08 de julho de 2026
Articulistas

A Terra em que vivemos

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

Do fundo do oceano mais profundo ao topo da montanha mais alta existem, talvez, uns vinte quilômetros, mas, considerando que vivemos fora dos oceanos e respiramos oxigênio, nada menos do que 99,5% do espaço habitável do mundo, em volume, estão, em termos práticos, completamente fora do nosso alcance. Da pequena porção da superfície do planeta seca o suficiente para ser habitada, uma boa parte é quente, fria ou íngreme demais para nós. Porém, quando examinamos as condições em outras partes do Universo conhecido, o espantoso não é que utilizemos tão pouco do nosso planeta e sim que tenhamos conseguido encontrar um planeta do qual possamos utilizar ainda que um pouquinho.

Estamos à distância certa do Sol, grande o suficiente para irradiar quantidades imensas de energia, mas não grande demais para exaurir-se rapidamente. Dois minutos-luz mais perto dele, Vênus tornou-se uma estufa escaldante. Afastando-se do Sol, em vez de calor, o problema passa a ser o frio, como demonstra a gelidez de Marte. Também segundo a Nasa, Marte, da mesma forma que Vênus, foi um lugar bem mais agradável, porém não conseguiu reter uma atmosfera aproveitável e transformou-se num descampado congelado.

Creio que poucas pessoas se achariam com sorte em poder viver em um planeta com um interior cheio de magma, mas sem ele, se revolvendo sob nossos pés, não estaríamos aqui. Esse interior buliçoso liberou gases que ajudaram a formar uma atmosfera adequada para nós e proporciona o campo magnético que nos protege da mortal radiação cósmica. Além disso, forneceu-nos a tectônica das placas que, continuamente renova e vinca a superfície. Vários estudos demonstram que se a Terra fosse perfeitamente lisa, estaria toda coberta de água, com profundidade de quatro quilômetros. Poderia haver vida nesse oceano solitário, mas com certeza não teríamos partidas de futebol.

Temos sorte, também, em ter uma companheira com um quarto do diâmetro da Terra. Sem uma Lua deste tamanho para nos estabilizar, a Terra oscilaria como um pião prestes a parar. A influência gravitacional da Lua mantém a Terra girando na velocidade e no ângulo certos para proporcionar a estabilidade necessária para o desenvolvimento da vida. O Universo é um lugar instável e agitado e nossa existência nele é um milagre. Se aquele meteoro não tivesse exterminado os dinossauros, 65 milhões de anos atrás, Você estaria lendo este artigo em uma toca. Como se poderia esperar, o oxigênio é nosso elemento mais abundante, representando pouco menos de 50% da crosta terrestre; o carbono é apenas o décimo quinto elemento mais comum, com modestos 0,048%, mas sem ele estaríamos perdidos. Minha professora de Química, lá do antigo Científico (dra. Agnes), dizia ser o carbono descaradamente promíscuo. É o festeiro do mundo atômico, agarrando-se a um número exagerado de outros átomos e segurando firme, justamente o segredo da natureza para construir proteínas e o DNA. Entretanto, o carbono não é abundante nem mesmo nos seres humanos, que dependem tão vitalmente dele. Segundo SnyderC. H. (The extraordinarychemistryofordinarythings - John Wiley& Sons, 1995), de cada duzentos átomos em nosso corpo, 126 são hidrogênio, 51 oxigênio e apenas 19 são de carbono. Dos quatro restantes, três são de nitrogênio e o quarto átomo é dividido entre todos os demais elementos.

Evoluímos para utilizar estes elementos da natureza na medida certa ou dentro de margens estreitas. O selênio é vital para todos nós, contudo se Você ingerir um pouco além da conta será a última coisa que terá feito na vida. As propriedades dos elementos podem se tornar ainda mais curiosas quando eles são combinados. Oxigênio e hidrogênio são dois dos elementos mais amigos da combustão, mas ao se juntarem, formam a água incombustível. Imagino que qualquer visitante do espaço se espantaria por vivermos numa atmosfera composta de nitrogênio, um gás que se recusa a reagir com qualquer coisa e de oxigênio que, de tão favorável à combustão, nos obriga a ter Corpos de Bombeiros em todas as cidades. O cloro, embora útil em pequenas concentrações, é notoriamente perigoso, no entanto, unido a outro elemento desagradável, o sódio, gera o sal de cozinha. Por isso, não devemos estranhar que outros mundos possam abrigar seres gratos por seus lagos prateados de mercúrio ou por suas nuvens itinerantes de amônia.


O autor, Paulo Cesar Razuk, é engenheiro e professor