09 de julho de 2026
Política

Recape em "ruas boas" gera discussão

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 7 min

Um dos problemas com maior índice de reclamações em Bauru está relacionado às más condições das vias públicas no município. Já não é novidade que mesmo as ruas pavimentadas apresentam grande incidência de buracos e asfalto muito antigo, com idade média de 20 anos. Segundo a Secretaria Municipal de Obras, são 7 mil quadras na cidade que precisam de recape. A meta da atual administração é terminar o governo com pouco mais de 2 mil delas recapeadas. Mas qual será o critério adotado para a escolha das ruas que recebem ou receberão as melhorias?

A pergunta gera dúvidas na população, que percebe a execução das obras em vias que aparentemente não precisavam do recapeamento com urgência, enquanto outras, onde o problema na pavimentação é mais evidente no dia a dia, moradores e motoristas continuam cobrando melhorias.

A discussão não pode se fixar no âmbito leigo, mas a falta de informações alimenta as discussões. Munícipes se surpreenderam, por exemplo, ao se deparar com as obras de recape na rua Fuas de Mato Sabino, que recebeu os serviços de melhorias por toda a sua extensão. Localizada no Jardim América, paralelamente à avenida Getúlio Vargas, a via já apresentava condições favoráveis ao tráfego de veículos e despertou a revolta de moradores de outras regiões, especialmente nos bairros de Bauru.

Não é difícil encontrar ruas em condições precárias, que, independentemente de critérios técnicos, precisam de recape. A avenida Maria Ranieri, no Parque Sabiás; a rua Benedito Ribeiro dos Santos, no Jardim Carolina; e a avenida das Bandeiras, na Vila Industrial são apenas alguns dos exemplos de vias com problemas na pavimentação, que fazem ligações entre bairros e concentram grande fluxo de veículos. Já na região central, a rua Benjamin Constant, para cima da Nações Unidas, é outro exemplo de via que precisa do recape a olho nu.

Asfalto antigo


De acordo com o secretário de Obras, Eliseu Areco, os itens acima definem os principais critérios para a escolha das ruas que são recapeadas. "Nós damos prioridade às vias com asfalto antigo, com maior movimento, às que dão acesso aos bairros e às da linha do transporte público", pontua.

A auxiliar de limpeza Maria Aparecida Teodoro, 42 anos, mora na quadra 10 da avenida das Bandeiras, onde o tráfego, especialmente de caminhões e ônibus, é intenso e constante. "É normal acontecer desses veículos de grande porte quebrarem aqui na rua por causa dos buracos. Os motociclistas também sofrem bastante para passar por aqui. Além disso, a rua em péssimo estado vira problema de segurança para que mora aqui e para pedestres também porque os carros passam em alta velocidade para tentar escapar dos buracos", relata.

Aparecida conta que, quando chove, é comum a abertura de crateras no asfalto. "O pessoal da Prefeitura vem aqui, tapa o buraco, mas em pouco tempo outros são abertos porque a rua precisa de recapeamento", reclama a auxiliar de limpeza, alegando que há maior atenção à Zona Sul por parte do poder público, mesmo quando as necessidades dos bairros são muito maiores.

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Secretário argumenta


O secretário de Obras, Eliseu Areco, explica que o recapeamento de toda a extensão da rua Fuas de Matos Sabino estava dentro de um pacote de 480 quadras mais 120 outras aditivas, licitadas em setembro do ano passado. "Dividimos a cidade em quatro setores e uma empreiteira ficou responsável pelos trabalhos de cada um deles. A previsão é de que todas as obras estejam concluídas até a metade desse ano", afirma.

Ele argumenta que o asfalto da rua Fuas tem mais de 20 anos de idade e, portanto, precisa de manutenção. Outro ponto que explica o recapeamento, desnecessário a olho nu, na via do Jardim América é o aumento do fluxo de veículos com as mudanças no tráfego implantadas pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb).

"A rua é hoje uma alternativa para a avenida Getúlio Vargas, que, inclusive, é interditada aos domingos. Além disso, essa foi uma solicitação da Emdurb, que transformou a rua em mão única, implementando o sistema binária com outra via paralela", conta Areco.

Percorrendo a extensão da Fuas de Matos Sabino, a equipe do Jornal da Cidade constatou problemas aparentemente mais sérios apenas no asfalto da quadra 9 da via. Parte dela está coberta por paralelepípedos e a outra metade, por asfalto. No meio da rua, um buraco, tapado provisoriamente com terra, forma uma falha na via que incomoda moradores.

A professora Rose Leite Capinzaiki, de 63 anos, mora no local e diz que há 30 anos aguarda a quadra ser completamente asfaltada. "Desde que moro aqui, essa rua sempre foi coberta pelo asfalto somente pela metade", comentou.

Já o buraco se formou há cerca de 3 semanas. "Provavelmente, por causa de um vazamento, tiveram que abrir um buraco na rua e taparam com terra". Eliseu Areco alega, porém, que não vale a pena executar os serviços de recape de forma parcelada, apenas em partes das ruas. "Isso só acontece em vias de extensão muito grande, como a Duque de Caxias, que é dividia em quatro partes", explica.

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Especialista explica os critérios de avaliação


Consultado pela reportagem do JC, o especialista na área de pavimentação, Vladimir Coelho, professor aposentado da Engenharia Civil da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explicou que o critério utilizado para a avaliar as necessidades e as prioridades é definido a partir do cálculo ponderado chamado de índice de gravidade global. "Por amostragem, o técnico faz o levantamento dos defeitos na via, bem como da gravidade deles", pontua.

Problemas como remendo, buracos, trincas e afundamentos são classificados como de baixa, média ou alta gravidade. "Trata-se de uma avaliação subjetiva, feita a olho nu. Em função disso, costuma-se escolhes as ruas que são recapeadas. Existem critérios objetivos, mas é muito mais caro e trabalhoso", afirma.

O professor garante, porém, que a idade do asfalto não é o critério essencial que determina a urgência do recapeamento das vias. "Isso não tem nada a ver com a história. Não necessariamente um asfalto de 20 anos precisa ser recapeado", explica, alegando que o tráfego de veículos pesados exerce papel determinante no desgaste do asfalto.

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Valor por quadra


R$ 16 mil é o valor médio pago por quadra pela prefeitura às empreiteiras contratadas para executar o recapeamento das vias de Bauru. "Cada uma delas tem cerca de 80 metros quadrados. No entanto, algumas têm um pouco mais e outras, um pouco menos, e isso é que dá a diferença no valor", aponta Eliseu Areco. O custo por quadra, porém, não varia de acordo com melhores ou piores condições das vias que são recapeadas.

De acordo com o secretário de Obras, o rendimento de cada empreiteira nos serviços de recape é de oito quadras por dia. "È um serviço rápido. Tendo a verba e sendo realizadas as licitações, as empresas iniciam os trabalhos nos locais determinados pelos engenheiros da Secretaria de acordo com critérios técnicos.

Bauru tem um déficit de 7 mil quadras que precisam ser recapeadas. Na metade desse ano, a prefeitura alcança o número de 1.050 quadras que já terão recebido esse tipo de serviço. Segundo Eliseu Areco, a meta é terminar os quatro anos de governo Rodrigo Agostinho com 2.100 quadras recapeadas, sendo 900 delas com obras da própria Prefeitura e outras 1.200 terceirizadas por empreiteiras.

Os problemas com buracos nas ruas de Bauru também são atendidos pelos serviços de tapa-buracos, medidas paliativas que não resolvem a situação de precariedade das vias.

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Vereador questiona qualidade do serviço


Na sessão da Câmara da última segunda-feira, o vereador Marcelo Borges (PSDB) falou na tribuna sobre os serviços de recapeamento que estariam sendo executados de forma insatisfatória por empresas contratadas pela prefeitura. O tucano citou, como exemplo, a rua Fuas de Matos Sabino, no Jardim América, mas garantiu que esse não é o único caso na cidade.

Por conta disso, Borges afirmou que levaria a discussão à reunião da Comissão de Obras da Câmara Municipal de Bauru, que deve solicitar informações para saber se a administração já aprovou e pagou pelo serviço na Fuas. "Não sou técnico para avaliar se o recape foi feito ou não de forma adequada, mas o caso dessa rua é gritante porque nem parece que foi recapeada recentemente", afirma o vereador.

A reportagem do JC constatou no local que, como apontou Marcelo, existe uma emenda no meio da rua. "Parece que tem um degrau no asfalto. Além disso, o material já está soltando", observa.

Empregadas domésticas que trabalham em residências na Fuas de Matos Sabino preferiram não se identificar, mas ironizaram o serviço executado. "Eu me surpreendi quando começaram a recapear aqui porque no bairro onde eu moro a situação é muito pior do que a daqui. Mas depois que terminaram o recape aqui, eu me surpreendi novamente porque, apesar de ter tido alguma melhora, o trabalho não ficou muito bom. Não era para estar com tantas pedrinhas soltas do jeito que está", conta uma delas.

Os moradores da rua que conversaram com o JC, porém, minimizam as más condições do recapeamento da Fuas.