09 de julho de 2026
Geral

Área de conflito, escolas geram 4,5 casos ao dia no Conselho Tutelar

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Compreendida por muitos como o território em que os adolescentes externam toda rebeldia pertinente à respectiva faixa etária, a escola demanda um serviço árduo ao Conselho Tutelar de Bauru. Somente nos três primeiros meses do ano, o órgão realizou mais de 400 atendimentos para solucionar - ou tentar - problemas escolares como indisciplina, conflitos ou mesmo a evasão das salas de aula.

Se for considerado o primeiro trimestre de 2011, as ocorrências somam um total exato de 410 atendimentos nas escolas tanto estaduais quanto municipais da cidade. Com isso, o Conselho Tutelar realiza uma média de 4,5 atendimentos por dia nas instituições de ensino bauruenses.

O maior número são as advertências e a evasão escolar, que juntas, somam 274 atendimentos. Ambas relacionadas ao problema da ausência dos alunos nas salas de aula, a presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Roberta Maria Almeida de Oliveira, relata que é uma das maiores dificuldades do órgão.

"A advertência é quando o aluno está chegando aos 20% de faltas permitidas. Já a evasão é quando deixa de frequentar as aulas mesmo. Ainda é um problema muito sério e que se deve a vários motivos, como brigas, bullying, a atenção dos pais, entre outros", afirma.

Já os outros casos são referentes à própria disciplina - ou falta dela - por parte dos alunos. Segundo dados fornecidos pelo próprio Conselho Tutelar, foram 70 atendimentos por conta de conflitos (quando a situação se agrava até mesmo com agressões físicas) e outros 66 por indisciplina escolar.

"Todos esses casos são extremos. Somente depois de todas as tentativas sem sucesso da diretoria é que somos acionados", explica Roberta de Oliveira, apontando que o problema escolar, mesmo em menor intensidade, é maior do que o referente a esses números.

Problema que é sentido por alunos e pais que depositam no sistema público de ensino a perspectiva da boa educação. É o caso de Estevan Nunes Costa, 11 anos, que está na 6.ª série de uma escola estadual de Bauru.

Há um ano e meio ele veio de outra cidade e conta que já enfrentou diversos problemas. "Eles mexiam muito comigo. Tenho outro amigo, que tem o costume de brincar sozinho. Todo mundo chama ele de autista", revela o garoto.

Estevan relata também que existem "várias brigas com socos e chutes" e que até professores são vítimas dos problemas escolares. "Muitos alunos não respeitam. Teve um professor de ciências que teve que sair porque ninguém obedecia ele".

Enquanto Estevan tenta lidar com os problemas diários, sua mãe, a comerciante Cristiane Nunes Costa, 32 anos, "vive" de casa a preocupação. "Cada dia que ele vem para a aula, eu fico pensando. Fico preocupada que algo possa ocorrer. É algo que me perturba muito", completa.


Família

A presidente do Conselho Tutelar confirma que a escola se tornou área de conflitos, porém, enxerga que a instituição é apenas uma extensão de outras, como a própria família.

"O que os conselheiros e psicólogos percebem é que, muitas vezes, o aluno acaba refletindo na escola o que vive fora dela. E é isso que deve ser pensado: a reprodução de comportamentos. Se um aluno está dando problemas na classe, é provável que esteja com problemas em casa".

Para comprovar essa situação, Roberta de Oliveira afirma que é assim que muitos problemas são descobertos. "Às vezes, o professor identifica um aluno problemático e, com base no problema que ele está gerando na classe, consegue identificar uma agressão na sua casa ou até mesmo um abuso. Por isso, vemos que a escola que nos dá trabalho (para o Conselho Tutelar), porém, ela reflete o que ocorre fora dela", completa.

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Meses conturbados


Apesar de ser uma área de conflitos, não foi só a escola que exigiu o Conselho Tutelar em Bauru. Este primeiro trimestre foi bastante conturbado para o órgão. Somente nesse período foram realizados 3.970 atendimentos entre problemas escolares, familiares, dependentes químicos, mediação, orientação, entre outros.

Para se ter uma ideia de como os três primeiros meses de 2011 apresentaram números elevados, em todo o ano passado o Conselho Tutelar realizou 5.782 atendimentos na cidade. Ou seja, o balanço do primeiro trimestre deste ano já representa quase 70% do total de 2010.

"Vejo que esse aumento da demanda é muito em relação à credibilidade que o Conselho ganha a cada dia. Credibilidade principalmente em relação ao sigilo. As pessoas ficam menos tolerantes e sabem que podem denunciar sem se comprometer", acredita a presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Roberta de Oliveira.

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?Só 20% dos casos chegam até o Conselho?, aponta Vera Caserio


Os casos que chegam ao Conselho Tutelar são somente aqueles que não puderam ser solucionados dentro das escolas. Segundo Vera Caserio, secretária municipal de Educação, a estimativa é de que esses casos sejam apenas 20%.

"O município tem a própria assistente social que age em conjunto com a diretoria para resolver os problemas. Estimamos que sejam solucionados cerca de 80% dos problemas pelo secretaria e pela escola. O restante é que vai para o Conselho Tutelar", informa.

Caserio concorda que a família tenha grande influência no que acontece nas instituições escolares, entretanto, aponta que o próprio ambiente é favorável aos conflitos.

"É um período de socialização e de conviver com as diferenças. Realmente as ocorrências são mais frequentes entre adolescentes. É quando começam a aflorar problemas, como as diferentes ?tribos? e até mesmo ciúme de namoradas. O tripé família-comunidade-escola tem grande influência, porém, o ambiente também é propício aos conflitos", completa a titular da pasta, Vera Caserio.

Por meio da assessoria de comunicação, a Secretaria de Estado da Educação ressaltou conseguir bons resultados com o Sistema de Proteção Escolar (SPE), implantado em 2009 e que tem o objetivo de resolver situações de conflito e prevenir e monitorar ocorrências. Ainda de acordo com a assessoria, a secretaria também trabalha o tema violência em outros dois programas: "Prevenção Também Se Ensina", destinado à redução do uso do álcool, tabaco e outras drogas, e o "Comunidade Presente", que promove a discussão de temas como direitos humanos, ética, cidadania e resolução pacífica de conflitos.

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Enquanto pais vivem com medo,
alunos convivem com a ?zoação?


O cotidiano das escolas bauruenses realmente confirma o número de atendimentos realizados no Conselho Tutelar. A balconista Simone Ferreira, 35 anos, ficou assustada com algumas orientações passadas pela diretoria da instituição onde sua filha Dafny Azevedo, de 11 anos, estuda.

"Eles pediram para evitar tomar água e ir ao banheiro pela questão da violência. Dizem que não é para ficar andando sozinho pelos corredores. Outra coisa proibida é o boné para evitar de alguém trazer algo escondido, como drogas, por exemplo", conta.

Já Dafny, que cursa a 5.ª série, relata que o maior problema é a questão do bullying. "Como sou alta, eles me chamam o tempo todo de ?poste?. E não é coisa só de meninos. Meninas também fazem isso".

Guilherme Gumieira, 13 anos, está na mesma escola de Dafny e confirma que "todo mundo zoa todo mundo". Seu pai, o empresário Fábio Gumieira, 37, também vive essa preocupação constante, justamente por já ter vivido outra experiência problemática.

"No ano passado, meu outro filho, que tinha 18 anos, teve uma discussão sem relevância na sala de aula. Depois, isso se transformou em uma briga até com agressão física fora da escola. Por isso, tenho medo", completa o empresário.