08 de julho de 2026
Ciências

O tempo de vida e os telômeros

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

O menino tinha um par de sapatos e eram de amarrar. Os cadarços estavam sempre com os laços perfeitos; seu pai, cedo ensinou-lhe como deixá-los simetricamente com as pontas penduradas. Em cada ponta do cadarço havia um plástico para não desfiar; a ponta enrijecida facilitava colocá-lo nos furos do sapato. Às vezes o cadarço se soltava e o menino não percebia, pisava em cima das pontas.

Ele ficava chateado, pois quando desfiadas as pontas, era mais difícil enfiar o cadarço no buraco do sapato e significava que o sapato estava ficando velho. E trocava-se os sapatos apenas uma vez ao ano, o dinheiro era pouco e o pai trabalhava muito.

Viemos de uma célula formada pelo espermatozoide e pelo óvulo. Todas as células tem 23 cordões ou fitas onde estão escritos os nossos segredos. Estas fitas não são de papel ou plástico, mas de um material chamado DNA.

Cada segredo, cada receita, cada informação escrita nestas fitas se chama gene. Em cada fita tem aproximadamente 1.000 receitas. Mas quem fez o homem era desconfiado e fez 23 cópias: então temos em cada célula 46 fitas ou 23 pares com um total de 25 mil genes.

Cada uma das fitas tem entre 1 e 2 metros de comprimento, mas todas não caberiam dentro do núcleo de cada célula. Dentro do núcleo das células arrumou-se 46 carretéis de proteínas com formato em X ou Y e enrolaram uma fita em cada um de forma que ficaram muito pequenos. Resolveu-se o problema de espaço e cada um destes carretéis passou-se a chamar cromossomo.

Cada célula multiplica-se centenas de vezes durante a vida e em todas as vezes os carretéis, ou melhor, os cromossomos, precisam ser desenrolados para a fita de DNA ser esticada, lida e duplicada. Com o processo de enrolar e desenrolar ocorre a cada mitose, as pontas dos cromossomos, como as dos cadarços dos sapatos, vão se desgastando, puindo e corroendo-se.


Proteções

As pontas dos cromossomos vão ficando com as proteções envelhecidas e menores. As pontas dos cromossomos chamam-se telômeros e são responsáveis pela estabilidade do material genético. Algumas células têm a enzima teleromerase que não deixa isto acontecer, mas nem todas no corpo tem este mecanismo de reparo e as pontas dos cromossomos vão se encurtando!

Da mesma forma que o menino sabia que o sapato estava envelhecendo pelas pontas dos cadarços, o homem aprendeu a analisar e avaliar o estado das pontas dos cromossomos ou telômeros e até medir seu comprimento. Acredita-se que assim dá para predizer se estás mais ou menos velho; se vais viver mais ou menos.

Você pode pegar qualquer célula nucleada. Poderia ser da pele, da bochecha e outras partes, mas os testes foram padronizados a partir das células sanguíneas. Depois de marcar bioquimicamente com cores e luzes, avalia-se o tamanho e a forma dos telômeros em cada cromossomo do indivíduo e vem a sentença final: você está mais velho do que cronologicamente deveria estar. Ou você está muito mais novo! Ou sua vida será breve daqui para a frente, aproveite-a!

Algumas empresas fornecem o serviço de análise e avaliação dos telômeros como a Life Lenght de Maria A. Blasco ou a Telome Health de Calvin B. Harley e a nobelista Elizabeth H. Blackburn. Se você é estressado, sedentário, fumante ou bebe muito pode ser que seus telômeros estejam curtos. Nos obesos, portadores de doenças cadiovasculares e do mal de Alzheimer os telômeros também são mais curtos. As pesquisas revelam que os que fazem exercícios, os mais tranquilos e com estilo leve de vida tem telômeros mais longos.

É incrível: quem tem telômeros curtos terá um tempo de vida menor! Será que as empresas de seguro e de planos de saúde poderão exigir o teste do telômeros para estipularem preços e prêmios!? Será que noivos desistirão do casamento ao saber que não viverão muito tempo?

Na verdade, os testes não são tão precisos para prever o dia em que se vai daqui para outra melhor (espera-se!), mas dá para indicar nosso estado de saúde, a idade real e prever doenças antes que apareçam.

Para Harley, os testes sobre comprimento dos telômeros permitem uma avaliação do processo de envelhecimento, pois a sua velocidade e qualidade estão diretamente relacionadas à interação dos nossos genes herdados com as condições ambientais em que escolhemos para viver.

Cada um pode optar pelo estilo de vida. Ao calçar os sapatos, avalie os cadarços: temos muito que aprender com os sapatos. Cuide bem deles!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br