A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) está por trás da pressão sobre São Paulo e das ameaças de deixar a cidade de fora da Copa do Mundo de 2014, e não a Fifa. A revelação foi feita por dirigentes da entidade que conversaram com a Agência Estado sob a condição de que seus nomes não fossem divulgados. Eles garantem que a pressão vem diretamente do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e asseguram que a Fifa não tem interesse em ver a cidade excluída. "A ideia deles (CBF) é mesmo concentrar as atividades no Rio de Janeiro. Isso vem de Ricardo (Teixeira)", assegurou Geoff Thompson, ex-vice-presidente da Fifa - ele deixou o cargo ontem e, exatamente por isso, se sentiu à vontade para falar.
A relação de Ricardo Teixeira com o PSDB, partido que governa São Paulo há 16 anos, é conflituosa desde a gestão de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Foi na administração do ex-presidente que duas CPIs investigaram os negócios do cartola, no cargo desde 1989. E quando iniciou-se a guerra aberta do dirigente contra expoentes do tucanato paulistano, como Silvio Torres (ex-deputado que relatou a CPI dedicada a investigar o contrato entre CBF e a Nike). Ricardo Teixeira, que nunca teve interlocução com o atual governador do Estado, Geraldo Alckmin, também é amigo pessoal do senador Aécio Neves (PSDB-MG), neste momento envolvido numa disputa interna na sigla com correligionários de São Paulo.
A cidade se transformou na maior polêmica da Copa porque demorou a equacionar problemas políticos e financeiros para a construção do estádio do Corinthians, em Itaquera (zona leste da cidade). Por causa disso, foi excluída da Copa das Confederações, que será disputada em 2013, e está sob a ameaça de perder a primazia de organizar a cerimônia de abertura do Mundial, no ano seguinte. Para Thompson, não há como pensar a Copa sem a maior cidade brasileira. "São Paulo precisa entrar e vai ser mantida. É muito importante", afirmou.
Ontem, a Fifa disse que está "tudo sob controle" com relação à preparação do Brasil. "Estamos trabalhando bem com Ricardo Teixeira. Acima de tudo, temos apoio da nova presidente do Brasil (Dilma Rousseff), que nos deu garantias de que problemas serão superados nas áreas de aeroportos, transporte e acomodação", disse o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke. Para ele, a "maioria das cidades" está em situação confortável.
Mais polêmica
Desde que o Brasil ganhou o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, já recebeu cerca de R$ 1 milhão em "bônus" pagos pela Fifa por sua atuação como membro do grupo do Comitê Executivo da entidade. O valor recebido por Teixeira é o mesmo que foi repassado aos demais membros do órgão e que, nos últimos anos, foi substancialmente reajustado. Em 2008, para se ter uma ideia, a Fifa distribuiu US$ 100 mil a cada cartola. Em salários, a entidade gasta por ano o equivalente ao que destina em projetos sociais. O salário de Blatter é mantido em total sigilo. Ele diz que é proporcional ao que a Fifa fatura.