09 de julho de 2026
Articulistas

Dengue, um mosquito a bailar

Telma Gobbi
| Tempo de leitura: 3 min

Casos de dengue explodem em todos os estados brasileiros com percentuais assustadores e alarmantes. Apesar de convivermos a mais de três décadas com a dengue, pois os primeiros relatos de casos foram em 1980, a população continua refém da incompetência do gerenciamento dado às epidemias no Brasil. Nem a aplicação do "fumacê" está sendo efetiva. O mosquito da dengue se adaptou e vem vencendo as tentativas do setor de saúde para seu controle. Hoje o mosquito baila em solo brasileiro, valsa e em traje a rigor, acometendo inúmeros brasileiros levando a conseqüências desastrosas e até à morte. "Muitos brasileiros já tiveram a 1ª. 2ª e a 3ª dengue, ficando com seqüelas da doença" (dr. Antony Wong). Mesmo assim, toda esta situação é considerada uma surpresa a cada entrada de um novo ano, mas tem períodos bastante conhecidos para chegar e mostrar sua fúria.

Outro aspecto a ser analisado é a certeza da grande ocorrência de sub-notificações de casos de dengue. A não especificidade do quadro clínico clássico, que freqüentemente é confundido com outras doenças febris, a menor ocorrência de casos graves dá uma falsa aparência de benignidade da doença e as falhas do sistema passivo da vigilância epidemiológica quanto à notificação são alguns fatores que podem estar contribuindo para um sub-registro.

A questão que se coloca aqui como fundamental não é a sub-notificação em si, pois não é necessária notificação total dos casos para se perceber a magnitude e a gravidade deste problema de saúde pública. A possível falsa sensação de redução do número de casos no país entre 2010 e 2011, conforme anunciado pelo Ministério da Saúde, mesmo após explosivas epidemias, pode ser indevidamente interpretada e levar as autoridades de saúde a adotar posição de conforto na atuação ao combate do vetor, o maior inimigo, o mosquito da dengue.

Agora, com a presença da dengue sorotipo tipo 4 no Brasil, que não circulava há pelo menos 28 anos em nosso país, a maioria da população ainda não teve contato com ele, por isso está desprotegida para esta variante e atitudes firmes têm que ser tomadas já visando 2012. Não é uma dengue mais grave ou menos grave, mas a população está suscetível. A Organização Mundial de Saúde, a Organização Pan-Americana de Saúde e o Ministério da Saúde são os órgãos fundamentais para o ditame das ações básicas no combate ao mosquito adulto.

A Organização Pan-Americana de Saúde, OPAS, vem alertando sobre a necessidade de uma melhor estrutura para tratar o paciente com dengue. Isto é importante, entretanto, o mais importante ainda é acabar com o vetor da dengue. Prezados ministros, secretários e coordenadores do setor de saúde, não basta assumir a postura de chefe, há necessidade de envolver a população e de exercitar ações efetivas de cunho duradouro para se eliminar o inseto adulto, uma vez que a vacina com certeza levará anos até chegar ao desenvolvimento final, produção e distribuição.

Ações mirabolantes não existem no combate à dengue, temos sim é que formar um exército de cidadãos no ataque ao mosquito adulto. Bauru está em destaque no Estado de São Paulo, a segunda cidade com maior número de casos de dengue, e tem que tomar uma atitude firme, convocar todos os cidadãos a participarem da luta contra o mosquito. Quem sabe fazer a "Caminhada Bauruense Contra a Dengue", como forma de agregar todas as forças vivas da cidade para ao combate deste inimigo e também abraçar o modelo de Singapura, o "Dez Por Sete". "Dez Por Sete" significa que cada morador dedique dez minutos uma vez por semana na identificação e eliminação dos criadouros do mosquito em sua residência, quebrando seu ciclo evolutivo. Assim Singapura, que enfrentava uma epidemia de dengue, venceu esta mazela da sociedade.

A autora, Telma Gobbi, é médica e colaboradora de Opinião