Entre os últimos anos do século 19 e a primeira década do século 20, o cientista brasileiro Vital Brazil Mineiro da Campanha esteve à frente de uma luta que, vitoriosa, até hoje continua salvando muitas vidas no país: a produção de soros específicos para o veneno de cada tipo de cobra. Os primeiros 15 anos dessa luta foram registrados num livro lançado em 1911, "A Defesa contra o Ophidismo", que se tornou um marco na história da produção científica brasileira.
Cem anos depois, uma edição especial da obra de Vital Brazil foi lançada no mês passado, na sede da Associação Médica Fluminense, em Niterói. Fruto de uma parceria entre o Instituto Vital Brazil (IVB), o Instituto Butantan e a Casa de Vital Brazil, que cuida da preservação da memória do cientista. A reedição também comemora os 146 anos de nascimento de Vital Brazil.
Em dois volumes, integrados em um estojo, o livro contém o fac-símile do original, com todas as suas ilustrações e fotografias e comentários de especialistas. Traz ainda a reprodução de documentos importantes, como uma carta do então presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, em agradecimento a Vital Brazil pelo recebimento de um exemplar da obra.
As pesquisas de Vital Brazil tiveram início quando ele percebeu que o soro descoberto em 1894, por cientistas franceses ligados ao Instituto Pasteur e ao Museu de História Natural de Paris, não poderia ser usado contra o veneno de qualquer tipo de cobra. "Na verdade, só era eficaz para o veneno da naja, serpente encontrada na Indochina", diz Érico Vital Brazil, neto do cientista e presidente da Casa de Vital Brazil.
Na época, o Brasil se expandia para o Interior e a imensa população rural enfrentava o risco de vida representado pelas picadas de cobra. O ofidismo, acidente caracterizado pela picada de cobra venenosa, era um problema grave no país. Vital Brazil começou, então, a desenvolver os soros específicos para os venenos das serpentes brasileiras no Instituto Butantan, fundado por ele, em 1899. Em agosto de 1901, os primeiros soros antiofídicos já começavam a ser distribuídos à população.
A consolidação da soroterapia como defesa contra o ofidismo foi uma batalha difícil, segundo relata o neto do cientista. "Vital Brazil teve que lutar muito com relação à divulgação desse tratamento. O país tinha, na época, uma população com 80% de analfabetos, sem possibilidade de acesso à informação, e essa era a parcela mais atingida [por picadas de cobra], como é até hoje . Ele enfrentou uma série de dificuldades, até mesmo na obtenção de veneno para produzir soro. E não foi nada fácil ter uma quantidade suficiente de serpentes para a produção do soro", relata Érico.
De acordo com o diretor científico do IVB, Luís Eduardo Cunha, um século depois, o livro A Defesa contra o Ophidismo é muito atual. "O resultado das pesquisas de Vital Brazil salvou e continua salvando muitas vidas", diz. Para muitos estudiosos, a campanha do cientista brasileiro não teve paralelo no mundo até hoje, em relação a uma questão epidemiológica.
Fundado em 1919, por Vital Brazil, o IVB, hoje vinculado à Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil, é um dos 18 laboratórios oficiais brasileiros e um dos três fornecedores de soros contra o veneno de animais peçonhentos para o Ministério da Saúde.