09 de julho de 2026
Articulistas

O rei do lixo

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Pode jogar, isso é lixo, coisa que já não serve mais pra nada. Fulano virou um lixo, estigma de quem ficou arruinado, pondo a vida a perder pelo vício. Essas expressões vão perder sentido porque o lixo começou a deixar de ser lixo, como coisa imprestável, como coisa a ser descartada por não ter mais utilidade e só servir de incômodo. De grande problema para as cidades devido ao alto custo da coleta e deposição em aterros sanitários, o lixo começou a ser visto como uma fonte de riqueza. Silvio de Abreu, como bom novelista, já antecipou esse fato pela ficção, fazendo de Olavo, personagem de Francisco Cuoco, na novela Passione, um empresário bem sucedido. Era o "Rei do Lixo", que se dava ao capricho de permitir que sua mulher, Clô, personagem de Irene Ravache, comprasse uma mansão e fizesse uma decoração caríssima.

Sobre esse assunto, a revista Exame, nº 10, traz uma interessante matéria, citando uma entrevista de David Steiner à revista Fortune, com a seguinte previsão: "daqui a dez anos será possível extrair tanta riqueza do lixo que as empresas do setor poderão fazer a coleta de graça, sem que nenhum governo tenha de pagar pelo serviço." A empresa que Steiner preside, a Waste Management, é a maior dos Estados Unidos, administrando 273 aterros sanitários, 17 usinas de geração de energia por meio da incineração do lixo e 119 operações de conversão do gás metano dos aterros em energia. Opera, ainda, 91 estações de reciclagem de lixo comum e 34 de processamento de lixo orgânico. Seu faturamento anual atingiu 12 bilhões de dólares.

Segundo a Exame, aqui no Brasil, apesar de incipiente e pulverizado pelo país, com 0% de transformação em energia e apenas 13% de reciclagem, o mercado do lixo já movimenta quase 20 bilhões de reais por ano. Pelo menos duas grandes empresas estão se destacando no setor, a paulista Estre e a carioca Hazte. A Estre está com faturamento previsto para este ano de ?$ 640 milhões, operando 10 aterros sanitários nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná e em Bogotá e Buenos Aires. Dois novos aterros estão com inauguração prevista para os próximos meses, aqui em Piratininga e em Aracaju. A Hazte, com participação dos fundos de investimento da Petrobras, Caixa e Bradesco administra 5 aterros sanitários nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco. Espera faturar este ano ?$ 700 milhões.

Apesar do sucesso dessas duas empresas, e de outras menores possivelmente existentes, por enquanto ainda estamos numa fase limitada à coleta e separação de coisas recicláveis, feitas pelos catadores de lixo, que percorrem as ruas das cidades com seus carrinhos toscos. Estima-se a existência de um milhão de catadores, muitos deles explorados por atravessadores. Criadas há alguns anos, por movimentos sociais, as cooperativas de catadores de lixo vêm desenvolvendo um trabalho extraordinário de inclusão social. Baseadas no conceito de economia solidária, com o apoio de prefeituras e de algumas empresas engajadas no movimento de responsabilidade social, as cooperativas criam espaços para o depósito, seleção e venda dos materiais coletados, organizam a coleta nas ruas e, muitas delas, treinam os catadores em segurança contra acidentes e doenças próprios dessa atividade. Até treinamento para desmonte de lixo eletro-eletrônico vem sendo ministrado. Algumas montam creches e até clubes. É um movimento que vem crescendo, que tem tirado milhares de catadores de lixo do estado de miséria, mas ainda é um trabalho assistencialista. Embora cooperados, com renda garantida, estão à margem da seguridade social.

O interesse de investidores, como os dos casos citados, mostra que a utilização econômica do lixo é um campo promissor para os futuros empreendedores e traz uma perspectiva animadora para os que sonham com a inclusão social dos desprotegidos da sorte, se o Estado regulamentar o setor de modo a evitar a formação de grupos econômicos que açambarquem a exploração dessa matéria prima.


O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidentes da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras