for entre amigos. É claro que uma pessoa comunicativa também pode cometer lapsos desconsertantes, mas é mais raro acontecer", observa.
Pessoas impulsivas, entretanto, também sofrem com maior constância com "saias justas". Pela tendência de falarem demais, e de forma irrefletida, não raro elas se tornam reféns da própria língua. A aposentada Rosa Maria Ferreira Puccinelli, 65 anos, por exemplo, diz se encaixar neste perfil.
Nomes trocados
Bastante comunicativa, ela conta que sempre troca o nome do atual genro pelo do anterior, ainda que a filha já esteja no novo relacionamento há mais de três anos. "Não tem jeito. Teve um dia em que saímos juntos e ele comprou um lanche para mim. Na hora de agradecer, eu o chamei, mais uma vez, pelo nome do ex da minha filha. Foi péssimo", relembra.
De acordo com Rosa, as gafes constantes acabaram prejudicando qualquer chance de boa relação que ela poderia construir com o genro. "Não faço de propósito, mas ele fica bravo. Sou muito distraída, esqueço e troco o nome das pessoas sempre", comenta.
Já a dona de casa Wânia Húngaro Oliveira Aguillar, 47 anos, aprendeu a lidar com as constantes gafes de maneira mais tranquila ao longo da vida. Quando ainda era adolescente, ela conta que foi a uma festa com o namorado - atual marido - calçando chinelos, simplesmente porque esqueceu de colocar os sapatos na hora de sair.
"Estava toda arrumada e só na hora de descer do carro me dei conta de que estava de chinelo. Tive que voltar para casa correndo", relembra. Já casada, ela recebeu uma amiga em sua residência e não se deu conta de que estava calçando um sapato diferente em cada pé.
Há uma semana, preparou uma festa surpresa para um amigo, com o único detalhe: a data estava errada. "Comprei bolo e tudo. O problema é que achei que o aniversário era no dia 22. Na verdade, tinha sido no dia 18. Ninguém entendeu nada, mas comemoramos do mesmo jeito. Fazer o quê? O que vale é a intenção", brinca.
Déficit de atenção
Não há ninguém no mundo imune às gafes, mas quem as comete com muita frequência deve ficar atento. Se não forem esporádicos, os "foras" podem indicar problemas psicológicos e, num nível extremo, até mesmo distúrbio de déficit de atenção.
Mas, caso as "saias justas" estejam ocorrendo simultaneamente a um período pontual de estresse, ela pode estar associada à chamada crise situacional e não representa maiores riscos. "Numa situação de crise, os problemas tomam conta do pensamento e a pessoa não consegue se concentrar, o que abre margem para a ocorrência de gafes. Mas, assim que este contexto de estresse se dissipar, os lapsos tendem a diminuir", observa a psicóloga Thelma Margarida de Moraes dos Santos.
A ajuda psicológica, entretanto, deve ser procurada quando os erros fazem parte de toda a vida do indivíduo, que começa a ser taxado como distraído, avoado e passa a ser conhecido por suas "bolas fora". A psicoterapia, de acordo com Thelma, também é recomendada quando a pessoa possui uma personalidade irônica e produz gafes voluntárias e conscientes com o único objetivo de provocar uma situação constrangedora. "É algo completamente inadequado, um desvio que precisa de acompanhamento", pontua.
Como o "fora" acontece
Mesmo que lamentável, a gafe representa um efeito secundário e quase inevitável do mecanismo que controla a mente humana, a chamada metacognição (do grego meta: mais longe, além; e do latim cognitivo: conhecer). Em condições normais, uma espécie de censor interno sinaliza o aparecimento de um pensamento inapropriado. A partir deste alarme, um segundo processo é disparado: o suprimento deste pensamento.
Desta forma, o controle mental evita a revelação do que está sendo imaginado, monitorando a atenção e fazendo com que o indivíduo se concentre em outra coisa. Esse mecanismo costuma funcionar bem, mas por motivo de estresse ou quando duas tarefas complexas estão sendo realizadas ao mesmo tempo, ele pode falhar. É quando os conteúdos reprimidos fogem do controle e dão margem à produção de lapsos. Além de refletir na comunicação verbal, estes erros também podem ter efeito no controle de movimentos e na tomada de decisões.
Dois namorados?
A atendente Suellen Caroline Aparecida Gomes, 24 anos, cometeu uma grande gafe na última semana. Funcionária de uma loja de conveniência de um posto de combustíveis, há duas semanas ela havia atendido uma mulher que foi ao estabelecimento comprar chocolates e deixou o namorado esperando no carro, do lado de fora.
"Ela disse que o namorado não gostava de chocolates e que estava comprando para provocá-lo", conta. Só que, na última semana, a mulher voltou na loja com outro rapaz, que Suellen acreditou ser o mesmo que estava dentro do carro no outro dia.
"Perguntei: ?Foi para ele que você comprou chocolate naquele dia??. A mulher ficou vermelha e eu não sabia onde enfiar a cara. Percebi que tinha feito coisa errada, pedi desculpas, mas ela ficou muito brava", revela.
À mesa
Ainda que as gafes à mesa pareçam gerar um desconforto menor em relação aos "foras" que surgem nas relações interpessoais, a professora e consultora de etiqueta social Glorinha Braga Ortolan ressalta que os bons modos na hora de comer ou beber também precisam ser seguidos.
Talvez por desconhecimento das regras, grande parte das pessoas, por exemplo, não se dão conta de que não devem segurar uma taça pelo bojo - e sim pela haste - ou manusear a comida segurando a faca com a mão esquerda. "Para alguns, pode parecer bobagem, mas causa desconforto em quem conhece. Quem sabe o jeito certo, geralmente não fala nada. Mas que está errado, está. E é uma gafe, sim", sentencia.