Depois de algum tempo ausente desta coluna, volto aqui para contar novos causos e histórias de mateiros, caçadores e pescadores.
Hoje, vou contar sobre um acontecido com o meu pai, que foi grande caçador e pescador. Seu nome era Floriano, que chegou ainda criança em Jacutinga, hoje Avaí, onde mais tarde tornou-se lavrador e depois trabalhou na pecuária até próximo dos seus 80 anos. Mas quando era moço, defendeu as cores do time avaiense "Estrela da Noroeste", equipe de futebol respeitadíssima na década de 1920. Ele gostava muito de caçar e pescar e orgulha-se da sua excelente pontaria e das suas imitações de aves e animais, os quais vinham sempre de encontro aos seus tiros certeiros.
Floriano tinha um cachorro que era seu inseparável companheiro, chamado Voluntário. Esse cão sem raça definida tinha jeito e trejeito de lobo, pois tinha pernas longas e finas que lhe conferiam estatura, velocidade e respeito. Os dois trabalhavam, caçavam e viajavam sempre juntos e a obediência desse animal para com o seu dono era incondicional, mas havia uma modalidade de caça que o Voluntário não podia particular. E é justamente sobre uma dessas que vou contar.
Numa tarde, Floriano resolveu caçar de espera num jirau que fez bem numa curva de uma trilha de animais selvagens que desciam para beber água no rio Batalha, mas como esse modo de caçar exigia muito silêncio, logo o Voluntário não pode ir, ficando amarrado no quintal de casa.
O Floriano estava feliz da vida, juntando suas tralhas, indiferente com a tristeza do seu cachorro. As suas tralhas de caça eram constituídas por uma mortal cartucheira "Full-Cock 36", uma garrucha de dois canos "Sollinger 22", um facão longo Guarani, além de um embornal de couro com munições. Tinha também um lampião do tipo gasômetro para iluminar o caminho na volta.
O caçador saiu de casa em direção ao rio Batalha cruzando antes a água da aldeia de Araribá, onde já avistava as matas do rio Batalha, naquela época, uma beleza virgem e intocada. Enquanto isso, o Voluntário estava amarrado com a cara literalmente no chão de tanta tristeza.
Floriano chegou à mata do Batalha quando o lusco-fusco daquele entardecer já ia bem adiantado e até confundia o seu rumo a seguir, por isso apressou o passo, pois ainda estava longe do seu jirau.
O Voluntário sentia-se um injustiçado, logo ele, tão fiel e conhecedor daquelas trilhas todas e dos perigos que cercavam um homem caçando sozinho num ermo daqueles. "E se o Floriano não voltar mais?". Ah! Isso jamais iria acontecer, pois aquele cachorro fiel daria antes a sua própria vida pela do seu dono, e pensando nisso, passou comer o nó da corda que o segurava ali...
Agora, o Floriano adentrava numa área de banhados que era muito feia, mas que ele mesmo achava bonita, onde as imagens das árvores de fora, emendavam-se de cabeça para baixo dentro do espelho d´água, dificultando o rumo da caminhada e foi justamente ali que o caçador percebeu que alguém o seguia. Ele ficou muito preocupado, pois se ele andava, o outro andava e se parava, o outro também parava. "Os lobos fazem assim", pensou ele sozinho naquele lugar feio. Que falta fazia o seu cachorro numa hora daquela.
Floriano tirou do seu embornal uma espécie de diapasão rudimentar que ele mesmo fizera e com ele imitou uma capivara, mas nada nem ninguém respondeu. Imitou outros e outros animais e o silêncio foi a resposta. Ele não podia de maneira alguma permitir a iniciativa de ataque de quem quer que fosse, por isso decidiu enfrentar aquele problema na base do que "der e vier", pois não dava tempo de chegar ao jurau. Nem subir no mesmo com toda sua tralha.
O caçador, então, retrocedeu alguns passos e viu que aquele que o seguia era um grande quadrúpede que cruzava seu caminho antes da hora. Ele não podia ver o que era, mas pôs um joelho no chão para melhorar a firmeza, colocou a arma em punho e num movimento que o animal fez entre as árvores, puxou o gatilho.
O estrondo da sua cartucheira foi sobremaneira forte e ouvido por pessoas longe dali. O seu eco reverberou-se por curvas e mais curvas do rio Batalha, demorando a dissipar-se. Um silêncio com cheiro de morte se fez naquele momento.
O Floriano não conseguia respirar e nem enxergar que espécie de animal havia abatido devido a fumaça da pólvora Caramuru que ele utilizava, mas já sentia dentro de si a alegria que iria sentir quando contasse aos seus amigos sobre sua nova proesa. Mas essa alegria e pensamentos estavam errados. Quem estava certo mesmo era o seu cachorro, quando ainda estava amarrado e imaginava dar a sua vida pela vida do seu dono.
Esta história que eu conto hoje aconteceu há quase 100 anos e foi o próprio Floriano quem contou quando voltou para casa, mas o seu cachorro Voluntário, devido a sua alta fidelidade, não voltou nunca mais.
Eurico de Oliveira é aposentado, pescador e contador de história